1

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

2

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Esta obra foi digitalizada/traduzida pela Comunidade Tradues e Digitalizaes para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefcio da leitura queles que no podem pagar, ou ler em outras lnguas. Dessa forma, a venda deste ebook ou at mesmo a sua troca  totalmente condenvel em qualquer circunstncia.

Voc pode ter em seus arquivos pessoais, mas pedimos por favor que no hospede o livro em nenhum outro lugar. Caso queira ter o livro sendo disponibilizado em arquivo pblico, pedimos que entre em contato com a Equipe Responsvel da Comunidade  tradu.digital@gmail.com

Aps sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim voc estar incentivando o autor e a publicao de novas obras.

Tradues e Digitalizaes Orkut  http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057 Blog  http://tradudigital.blogspot.com/ Frum  http://tradudigital.forumeiros.com/portal.htm Twitter  http://twitter.com/tradu_digital

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

3

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 1

Nunca imaginei que o banco de trs de um carro pudesse ser romntico  disse Ivy, reclinando se, sorrindo para Tristan. Em seguida, olhou para a baguna que estava no cho do carro.  Talvez fosse melhor voc tirar a sua gravata de dentro do corpo do Burger King. Tristan pegou a gravata encharcada e jogou a no banco da frente, depois sorriu e sentou se ao lado de Ivy novamente.  Ai!  o odor de flores esmagadas espalhou se por todo o carro. Ivy deu uma gargalhada. Qual  a graa?  perguntou Tristan, tirando as rosas esmagadas grudadas em suas costas, no conseguindo evitar o riso.  E se algum passar por ai e reparar no adeviso de sacerdote do seu pai colado no pra choque do carro? Tristan jogou as flores no banco da frente e trouxe Ivy para mais perto de si. Deslizou a mo pelo vestido de seda, que ela usava deu um beijo suave em seu ombro.  Eu falaria que estava com um anjo.  Ah! Que conversa fiada!  Ivy, eu te amo  disse Tristan, ficando serio subitamente. Ela olhou para ele e depois mordeu os lbios. Isso no  um jogo. Eu amo voc, Ivy Lyons, e um dia voc vai acreditar em mim. Ela deu lhe um abrao apertado.  Te amo, Tristan Carruthers  sussurrou em seu ouvido. Ivy acreditava e confiava nele como jamais havia confiado em algum. Um dia, criaria coragem para dizer, com todas as letras, Eu te amo, Tristan. Colocaria a cabea para fora da janela e gritaria. E at colocaria uma faixa bem no meu da piscina da escola. Depois disso, levaram alguns minutos para se arrumar. Ivy comeou a rir de novo. Tristan sorriu ao v  la tentar inutilmente te arrumar os cabelos desalinhados. Em seguida, ligou o carro, passando por cima dos buracos e das pedras at chegar  estrada estreita. ltima olhada no rio  disse assim que fizeram uma curva, desviando se do lugar em que estavam. O sol de junho dominava toda a regio oeste do interior de Connecticut, enviando os seus raios de luz s copas das arvores, cobrindo as como se fossem ouro. A estrada sinuosa parecia um tnel de bordos, lamos e carvalhos. Ivy sentia estar nadando em meio s ondas com Tristan, o sol brilhando no alto, os dois juntos em movimento unssono, em direo a um abismo de azul, roxo e verde escuro. Tristan ligou os faris do carro. Voc no precisa correr  disse Ivy.  No estou mais com fome.  Eu matei a sua fome? Ela balanou s cabea negativamente.  Acho que me alimentei de felicidade  respondeu suavemente. A velocidade do carro contorneava aumentando pelas curvas da estrada.  J falei que a gente no precisa correr. Engraado. No sei o que... No parece que...  murmurou Tristan, olhando para os ps.  V mais devagar est bem? No tem problema se a gente se atrasar um pouquinho.  Ah!  Ivy apontou para frente da estrada.  Tristan! Havia algo saindo do meio dos arbustos e parando no meio da estrada. No dava para ver o que era. S dava para perceber a movimentao por entre as sombras. E, ento, o cervo parou. Virou a cabea e olhou fixamente para as luzes dos faris.  Tristan!  eles estavam cada vez mais prximos dos olhos brilhantes.  Tristan, voc no est vendo? A velocidade no parava de aumentar. Ivy, tem algo... Um cervo!

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

4

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Os olhos do animal reluziam. Havia uma luz atrs dele, uma mancha brilhante em meio  escurido. Um carro vinha na outra pista. Do outro lado, havia inmeras rvores. No tinha como eles desviarem nem para a esquerda nem para a direita. Pare!  ela gritou. Estou... Pare! Porque voc no para?  ela implorou. Tristan, pare! O para brisas explodiu. Nos dias que se seguiram quele, Ivy no conseguia se lembrar de nada, alm da cascata de vidro estilhaado. Ivy deu um pulo ao ouvir os tiros. Odiava piscinas, especialmente piscinas cobertas. Apesar de ela e suas migas estarem a uns 300 metros da piscina, sentia se como se estivesse nadando. O ambiente no passava de uma nvoa mida, escura, de cor verde azulada e com um forte cheiro de cloro. Todo ecoava, o som dos tiros, os gritos da multido, os nadadores caindo na gua. Assim que Ivy entrou na rea da piscina coberta, sentiu falta de ar. O que ela queria mesmo era estar l fora, apreciando a brisa e o sol daquele belo dia de maro. Deixe me ver de novo. Qual deles  ele?  perguntou. Suzanne Goldstein olhou para Beth Van Dyke. E Beth tambm olhou para Suzanne. As duas balanaram a cabea negativamente, suspirando. Ah ta, como  que eu posso saber quem  ele? Todos esto depilados, todos eles, sem exceo: braos depilados, pernas depiladas e at peitos depilados  um bando de carecas usando toquinhas de borracha e culos de natao. Todos usam sungas com as cores da escola. Pelo que sei, podiam muito bem ser um bando de aliengenas.  Se eles so aliengenas, vou me mudar para o planeta deles  disse Beth sem parar de clicar a ponta da sua caneta. Suzanne tirou a caneta das mos de Beth e disse com a voz rouca:  Meu Deus, como eu gosto de competio de natao!  Mas voc nem liga para os nadadores quando a competio comea  comentou Ivy.  Porque estou olhando para o prximo grupo a subir nos trampolins  explicou Beth.  Tristan  o que est na raia central. Os melhores nadadores sempre competem nas raias centrais  disse Suzanne.  Ele  o nosso homem bala.  o melhor no estilo borboleta. Na verdade,  o melhor de todo o Estado  acrescentou Beth. Ivy j sabia disso. Havia cartazes da equipe de natao espalhados por toda a escola: Tristan emergindo da gua, seus ombros movimentando se rapidamente em direo ao espectador, seus braos poderosos como se fossem asas. A pessoa encarregada da publicidade sabia o que estava fazendo ao escolher aquela foto. E tinha feito inmeras cpias, o que foi muito bom, pois todos os cartazes de Tristan viviam desaparecendo  indo parar dentro dos armrios das garotas. Foi em algum momento no meio dessa loucura de cartaz que Beth e Suzanne comearam a pensar que Tristan estava interessado em Ivy. Bastaram dois encontres no corredor em um mesma semana para convencer Beth, a criativa escritora que j tinha lido uma coleo de romances de bolso.  Mas Beth, j dei vrios encontres em voc. Voc sabe como eu sou  argumentou Ivy.  Sabemos  disse Suzanne.  Cabea nas nuvens. Quilmetros de distncia da Terra. Vive no mundo dos anjos. Mas, mesmo assim, acho que a Beth tem razo quanto a isso. Lembre se, foi ele quem deu um encontro em voc.  Talvez ele seja desajeitado fora da gua. Como os sapos  disse Ivy, sabendo que no havia nada de desajeitado em Tristan Carruthers. Lembrou se de seu primeiro dia na escola. Estava nevando e era inicio de janeiro. Uma lder de torcida tinha sido designada para mostrar a escola a Ivy e fez questo de lhe mostrar quem era Tristan quando se dirigiam  lanchonete lotada.  Voc provavelmente se interessa por atletas  disse a lder de torcida. Na verdade, Ivy estava ocupada tentando entender o que era aquela coisa verde que estavam servindo aos alunos na lanchonete.  Na sua escola em Norwalk, as garotas devem sonhar com os astros do futebol. Mas muitas das garotas de Stonehill... Sonha com ele, Ivy pensou assim que percebeu o olhar da lder de torcida concentrar se em Tristan.  Na verdade, prefiro algum que tenha crebro  disse Ivy.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

5

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Mas ele tem crebro!  insistiu Suzanne quando Ivy lhe contou sobre o que tinha conversado anteriormente com a lder de torcida. Suzanne era a nica garota que Ivy j conhecia em Stonehill e, de algum modo, ela tinha conseguido encontrar Ivy no meio da multido naquele dia.  Estou falando de um crebro que no esteja cheio d`gua  acrescentou Ivy.  Voc sabe que eu nunca dei bola para atletas. Quero algum com quem eu possa conversar.  Voc j conversa com os anjos  disse Suzanne.  No comea com isso  avisou Ivy.  Anjos?  Beth perguntou. Ela estava sentada  mesa ao lado, ouvindo a conversa delas.  Voc fala com anjos? Suzanne revirou os olhos, mostrando se incomodada por ter sido interrompida. Em seguida, voltou  ateno para Ivy novamente.  Ser que em algum lugar nessa sua coleo de asas h um anjo de amor? Sim.  Que tipo de conversa voc tem com eles?  Beth perguntou novamente. Ela abriu um bloco de anotaes e foi logo pegando o lpis como se fosse escrever tudo p que Ivy ia dizer, palavra por palavra. Suzanne ignorou a presena de Beth.  Bom, se voc realmente tem um anjo do amor, Ivy, ele no est fazendo muito bem o seu trabalho, no  mesmo? Algum precisa lembr lo de sua misso. Ivy deu de ombros. Seus dias estavam muito ocupados e no havia tempo para prestar ateno nos rapazes. Tinha de se dedicar  musica, ao trabalho na loja,  manuteno de suas notas acima da mdia, alm de ajudar a cuidar do seu irmo de oito anos, Philip. Os ltimos meses tinham sido muito tumultuados para Philip, sua me, e at para ela mesma. No teria agentado sem a ajuda dos anjos. Depois daquele dia de janeiro, Beth passou a procurar Ivy para perguntar sobre sua crena nos anjos, bem como para lhe mostrar alguns de seus contos romnticos. Ivy gostava de conversar com ela. Beth era uma garota de rosto redondo e cabelos tingidos, na altura dos ombros. Vestia  se de um jeito que variava entre o estranho e o fora de moda, e vivia romances incrivelmente apaixonados  s na sua imaginao. Suzanne tinha magnficos cabelos pretos e sobrancelhas e bochechas expressivas, tambm vivia uma vida de muitas paixes  na sala de aula e nos corredores, deixando os garotos da escola Stonehill emocionalmente exaustos. Beth e Suzanne nunca tinham sido amigas, mas, no final de fevereiro, tinha se unido na tentativa de transforma Ivy e Tristan em um casal.  Ouvi dizer que ele  bem esperto  disse Beth durante uma almoo na lanchonete.  Ele  todo crebro  concordou Suzanne.  O melhor aluno da classe. Ivy ergueu a sobrancelha. Ou um dos melhores.  Natao  um esporte sutil  continuou Beth  Sei que parece que a pessoa est indo para frente e para trs, mas um cara como o Tristan planeja, ele tem uma estratgia complexa para vencer cada competio.  Ah h  disse Ivy.  O que a gente quer dizer  que basta voc vir a uma competio de natao  disse Suzanne.  Mas tem de se sentar bem na frente  sugeriu Beth.  E pode deixar que eu escolho suas roupas neste dia  acrescentou Suzanne.  Voc sabe que eu sei te produzir muito melhor do que voc mesma. Ivy balanou a cabea positivamente, imaginando por que suas amigas achavam que algum como Tristan estaria interessado nela. Mas, quando Tristan apareceu na reunio dos alunos do segundo ano do Ensino Mdio dizendo a todos que a equipe de natao precisava da sua presena na ultima competio, sem tirar os olhos de Ivy o tempo todo, sentiu que tinha uma chance.  Se agente perder essa competio, voc vai ficar com a conscincia pesada  disse Suzanne. Era final de maro e Ivy estava observando Tristan balanar seus braos e pernas. Ele tinha uma constituio perfeita de nadador  ombros poderosos e largos e cintura fina. A touca escondia seus lisos cabelos castanhos, mas ela lembrava que eram curtos e espessos.  Cada pedacinho dele  feito de msculos  suspirou Beth. Depois de dar vrios cliques na caneta, que j tinha pego de volta de Suzanne, comeou a escrever no seu bloquinho. Como rocha reluzente. Sinuosa na mo do escultor, fundida nos dedos do amante... Ivy deu uma olhada no bloquinho de Beth.  O que voc est fazendo, poesia ou romance? Tem diferena?  respondeu Beth.  Nadadores, preparem se!  disse o organizador da competio em voz alta e todos subiram em seus trampolins.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

6

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Ah, meu Deus! Aquelas sunguinhas no deixam muito espao para imaginao, no  mesmo? Imagino como p Gregory ficaria em uma delas  murmurou Suzanne. Ivy a respondeu.  Fale mais baixo. Ele est bem ali.  Eu sei  disse Suzanne, passando as mos pelos cabelos.  Aos seus lugares... Beth inclinou se para dar uma olhada em Gregory Baines. Seu corpo esbelto e longilneo, faminto q quente. Bum!  Voc sempre usa essas palavras  disse Suzanne. Beth concordou.   que so palavras fortes, parecem combinar com sua respirao. Faminto, excitado, emocionante...  Voc vai tentar pelo menos assistir  competio?  disse Ivy, interrompendo a conversa.  So 400 metros, Ivy. Tudo o que Tristan tem de fazer  ir para frente e para trs.  Entendi. E aquela historia de ele ser totalmente crebro, com uma complexa estratgia de vitria no sutil esporte da natao?  perguntou Ivy. Beth estava escrevendo novamente: nadando como um anjo. Desejando que suas asas molhadas servissem de aconchego para Ivy.  Eu estou muito inspirada hoje!  Eu tambm  disse Suzanne alternando seu olhar entre Gregory e os corpos que se aqueciam para nadar. Ivy viu o que ela estava fazendo, mas voltou a se concentrar nos nadadores novamente. Nos ltimos trs meses, Suzanne corria atrs de Gregory Baines de forma quente, excitante e faminta. Ivy queria que Suzanne se interessasse por outra pessoa e que isso acontecesse logo, muito rpido, antes do primeiro sbado de abril.  Quem  aquela moreninha?  perguntou Suzanne.  Odeio tipos mignon. Ela no combina com Gregory. Rostinho, mozinhas, pezinhos.  Peites!  disse Beth, olhando para cima.  Quem  ela? Voc j a viu antes, Ivy?  Suzanne, voc est na escola h mais tempo do que...  Voc nem est olhando  disse Suzanne, cortando a frase de Ivy.  Porque estou olhando para o nosso heri. No  isso que eu devia estar fazendo? O que significa Demolidor? Todo mundo grita Demolidor quando Tristan faz a volta.   o apelido dele  respondeu Beth  Por causa da forma como ele ataca a parece, arremessando se contra ela com a cabea primeiro. Assim, consegue dar um impulso mais rpido. Entendi  disse Ivy.  , ele parece mesmo um crebro total para mim, atirando se contra uma parede de concreto. Quanto tempo normalmente duram essas competies? Ivy, por favor  implorou Suzanne, pegando a pelo brao. Veja se voc sabe quem  a morena. Twinkie. Voc est inventando!  disse Suzanne.   a Twinkie Hammonds  insistiu Ivy.  Ela faz aula de musica comigo. Percebendo que Suzanne no parava de encar la, Twinkie virou se para ela e fez uma careta. Gregory prestou ateno em tudo, olhando por cima dos ombros. Ivy conseguiu notar que ele estava se divertindo com a situao. Gregory Baines tinha um sorriso encantador, cabelos escuros e olhos acinzentados. Olhos acinzentados muito maneiros, pensou Ivy. Era alto, mas no era a sua altura que fazia com que se destacasse no meio da multido. Era sua autoconfiana. Ele era como um ator, como uma estrada de cinema fazendo seu papel, e, quando o show terminava, afastava se dos demais por acreditar ser melhor que os outros. A famlia Baines era a mais rica da cidade de Stonehill, mas Ivy sabia que no era por causa do dinheiro de Gregory, e sim por causa dessa frieza, dessa indiferena, que Suzanne estava louca por ele. Suzanne sempre queria o que no podia ter. Ivy pegou no brao da amiga suavemente e apontou para os nadadores que estavam se alongando para comear a competir, esperando, assim, distra la de alguma forma. Depois gritou: Demolidor!, quando Tristan comeou a ltima volta.  Acho que estou pegando o jeito  disse. Mas percebeu que os pensamentos de Suzanne continuavam em Gregory. Dessa vez, temia Ivy, Suzanne parecia estar profundamente apaixonada.  Ela est olhando para ns. Est vindo na nossa direo  disse Suzanne toda animada. Ivy sentiu a tenso em seu corpo.  E a cachorrinha de estimao est vindo logo atrs. Por qu? Ivy se perguntou. O que Gregory teria pra falar com ela depois de passar trs meses ignorando  a? Em janeiro, entendeu rapidamente que Gregory no tinha a inteno de not la. E, como se tivessem feito um

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

7

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

acordo silencioso, nem ele nem Ivy falaram nada sobre o fato de que o pai dele iria se casar com a me dela. Poucas pessoas sabiam que Gregory e Ivy passariam a morar na mesma casa no comeo de abril.  Oi, Ivy!  Twinkie foi a primeira a falar. Ela tentou se sentar perto de Ivy, ignorando Suzanne e mal olhando para a Beth.  Acabei de falar para o Gregory que sempre me sento ao seu lado na aula de msica. Ivy olhou para a garota com surpresa. Nunca tinha percebido em que lugar Twinkie se sentava.  Ele disse que nunca ouviu voc tocar piano, e eu estava falando para ele como voc toca bem. Ivy abriu a boca para falar, mas no conseguiu pensar em nada para dizer. Na ltima vez em que tocou alguma composio sua na sala, tudo o que Twinkie fez para mostrar seu interesse foi lixar as unhas. Foi ai que Ivy percebeu que Gregory estava olhando para ela. Quando ela olhou para ele, este piscou. Ivy apontou para suas amigas e disse:  Vocs conhecem Suzanne Goldstein e Beth Van Dyke?  No muito  ele disse, sorrindo para as duas. Suzanne estava radiante. Beth olhava para todos com o interesse de uma pesquisadora, o tempo todo clicando sua caneta.  Sabe de uma coisa, Ivy? A partir de abril voc vai morar bem perto da minha casa  disse Twinkie.  Vai ficar mais fcil se a gente comear a estudar juntas agora. Mais fcil?  Posso te dar uma carona para escola.  rapidinho da minha casa at a sua. Rapidinho?  Talvez a gente possa passar mais tempo juntas? Mais tempo? Ento, Ivy  disse Suzanne, piscando exageradamente seus longos clios.  Voc nunca me contou que era to intima da Twinkie! Talvez ns todas devssemos passar mais tempo juntas. Voc iria gostar de ir  casa da Twinkie, no iria, Beth? Gregory mal conseguiu esconder o riso.  Devamos fazer uma noite de pijama, Twinkie. Twinkie no pareceu muito entusiasmada.  Poderamos falar sobre os rapazes e fazer uma votao de mais bonito daqui. Suzanne voltou sua ateno para Gregory, olhando o de cima a baixo, prestando ateno em cada detalhe. Ele continuo mostrando que estava se divertindo muito. Conhecemos outras garotas, da escola antiga da Ivy em Norwalk  Suzanne continuou de forma animada. Sabia que as garotas da alta sociedade de Stonehill, que iam e voltavam todo dia de Nova York, no tinham nada a ver com as caipiras de Norwalk.  Elas iam adorar vir at aqui. Assim podemos ser todas amigas. Voc no acha que seria muito legal?  No, no acho  disse Twinkie dando as costas para Suzanne.  Foi muito bom conversar com voc, Ivy. Espero v la em breve. Venha, Gregory, est muito lotado aqui.  disse Twinkie, aninhando se debaixo dos braos dele. Assim que Ivy voltou sua ateno para a piscina, Gregory pegou em seu queixo. Com as pontas dos dedos, virou o rosto dela na sua direo. Estava sorrindo.  Ingnua, Ivy  disse.  Voc parece envergonhada! Isso tem acontecido comigo tambm, sabia? H muitos rapazes, que eu mal conheo, que de repente passaram a agir como se fossem meus melhores amigos, e esto contando com o fato de poderem me visitar a partir da primeira semana de abril. Porque voc acha Ivy que isso est acontecendo? Ivy deu de ombros.  Acho que  porque voc  uma pessoa muito popular.  Voc  mesmo ingnua!  disse ele. Ela queria que ele parasse de pegar no seu p. Olhou para a outra arquibancada, onde estavam os amigos dele. Eric Grent e um outro rapaz conversavam com Twinkie e riam. O supermaneiro Will O` Leary olhava para ela. Gregory tirou a mo do queixo dela. Saiu balanando a cabea e foi em direo a seus amigos, seus olhos ainda mostravam o quanto estava se divertindo com a situao. Quando Ivy voltou sua ateno para a piscina novamente, viu que trs rapazes com toucas de borracha e sungas exatamente iguais estavam olhando para ela. No fazia a mnima idia se algum deles era Tristan.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

8

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 2
Eu me sinto um idiota  disse Tristan, dando uma olhada no salo de festas da associao de ex  alunos da faculdade pelo vidro da porta da cozinha. A equipe do buf estava acendendo os candelabros e verificando as taas de cristal. Na imensa cozinha em que ele e Gary esperavam, havia vrias mesas postas com frutas bem lavadas e diferentes tipos de entradas. Tristan no fazia a mnima idia do que eram feitas aquelas entradas e se tinham de ser servidas de alguma forma especial. Tudo o que pedia era simplesmente que suas taas de champanhe no cassem da bandeja. Gary no estava conseguindo colocar as abotoaduras. A faixa do seu smoking alugado no parava de cair, pois o velcro no estava funcionando direito. Um dos seus sapatos pretos e engraxados, um nmero menor que o dele, estava amarrado com cadaro roxo improvisado. Gary era um amigo de verdade, pensou Tristan, por concordar com aquela situao. -- Lembre se, a grana  boa  disse Tristan. -- E ns vamos precisar dela para a prxima competio de natao. -- , se sobrar algum dinheiro depois de a gente pagar pelo prejuzo  reclamou Gary. -- Vai sobrar tudo  respondeu Tristan com confiana. Ser que era muito equilibrar uma bandeja por a? Ele e Gary eram nadadores. O seu equilbrio atltico natural foi responsvel pelas mentiras sobre sua experincia como garom durante a entrevista no buf. Tinha sido muito fcil conseguir esse trabalho. Tristan pegou uma bandeja de prata e a usou como espelho. -- No pareo um idiota. Estou com cara de idiota. -- Voc  um idiota  disse Gary. -- E  bom ir logo sabendo que no sou to tonto para acreditar nessa sua historinha de conseguir dinheiro para a prxima competio de natao. -- Do que voc est falando? Gary pegou um espanador e colocou na cabea de forma que as suas fibras parecessem cabelos. -- Oh, Tristy -- disse com a voz em falsete. -- Que surpresa encontr lo no casamento da minha me! -- Cale a boca, Gary. -- Oh, Tristy, deixa essa bandeja para l e vem danar comigo -- Gary sorriu passando a mo nos cabelos de espanador. -- O cabelo dela no  assim. -- Oh, Tristy, acabei de pegar o buqu da minha me. Vamos fugir e nos casar. -- Eu no quero casar com ela! S quero que ela saiba que eu existo. S quero sair com ela. S uma vez! E se ela no gostar de mim, ento... Tristan deu de ombros como se no tivesse a mnima importncia, como se a maior paixo que j sentira na vida pudesse simplesmente desaparecer do dia para a noite. -- Oh, Tristy, eu vou chutar o seu... A porta da cozinha se abriu. -- Cavalheiros  disse monsieur Pompideau.  os convidados j chegaram e esto prontos para serem servidos. Que sorte a nossa contarmos com a presena de dois garons to experientes, disponveis justamente para nos auxiliar hoje! -- Ele est sendo sarcstico?  perguntou Gary. Tristan revirou os olhos e eles apressaram se em ir atrs dos outros garons, que j se posicionavam em suas bases. Nos primeiros dez minutos, Tristan preocupou se em observar os outros garons trabalhando, tentando aprender a sua funo. Sabia que garotas e mulheres gostavam de um sorriso, e fazia uso disso, especialmente quando o caviar que estava servindo saiu voando, como se fosse um peixe bem desenvolvido, indo parar bem no colo de uma senhora. Perambulou pelo imenso salo de festas, procurando por Ivy, sempre olhando enquanto os homens de barriga grande continuavam esvaziando suas bandejas. Dois deles passaram por ele resmungando alguma coisa,

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

9

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

mas ele nem tomou conhecimento. Seu pensamento estava focado em Ivy. E se ficasse cara a cara com ela, o que iria dizer? Aceita um croquete de caranguejo? Ou talvez: Posso sugerir um Le ball de Crabe. Sim, isso iria impression la. Que tipo de pessoa ele tinha se tornado. Porque ele, Tristan Carruthers, um cara cujo rosto estava pendurado nos armrios de centenas de garotas (tudo bem, talvez estivesse exagerando um pouco) precisava impression  la. Uma garota que no tinha interesse em ter a foto dele, nem a de mais ningum, colada em seu armrio, pelo que ele podia perceber. Ela passava pelos mesmos corredores que ele, mas era como se vivesse em um mundo totalmente diferente. Tinha prestado ateno nela no primeiro dia em que ela chegou em Stonehill. No era s a sua beleza extica, os seus louros cabelos encaracolados, e os seus olhos verdes como o mar que faziam com que ele no conseguisse parar de olhar, desejando toc la. Era a maneira como ela parecia desprendida das coisas que interessavam s demais pessoas -- a maneira como prestava ateno na pessoa com quem estava conversando, sem ficar olhando para o lado para ver se tinha mais algum por ali; a maneira como se vestia diferente de todo mundo; a maneira como se entregava a uma cano. Um dia, ficou parado na porta da sala de msica, maravilhado.  claro que ela nem percebeu sua presena. Duvidava que Ivy soubesse que ele existia. Mas ser que trabalhar como garom seria realmente uma boa maneira de fazer com que ela finalmente o notasse? Depois de resgatar um croquete de caranguejo que tinha saltado de sua bandeja e ido parar no meio de dois sapatos scarpin de um convidado, comeava a ter suas dvidas. Foi ento que ele a viu. Estava de cor de rosa  muito cor de rosa: e tinha uma espcie de glitter cor de rosa que no parava de cair dos seus ombros. . Gary passou perto dele. Tristan virou se rpido demais e eles deram uma cotovelada. Oito copos chacoalharam na bandeja, derrubando vinho tinto. -- Que vestido!  disse Gary abafando o riso. Tristan deu de ombros. Sabia que o vestido era brega, mas no estava nem a.  Ela vai acabar tirando. -- Amigo, voc est bem ousado, hein? -- No foi isso que eu quis dizer. O que eu... -- Pompideau  avisou Gary e os dois dispersaram se rapidamente. Entretanto, o matre pegou Tristan pelo brao e o levou para a cozinha. Quando Tristan voltou, tinha nas mos uma bandeja cheia de legumes e um potinho de pat  coisas que no derramavam. Percebeu que alguns dos convidados pareciam reconhec lo e, rapidamente, desviavam se de seu caminho quando se aproximava. O que significava que estava com a bandeja sempre cheia para l e para c, mal precisava olhar para onde estava indo, e tinha tempo suficiente para prestar ateno na festa. -- Ei, ssssenhor nadador. Ssssenhor nadador. Era algum da escola que estava chamando por ele, provavelmente alguns dos amigos de Gregory. Tristan nunca gostou das garotas e rapazes que andavam com Gregory. Todos tinham dinheiro e se gabavam por isso. Faziam coisas realmente estpidas e estavam sempre procurando novas emoes. -- Nadador, nadador, voc  ssssurdo?  chamou o rapaz. Eric Ghent, rosto comprido e cabelos louros, encostado na parede, segurando um castial. -- Desculpe  disse Tristan.  Voc est falando comigo? -- Eu conheo voc, Demolidor. Eu conheo voc.  isso que voc faz quando no est nadando?  Eric soltou o castial e cambaleou. --  isso que eu fao para poder ter dinheiro para nadar  respondeu Tristan. -- timo. Vou te ajudar a conseguir maisssss dinheiro para nadar. -- Como? -- Vou fazer com que voc no desperdice mais o seu tempo, Demolidor, vou te dar uma grana para voc pegar uma bebida para mim. -- Eu acho que voc j tomou uma bebida  Tristan olhou para Eric de cima a baixo. Eric fez que ia dar um soco nele, mas depois deixou para l. -- Na verdade, voc j tomou quatro bebidas -- Tristan se corrigiu. -- Esta  uma festa particular. Menores de idade podem beber. Festa particular ou no, vo sssservir o que quer que seja, a quem quer que o velho Baines queira que seja sssservido. Ele compra todo mundo, sabia? Gregory havia aprendido com o pai, pensou Tristan. -- Ento, t  disse em voz alta. -- O bar  logo ali  tentou ir embora, mas Eric se colocou bem na frente dele. -- O problema  que eles no me deixam beber mais. Tristan respirou fundo. -- Eu preciso beber, Demolidor. E voc precisa de grana. -- Eu no aceito gorjetas  disse Tristan.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

10

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Ele comeou a rir. -- Bem, talvez voc no tenha conseguido nenhuma. J percebi como est todo desajeitado para l e para c. Mas acho que sssssssse te oferecessem, voc pegaria. -- Sinto muito. -- Ns precisamos um do outro. Ns temos uma escolha. Podemos ajudar um ao outro ou machucar um ao outro  disse Eric. Tristan no respondeu. -- Entende o que eu quero dizer, Demolidor? -- Eu entendo o que voc quer dizer, mas no posso ajud lo. Eric deu um passo para frente. Tristan deu um passo para trs. Eric deu outro passo  frente. Tristan ficou tenso. O amigo de Gregory era peso pena perto dele. Tinham a mesma altura, mas ele no era nem de longe do mesmo tamanho que Tristan. Mesmo assim, o cara estava bbado e no tinha nada a perder  nada como uma bandeja cheia de legumes. Tudo bem, pensou Tristan. Se tirasse o corpo rapidamente, Eric cairia de joelhos e daria com a cara no cho. Mas Tristan no havia contado com um dos noivos passando por ali na mesma hora. Ao ver que se aproximavam, pelo canto do olho, teve repentinamente de mudar de direo. Acabou esbarrando em Eric, que estava embriagado. Aipo e couve flor, cogumelos e pimentes, brcolis e vagens foram arremessados para o lustre, e acabaram caindo em cima dos noivos. E foi a que ela olhou para ele. Ivy, a garota do glitter. Na mesma hora em que seus olhos se encontraram. Ela virou seus olhos redondos como tomate cereja para a direo de sua me. Tristan tinha certeza de que ela finalmente sabia da sua existncia. Ele tinha tambm plena certeza de que ela nunca sairia com ele. Jamais. -- Talvez voc esteja certa, Ivy  sussurrou Suzanne enquanto olhavam os legumes crus espalhados pelo salo.  Fora da gua, Tristan  bem desajeitado. O que ele estaria fazendo ali?  Ivy perguntou a si mesma. Por que no ficara na piscina, que era o seu lugar? Sabia que suas amigas ficariam totalmente convencidas de que ele a estava seguindo, e isso a deixava envergonhada. Beth foi atrs delas, pisando em um tomate com seu salto alto.  Talvez seja assim que ele ganhe dinheiro -- disse Beth, interpretando o rosto confuso de Ivy. -- Jogando brcolis na noiva? -- Suzanne balanou a cabea negativamente. -- Aquele nadador lindinho est com ele tambm  continuou Beth. O seu cabelo tingido estava todo para cima, fazendo com que parecesse ainda mais com uma corujinha fofinha. -- Nenhum dos dois tem a mnima ideia da funo de garom  Suzanne percebeu.  Esto fazendo um bico  Ivy suspirou. -- Acho que Tristan est duro  disse Beth. -- Voc est falando de dinheiro ou de amor por Ivy?  perguntou Suzanne, e as duas riram. -- Ah, d um tempo, Ivy  disse Beth tocando suavemente em seus braos. --  engraado. Aposto que os olhos dele ficaram arregalados quando viu seu vestido  Suzanne arregalou os olhos e comeou a cantarolar a msica tema de E o vento levou. Ivy riu. Sabia que parecia uma Scarlett O`Hara coberta por glitter. Mas era o vestido que a sua me tinha escolhido especialmente para ela. Suzanne no parava de cantarolar. -- Aposto que os olhos do Gregory se arregalaram quando ele viu o que voc no est usando  disse Ivy  amiga, esperando que, assim, ela calasse a boca. Suzanne estava usando um vestido preto, decotado, superjusto. -- Eu espero que sim. -- E falando no diabo...  disse Beth.  Finalmente te achei, Ivy  o tom de Gregory era quase ntimo. Suzanne virou se para ele, que pegou no brao de Ivy.  Nossa presena  aguardada na mesa principal. De braos dados, Ivy seguiu com ele, desejando que fosse Suzanne em seu lugar. Sua me viu os dois se aproximarem, sorrindo para Ivy e seu vestido, que mais parecia um merengue de framboesa. -- Obrigada  disse Ivy quando Gregory puxou a cadeira para que se sentasse. Ele sorriu para ela  o mesmo tipo de sorriso secreto que tinha visto pela primeira vez em uma competio de natao  , inclinou se, seu lbios ficaram muito prximos do seu pescoo e disse:  O prazer  meu, madame. Ivy sentiu sua pele arrepiar se. Ele est fazendo joguinho, disse a si mesma. Jogue com ele. Desde a competio de natao, sempre a provocava e tentava ser amigo dela, e sabia que deveria dar a ele algum crdito por isso; mas preferia o velho e frio Gregory.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

11

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Ela tinha entendido completamente sua postura fria quando chegou na escola. Sabia que deveria ter sido um terrvel choque quando ele descobriu que Maggie estava se mudando com sua prole do apartamento de Norwalk para um que se pai havia alugado em Stonehill, e estava fazendo isso para iniciar os preparativos do casamento. O romance de Andrew e Maggie comeara h muitos anos. Mas romances eram romances, diziam as pessoas, e Andrew e sua me faziam um par romntico muito estranho  o presidente muito rico e distinto de uma faculdade e sua esposa cabeleireira. Quem iria imaginar que, anos depois do caso de amor deles, anos depois de Andrew ter se divorciado, ele e Maggie iriam oficializar o casamento? Tinha sido um choque para Ivy. Seu pai havia morrido quando ela era criana. Ela havia crescido vendo a me ter um namorado atrs do outro, e pensou que seria sempre assim. Ivy inclinou se na mesa para dar uma olhada na me. Andrew olhou para ela e sorriu, em seguida deu uma cotovelada de leve em sua nova esposa. Maggie sorriu para Ivy. Ela estava to feliz. Anjo do Amor, rezou Ivy silenciosamente, proteja a mame. Proteja a todos ns. Faa de ns uma famlia forte e amorosa. -- Ser que eu preciso dizer que o seu glitter est caindo na sopa? Ivy voltou se para trs. Gregory sorriu e ofereceu um guardanapo a ela. -- Esse vestido ainda pode te meter em encrencas  provocou.  Quase deixou Tristan Carruthers cego. Ivy percebeu que estava corando. Ela queria mostrar para o Gregory que a culpa era do Eric, e no...  Coitadas das pessoas que sero servidas por ele hoje  noite. Ele e aquele outro atleta  disse Gregory, sorrindo.  Espero que no sejamos ns. Os dois deram uma olhada pelo salo. Eu tambm, pensou Ivy, eu tambm. Um pouco depois da chuva de legumes, o matre disse a Tristan que podia ir embora, e seria melhor que sasse de l imediatamente. Cansado e humilhado, teria adorado partir, mas tinha prometido dar uma carona para Gary. Ento, ficou perambulando pela cozinha at encontrar um depsito em que pudesse se esconder. Estava escuro e tranqilo por l, as prateleiras estavam cheias de caixas e enlatados. Tristan tinha acabado de se acomodar em uma caixa de papelo quando ouviu um rudo atrs dele. Ratos, pensou, ou ratazanas. No estava nem a. Tentou consolar se, imaginando se no alto de um pdio, ganhando o primeiro lugar, a bandeira dos Estados Unidos sendo hasteada ao som do hino nacional, e Ivy assistindo a tudo pela TV, triste por ter perdido a chance de ter sado com ele um dia. -- Sou um idiota  disse, segurando a cabea com as mos. -- Poderia ter qualquer garota que quisesse e... Sentiu uma mo encostar suavemente em seu ombro. Tristan olhou para cima e viu um garoto plido, de rosto triangular. O garoto, que parecia ter oito anos, estava todo arrumado, o n da gravata bem feito, e o cabelo todo cheio de gel. Devia ser um dos convidados do casamento. -- O que voc est fazendo aqui?  Tristan quis saber. -- Ser que voc conseguiria arrumar um pouco de comida para mim?  perguntou o garoto. Tristan franziu a testa, irritado por ter de dividir seu esconderijo, um lugar aconchegante para ficar chorando as mgoas por causa de Ivy  Por que voc mesmo no pega a sua comida? -- Eles vo me ver disse o garoto  disse o garoto. -- Mas eles tambm vo me ver! O garoto fez uma cara de desapontamento. Seus olhos mostravam insegurana e havia um ruga no meio das suas sobrancelhas. Tristan usou um tom mais gentil. -- Parece que eu e voc estamos na mesma situao. Nos escondendo. -- Estou com muita fome. No tomei caf da manh e nem almocei  disse o garoto. Pela fresta da porta, Tristan via os outros garons entrando e saindo. O jantar comeava a ser servido. -- Pode ser que tenha algo no meu bolso  disse ao garoto, tirando do bolso um croquete de caranguejo amassado, alguns camares, trs pedaos de aipo recheados, um punhado de castanhas e um alimento no identificado. -- Isso a  sushi?  perguntou o garoto. -- Agora voc me pegou. Tudo isso a caiu no cho e eu coloquei no meu bolso, e sei l por onde  que esse casaco andou, pois  alugado. O garoto concordou com a cabea e ficou examinando as opes que Tristan havia lhe oferecido. -- Gosto de camaro  disse, pegando um finalmente, cuspiu nele e depois limpou o com os dedos. Fez isso com cada camaro que pegou, fez o mesmo com o croquete de camaro e o aipo. Tristan ficou imaginando se ele iria cuspir em cada pedacinho de castanha. Perguntou se qual teria sido o problema daquela criana para ela ter ficado o dia inteiro sem comer, escondida dentro de um quarto escuro.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

12

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

-- Ento  disse Tristan.  Acho que voc no deve gostar muito de casamento, no ? O garoto olhou para ele. Depois, deu uma mordida no alimento no identificado. -- Voc tem nome, garoto? -- Sim. -- O meu nome  Tristan. Qual  o seu? O garoto deixou de lado a entrada no identificada e partiu para as castanhas.  O que eu queria mesmo era jantar  disse. -- Estou com muita fome. Tristan olhou pela fresta. Os garons entravam e saam apressadamente da cozinha.  H muita gente l  disse. -- Voc se meteu em encrencas? -- perguntou o garoto. -- Uma encrenquinha. Nada srio. E voc? -- Ainda no  disse o garoto. -- Mas voc vai se meter? -- Assim que me encontrarem. Tristan fez que sim com a cabea.  Acho que voc j percebeu que no pode ficar aqui para sempre. O garoto semicerrou os olhos e comeou a examinar as prateleiras do quarto escuro, como se estivesse considerando seriamente ficar por l. Tristan gentilmente colocou a mo no brao do garoto.  Qual  o seu problema, amigo? Quer falar sobre isso? -- Gostaria mesmo de jantar  disse o garoto. -- Est bem, est bem!  disse Tristan, irritado. -- E tambm gostaria de sobremesa. -- Voc vai comer aquilo que eu conseguir pegar  repreendeu Tristan. -- Tudo bem  respondeu o garoto obedientemente. Tristan suspirou.  No liga para mim. Estou de mau humor. -- Eu no ligo  disse o garoto suavemente. -- Veja, amigo  disse Tristan.  S um garom na cozinha e um monte de comida. Voc vem comigo? timo! L vo eles. Invasores, aos seus lugares, preparar... -- Onde est Philip?  perguntou Ivy. Os convidados j estavam no meio do jantar quando ela percebeu que o seu irmo no estava sentado onde deveria estar.  Vocs viram o Philip?  disse, levantando se do seu lugar. Gregory fez com que ela se sentasse de novo.  Eu no me preocuparia, Ivy. Provavelmente ele est fazendo baguna por a. -- Mas ele no comeu nada o dia todo. -- Sendo assim, ele est na cozinha.  disse Gregory simplesmente. Gregory no entendia. Seu irmozinho estava ameaando fugir de casa h semanas. Ela tinha tentado explicar a Philip o que estava acontecendo e como seria bom eles se mudarem para uma casa grande com uma quadra de tnis e vista para o rio, alm de terem um irmo mais velho como Gregory. Ele no acreditou em nada do que ela disse. Na verdade, nem mesmo Ivy acreditava. Ela empurrou a cadeira, rpido demais para que Gregory pudesse interromp la, e correu para a cozinha. -- Vai fundo!  disse Tristan. Na caixa que estava no meio deles havia uma enorme quantidade de comida  fil mignon grelhado, camaro, vrios tipos de legumes, saladas e pezinhos de manteiga. -- Isso  bom demais!  disse o garoto. -- Bom demais?  um banquete`.  disse Tristan. -- Coma! Vamos precisar ser fortes para conseguir pegar a sobremesa. O garoto deu um sorrisinho que logo desapareceu. -- Quem meteu voc em encrencas? -- o garoto quis saber. Tristan terminou de mastigar e disse: -- O matre, monsieur Pompideau. Estava trabalhando para ele e derramei algumas coisas. Sabe como , deixei as calas de algumas pessoas molhadas  o garoto sorriu de novo, dessa vez o sorriso foi maior. -- Voc molhou as calas do Sr. Lever? -- Deveria ter feito isso?  Tristan perguntou. O garoto fez que sim com a cabea e seu rosto brilhou ao imaginar a cena. -- Bem, de qualquer forma, Pompideau falou que eu deveria servir coisas que no derramassem. Imagine s que coisa!

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

13

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

-- Sabe o que teria dito para ele?  disse o garoto. A ruga na sua sobrancelha tinha desaparecido, estava engolindo a comida e falando com a boca cheia. Parecia muito melhor do que estava h 15 minutos. -- Teria dito: V servir na sua orelha! -- Boa ideia! -- disse Tristan, pegando um pedao de aipo.  V servir na sua orelha, Pompideau! O garoto morreu de rir e Tristan quebrou o aipo ao meio. -- V servir na sua outra orelha, Pompideau!  disse o garoto. Tristan pegou outro pedao de aipo. -- V servir no seu cabelo, Diptidu!  gritou o garoto deixando se levar pela brincadeira. Tristan pegou um pouco de salada e jogou na cabea. S ento percebeu que a salada tinha molho de vinagrete. O garoto jogou a cabea para trs de tanto rir. -- V servir no seu nariz, Dubidu! Bem, por que no? -- pensou Tristan. Ele j tinha tido oito anos uma vez, e ainda se lembrava o quanto os garotos gostavam de caretas e melecas de nariz. Pegou dois camares e colocou cada um deles na suas narinas, deixando os rabinhos cor de rosa de fora. O garoto quase caiu da caixa de tanto rir. -- V servir nos seus dentes, Dubidu! Colocou duas azeitonas pretas em cada um dos seus incisivos. -- V servir no... Tristan estava to concentrado arrumando o aipo e os rabinhos de camaro que no percebeu que a fresta da porta estava maior. No viu quando o rosto do garoto se transformou.  V servir aonde, Dubidu? Foi ento que Tristan olhou para cima.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

14

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 3

Ivy ficou paralisada. Surpreendeu se ao ver Tristan com aipos enfiados nas orelhas, salada espalhada pelo cabelo, e uma coisa preta e estranha em seus dentes, e  por mais difcil que fosse de acreditar que algum com mais de oito anos pudesse fazer uma coisa dessas  rabinhos de camaro enfiados nas narinas. Tristan ficou to paralisado quanto ela.  Eu estou encrencado?  perguntou Philip.  Acho que eu estou  disse Tristan suavemente.  Voc deveria estar no salo de festa, jantando conosco  disse Ivy a Philip.  Ns estamos jantando aqui. Este  o nosso banquete! Ela olhou para a quantidade enorme de comida nos pratos em cima da caixa no meio deles, e enrugou o canto da boca.  Por favor, Ivy, a mame disse que podamos trazer qualquer amigo que quisssemos para o casamento.  E voc disse a ela que no tinha nenhum amigo, lembra se? Voc disse que no tinha nenhum amigo em Stonehill.  Agora eu tenho! Ivy olhou para Tristan. Ele foi sensato o suficiente para no olhar para ela, concentrando  se em retirar o aipo, o camaro e as azeitonas amassadas de seu corpo, deixando em cima da caixa  sua frente. Nojento!  Modemoiselle!   o Dubidu!  gritou Philip  Feche a porta! Por favor, Ivy. Contrariando sua prpria vontade, ela fechou. Por mais estranho que parecesse, seu irmo nunca estivera to feliz como nas ultimas semanas. De costas para o deposito, Ivy olhou para o matre.  H algo errado, Mademoiselle?  No, senhor.  Trs certaine?  Trs  respondeu, pegando o brao de Pompideau e caminhando com ele para fora da cozinha.  Bem, esto esperando por Mademoiselle no salo de festas  mademoiselle disse, secamente  Chegou  hora do brinde. Todos esto esperando. Ivy foi correndo para o salo. Estavam esperando mesmo por ela, e todos perceberam quando entrou. Ivy corou ao atravessar o salo. Gregory puxou a para perto de si, rindo. Depois, entregou lhe uma taa de champanhe. Um amigo de Andrew fez o brinde. Ele falou, falou e falou.  Sade!  todos os convidados disseram finalmente.  Sade, irmzinha!  disse Gregory bebendo todo o champanhe da sua taa e pegando outra. Ivy deu apenas um golinho em seu champanhe.  Sade, irmzinha!  disse novamente com voz baixa e macia, seus olhos queimando como fogo. Bate sua taa na dela e tomou todo o champanhe de uma vez. Ento puxou Ivy para mais perto, to perto que no conseguia respirar, e beijou a violentamente na boca. Ivy sentou se ao piano, encarando a partitura que tinha aberto h cinco minutos colocando suavemente uma das mos em seus lbios. Tirou a mo e comeou a dedilhar as teclas amareladas, correndo os dedos por elas, tocando alguns trechos um tanto fora do tom. Depois, passou a lngua em cima dos lbios. No estavam machucados; ela s estava imaginando coisas.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

15

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Mesmo assim, estava feliz por ter convencido sua me a deixar que ela e Philip ficassem no apartamento at que voltassem da lua de mel. Seis dias sozinha com Gregory naquela casa imensa no alto da montanha era demais para ela, especialmente com essa atitude de Philip. Philip, que no pequeno apartamento de Norkwalk tinha colocado cortinas velhas ao redor da cama por que queria ficar longe das garotas, h duas semanas vinha implorando para dormir co m ela. Uma noite antes do casamento, ela o deixou levar o saco de dormir para o seu quarto e acabou acordando com, Ella, a gata, e Philip em cima de sua cama. Depois daquele dia longo do casamento, provavelmente ia deix  lo dormir com ela novamente. Ele estava no cho atrs dela, brincando com suas figurinhas de jogadores de beisebol, montando um time dos sonhos com as figurinhas espalhadas pelo tapete. Como sempre, Ella queria se espreguiar bem no meio do campo. O lanador do time ia para cima e para baixo na sua barriga preta. De vez em quando, Philip deixava escapar frases do tipo: E a bola vo para o centro do campo, depois pegava a figurinha de Don Mattingly e o fazia correr por todas as bases at marcar um home run. No devia deix lo ficar acordado at tarde, pensou Ivy. Mas ela mesma no conseguia dormir, estava feliz por ter companhia. Alm disso, Philip tinha comido tanto na festa e experimentado tantos doces  graas a Tristan  que provavelmente ia acabar vomitando no saco de dormir. E lenis limpos, como quase todo o resto no apartamento, estavam embalados.  J tomei minha deciso, Ivy  disse Philip subitamente.  No vou me mudar.  O qu?  virou se no banco do piano para ficar na frente dele.  Vou ficar aqui. Voc e Ella querem ficar comigo?  E a mame?  Ela pode ser a me do Gregory agora  disse Philip. Ivy recuou, da mesma forma que recuava toda vez que sua me mencionava algo sobre Gregory. Maggie era uma pessoal amorosa e carinhosa, e estava tentando, um pouquinho demais. No fazia idia do quanto Gregory a achava ridcula.  A mame sempre vai ser a nossa me, e nesse momento ela precisa de ns.  Tudo bem. Voc e ela podem ir. Eu vou convidar Tristan para morar comigo.  Tristan! Ele concordou, depois disse a si mesmo em voz baixa: E l vai o batedor. Parece que um empate vem por ai! Aparentemente, ele j havia feito sua cabea de oito anos e no imaginava que o assunto precisasse ser ainda discutido. Estava brincando e to contente. Era estranho, mas tinha voltado a brincar depois de ter se divertido com Tristan. O que ser que Tristan disse a Philip de to til? Talvez nada, pensou Ivy. Talvez, em vez de ter passado as ultimas trs semanas tentando explicar os motivos do casamento de sua me, tudo que deveria ter feito era enfiar camares no nariz.  Philip  disse incisivamente. Ele no ia querer falar com ela at que o empate acontecesse.  Ah?  O Tristan falou alguma coisa sobre mim?  Sobre voc?  ele pensou um pouco. No.  Ah  no que eu me importe, disse a si mesma.  Voc o conhece?  perguntou Philip.  No.  que s pensei que, talvez, depois deu ter encontrado vocs no depsito, ele tivesse dito algo sobre mim. Philip franziu a sobrancelha.  Ah, sim. Ele perguntou se voc gostava mesmo de usar vestidos cor de rosa como aquele, e se realmente acreditava em anjos. Falei a ele sobre sua coleo de estatuetas.  O que voc falou a ele sobre o meu vestido?  Disse que gostava.  Disse?  Voc falou para a me que acho o vestido bonito. E sua me tinha acreditado. Por que Philip no acreditaria?  O Tristan falou por que estava trabalhando l, hoje?  Sim. A jogada tinha terminado. Philip agora montava uma nova estratgia de defesa.  Ento, por qu?  perguntou Ivy, intrigada.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

16

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Ele precisa ganhar dinheiro para as competies de natao. Ele  nadador, Ivy. Viaja para outros Estados para nadar. Precisa ir de avio, no me lembro para onde. Ivy concordou com a cabea.  claro! Tristan estava mesmo duro, apenas tentando ganhar uns trocados. Devia para de dar ouvidos a Suzanne. Philip levantou se de repente.  Ivy, no me obrigue a ir quele casaro. No me obrigue a ir. Eu no quero jantar com ele! Ivy aproximou se de seu irmo.  Coisas novas parecem assustadoras  tranqilizou o.  Mas Andrew sempre foi bom com voc, desde o comeo. Lembra se de quem te comprou figurinha do Don Mattingly?  Eu no quero jantar com o Gregory. Ela no sabia o que dizer para ele. Philip ficou de p, ao seu lado, movendo silenciosamente os dedos sobre as teclas do piano. Quando ele era mais novo, costumava fazer isso cantando a cano que estava tocando.  Preciso de um abrao  disse Ivy.  Voc pode me dar um? Philip deu lhe um abrao nada entusiasmado.  Vamos fazer nosso dueto, est bem? Ele deu de ombros. Tocaram juntos, mas a felicidade que tinha demonstrado um pouco antes j desaparecera. Mal haviam comeado a tocar quando ele bateu com fora as mos no piano. E bateu e bateu e bateu e bateu.  No vou! No vou! No vou!  Philip caiu no chora, e Ivy o trouxe para perto de si, deixando o chorar em seus braos. Quando seus soluos pareciam muito cansados. Ela disse:  Voc est cansado, Philip. Voc est s cansado  mas sabia que era mais do que isso. Comeou a tocar suas canes prediletas assim que se aconchegou em seu corpo, depois mudou de repertrio para canes de ninar. Ele logo ficou sonolento, mas era muito grande para que pudesse carreg  lo para cama.  Venha  disse, ajudando o a sair do banquinho. Ella seguiu os dois at o quarto.  Ivy.  Sim?  Voc me empresta um dos seus anjos hoje?  Claro. Qual deles?  Tony. Tony era castanho escuro, esculpido em madeira, era o anjo paternal de Ivy. Colocou Tony ao lado do saco de dormir junto com a figurinha de Don Mattingly. Ento, ele entrou no saco e ela fechou o zper.  Voc quer rezar para os anjos?  ela perguntou. Disseram junto:  Anjos de luz, anjos queridos, cuidem de ns. Cuidem de quem mais fica comigo.  Essa pessoa  voc, Ivy  disse Philip, fechando os olhos.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

17

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Captulo 4
Naquela tarde, Ivy pegou Philip na escola. Ele j tinha desistido de brigar e acompanho  a em silncio. Na metade do caminho, Ivy ouviu o barulho de uma motocicleta, fazendo uma curva l no alto e descendo a estrada a toda velocidade. De repente, deu de cara com o motoqueiro. Desviou para a direita o mximo que pde. Mesmo assim, ele veio em frente. Ivy pisou com tudo sobre o breque. O motociclista fez um desvio perigoso e depois aumentou a velocidade. Philip olhou para trs, mas no fez nenhum comentrio. Ivy olhou pelo espelho retrovisor. Devia ser Eric Ghent. Tinha esperanas de que Gregory estivesse com ele. Mas Gregory estava esperando por eles em casa, junto com Andrew e sua me, que tinham acabado de voltar da lua de mel. Sua me os cumprimentou distribuindo abraos e beijos cheios de batom. Ivy percebeu que ela tinha mudado o perfume. Andrew pegou as duas mos de Ivy. Ele era bem esperto para sorrir para Philip sem se aproximar muito. Ento, Ivy e Philip foram entregues a Gregory.  Sou o seu guia turstico  disse. Inclinou se para Philip e avisou  Fique prximo. Alguns desses quartos so assombrados. Philip correu os olhos pela casa e depois buscou o olhar de Ivy.  Ele s est brincando.  No estou, no  disse Gregory. Algumas pessoas que moravam aqui foram muito infelizes. Philip olhou de novo para Ivy. Ela balanou a cabea negativamente. Do lado de fora da casa, havia uma parede branca majestosa e pesadas persianas pretas. De cada lado da estrutura principal havia casas. Ivy gostaria de morar em uma delas, com seus tetos inclinados e suas janelas abobadadas. Na parte principal da casa, havia cmodos com p direito bem alto; pareciam maiores do que alguns apartamentos que j haviam morado. O hall e a escada central da casa separavam a sala de estar, a biblioteca, a varanda da sala de jantar, a cozinha e a sala de televiso. Atrs da sala de televiso havia uma galeria que levava  ala central da casa e ao escritrio de Andrew. Como sua me e Andrew estavam conversando no escritrio, o tour pelo andar de baixo da casa acabou na galeria, em frente a trs retratos: Adam Baines, aquele que havia investido em minerao, com uma cara austera em seu uniforme da Primeira Guerra Mundial; o juiz Andy Baines, de toga; e Andrew, vestido casualmente como um professor universitrio. Ao lado de Andrew havia um espao em branco na parede.  A foto de quem ser pendurada ali? Voc deve estar se perguntando  disse Gregory secamente. Ele sorriu, mas o cinza dos seus olhos mostrava um olhar assombrado. Por um momento, Ivy sentiu pena dele. Como se o filho nico de Andrew fosse muito pressionado a ser bem sucedido.   a sua foto que vai ficar pendurada l  disse suavemente. Gregory olhou em seus olhos e depois riu. Um riso marcado pela armagura.  Vamos l pra cima  disse, segurando na mo dela e levando a para a escada de trs que dava para o quarto dele. Philip os seguiu sem dizer nada. O quarto de Gregory era grande e tinha s uma coisa em comum com o quarto dos outros garotos  uma camada arqueolgica de cuecas e meias usadas. Fora isso, era impossvel ver que ali tinha dinheiro e bom gosto: cadeiras de couro e mesas de vidro, uma escrivaninha e um computador, e um completo centro de entretenimento. Nas paredes, havia vrios quadros em formas geomtricas impressionantes. No centro do quarto, havia uma cama d`gua de tamanho King Size.  Experimente  provocou Gregory. Ivy abaixou se e sacudiu a cama com a mo. Ele riu.  Voc est com medo de qu? Venha, Phil  ningum o chama de Phil, pensou Ivy.  Mostre para sua irm como se faz. Suba e role na cama.  Eu no quero  disse Philip.  Claro que quer  Gregory sorria, mas seu tom era ameaador.  No  disse Philip.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

18

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

  muito divertido  Gregory pegou Philip pelos ombros e o forou a se aproximar da cama. Philip resistiu, mas acabou tropeando e caindo nela. Na mesma hora, levantou se.  Odiei  gritou. Gregory fez cara de aborrecido. Ivy decidiu sentar se na cama.   divertido  disse. Balanou na cama lentamente.  Venha comigo, Philip  mas ele tinha sado do quarto.  Deite nela, Ivy  provocou Gregory, usando um tom baixo e suave. Ela deitou e ele se deitou ao seu lado.   melhor eu comear a desarrumar as malas  disse Ivy, sentando se rapidamente. Caminharam por uma passagem de p direito baixo que ficava bem acima da galeria, em uma parte da casa principal onde estavam os quarto dela e de Philip. A porta do quarto dela estava fechada e, quando a abriu, Philip entrou correndo com Ella, que foi logo se espreguiando esplendorosamente na cama de Ivy.  Ah no ..., resmungou silenciosamente ao olhar para o quarto elaboradamente decorado. Temia o pior quando sua me disse que estava preparando uma grande surpresa. O que viu foi uma imensido de laos e madeira branca com acabamento dourado, alm de uma cama com dossel.  Moblia de princesa  resmungou em voz alta. Gregory sorriu.  Pelo menos Ella est se sentindo em casa. Sempre se achou uma rainha. Voc gosta de gatos, Gregory?  Claro  disse, sentando se na cama ao lado de Ella, que rapidamente se levantou, indo para outro lado da cama. Gregory mostrou se irritado.  J disse que Ella  uma rainha.  disse Ivy.  Bem, obrigada pelo tour. Tenho um monte de coisas para arrumar. Mas Gregory ficou na cama.  Esse era o meu quarto quando era criana.  Ah! Ivy tirou vrias roupas de mala e abriu a porta que pensava ser do armrio. Em vez disso, deu de cara com uma escada.  Essa era a minha escada secreta  disse Gregory. Ivy deu uma olhada na escurido.  Costumava me esconder no sto quando meu pai e minha me brigavam. O que era algo que acontecia todo dia  disse Gregory.  Voc j viu a minha me? Deve ter visto; ela ia sempre arrumar o cabelo.  No salo de beleza?  Sim  respondeu Ivy, abrindo a porta do armrio.  Mulher maravilhosa, no  mesmo?  suas palavras estavam cheias de sarcasmo.  Ama todo mundo. Nunca pensa em si mesma.  Eu era muito nova quando a conheci.  Eu tambm.  Gregory... faz tempo que quero conversar sobre isso com voc. Eu sei que deve ser difcil para voc ver minha me se mudando para o quarto da sua me, tendo de aceitar Philip e eu ocupando um espao que antes era s seu. Eu no o culpo por...  Por estar feliz por vocs estarem aqui?  interrompeu Gregory.  Estou. Estou contando com voc e Philip para que o meu velho continue se comportando bem. Ele sabe que os outros esto prestando ateno nele e na sua nova famlia. Agora, ele tem que dar uma de papai bonzinho e carinhoso. Deixe  me ajud la com isso. Ivy pegou sua caixa de anjos.  No precisa Gregory. Posso fazer isso sozinha. Ele pegou um canivete no bolso e tirou a fita da caixa.  O que tem a dentro?  Os anjos da Ivy  disse Philip.  O garoto fala!  Philip apertou os lbios.  Logo voc no vai conseguir faz lo ficar de boca fechada  disse Ivy. Ento, abriu a caixa e comeou a pegar suas estatuetas embrulhadas cuidadosamente. Tony foi o primeiro. Depois, um anjo esculpido em pedra, com um leve toque de cinza. Depois seu favorito, o seu anjo das guas, uma figura frgil de porcelana, pintado com uma mistura de azul e verde. Gregory ficou olhando enquanto ela desembrulhava as 15 estatuetas e as colocava em prateleira. O brilho dos seus olhos mostrava que estava se divertindo com aquilo.  Voc no leva isso a srio, leva?  O que voc quer dizer com a srio?  ela perguntou.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

19

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Voc no acredita mesmo em anjos.  Acredito  disse Ivy. Ele pegou o anjo das guas e brincou de aviozinho com ele pelo quarto.  Solte o  gritou Philip.   o predileto de Ivy. Gregory o colocou de bruos em um travesseiro.  Voc  malvado!  Ele s est brincando, Philip  disse Ivy pegando seu anjo calmamente. Gregory deitou se na cama.  Voc reza para eles?  perguntou.  Sim. Para os anjos, no para as estatuetas  explicou.  E quais so as coisas maravilhosas que eles fizeram por voc? J fizeram Tristan se apaixonar por voc? Ivy ficou surpresa com seu comentrio.  No. Mas eu nunca rezei por isso. Gregory deu uma risadinha.  Voc conhece Tristan?  disse Philip.  Desde a primeira srie  respondeu Gregory. Depois, preguiosamente esticou o brao em direo  gata. Ella fugiu dele.  Ele era o garoto bonzinho do meu time de beisebol  disse Gregory, esticando se para alcanar Ella, que se levantou na mesma hora e foi para outro lado da cama.  Ele era o garoto bonzinho do time de qualquer pessoa  disse Gregory, tentando pegar Ella novamente. A gata reclamou. Ivy viu o rosto de Gregory ficar vermelho.  No leve pro lado pessoal, Gregory  disse Ivy.  Deixe Ella ficar por a por enquanto. Os gatos sempre do uma de difcil.  Assim como algumas garotas que eu conheo. Venha aqui, garota  esticou a mo em direo a Ella e a gata levantou a pata rapidamente, mostrando suas garras.  Deixe que Ella venha at voc  aconselhou Ivy. Mas Gregory pegou a gata pela nuca e a levantou.  No faa isso  gritou Ivy. Ele colocou a outra mo embaixo da barriga dela. Ella deu uma mordida forte em seu punho.  Droga!  disse, jogando Ella do outro lado do quarto. Philip correu para pegar a gata, que correu para Ivy. Ivy pegou a no colo. A cauda de Ella balanava para l e para c; estava mais brava do que magoada. Gregory ficou observando a, ainda estava com o rosto bem vermelho.  Ella  uma gata de rua  disse Ivy, controlando se para manter a calma. Quando a encontrei, era s uma bolinha de pelo escondida em uma parede de tijolos, tentando sobreviver dentro de um grande tambor rasgado. Tentei te avisar. Voc no pode se aproximar dela dessa maneira. Ella no confia facilmente nas pessoas.  Talvez voc devesse ensin la a confiar  disse Gregory.  Voc confia em mim, no confia?  disse, abrindo mais de um dos seus estranhos sorrisos indagadores. Ivy colocou Ella no cho. A gata acomodou se embaixo da cadeira e ficou olhando para Gregory com raiva. Assim que ouviu passos na escada, escondeu se embaixo da cama. Andrew apareceu no corredor.  Como vo as coisas?  perguntou.  Tudo bem  Mentiu Ivy.  Tudo mal  disse Philip. Andrew piscou, depois balanou a cabea graciosamente.  Bem, ento precisamos melhorar as coisas. Voc acha que d?  Philip ficou olhando para ele. Andrew virou se para Ivy.  Voc j abriu essa porta? Ivy viu que ele estava olhando para a passagem secreta de Gregory.  O interruptor de luz fica do lado esquerdo, disse Andrew. Aparentemente, parecia que ele queria que ela fosse ver o que tinha l. Ivy abriu a porta e acendeu a luz. Philip, com a curiosidade  flor da pele, passou por debaixo do brao dela e subiu as escadas.  Uau!  gritou l de cima.  Uau! Ivy olhou para Andrew ao ouvir a voz animada de Philip, o rosto dele iluminou  se de prazer. Gregory ficou o tempo todo olhando pela janela.  Ivy, venha ver! Ivy subiu as escadas apressadamente. Esperava ver um nitendo, ou os Power Rangers ou talvez um boneco de tamanho real do Don Mattingly. Em vez disso o que viu foi um piano de calda, um CD player e um toca fitas, dois armrios repletos de suas partituras ; a capa de um lbum com o rosto da Ella Fitzgerald estava pendurada na parede. Todos os discos de jazz do seu pai tambm estavam l, ao lado de uma vitrola de cerejeira.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

20

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Se estiver faltando alguma coisa...  Andrew comeou a dizer. Ele estava bem ao lado dela, ofegante aps subir as escadas, esperanoso. Gregory tinha ido at a metade do caminho, apenas o suficiente para ver.  Obrigada  foi tudo o que Ivy conseguiu dizer.  Obrigada!  Isso  maneiro, Ivy  disse Philip.  E  para ns trs usufruirmos  ela disse a ele, feliz por estar to animado que nem se lembrou de retribuir com uma careta. Ento, virou se para falar com Gregory, mas ele j tinha sado de l. O jantar naquela noite parecia interminvel. Depois dos exagerados presentes de Andrew: a sala de msica para Ivy e uma brinquedoteca completa para Philip, sentia se ao mesmo tempo impressionada e constrangida. Como Philip estava ficando mal humorado novamente, pois tinha decidido que no ia falar durante o jantar  Talvez eu nunca mais fale  disse a Ivy, fazendo um bico  era ela quem tinha de expressar a gratido dos dois a Andrew. Entretanto, ao fazer isso, sentia se andando em uma corda bamba: quando Andrew perguntou pela segunda vez se havia algo mais que ela e Philip queriam, percebeu a tenso nas mos de Gregory. Quando estavam no meio da sobremesa, Suzanne telefonou. Ivy cometeu o erro de atender a ligao no corredor do lado dede fora da sala de jantar. Suzanne esperava ser convidada para ir at a casa dela naquela noite. Ivy disse que era melhor que fosse no dia seguinte.  Mas eu estou toda vestida!  reclamou Suzanne.   claro que voc est. So apenas 19h30.  Eu quis dizer que estou vestida para te visitar.  Puxa, Suzanne  disse Ivy, fazendo se de boba.  Voc no tem de vestir nada especial para me visitar.  O que o Gregory vai fazer hoje  noite?  No sei. No perguntei a ele.  Ento descubra! Descubra o nome dela e onde ela mora  ordenou Suzanne.  E o que ela est vestindo e onde  que eles vo. Se voc no a conhecer, descubra quem . Eu sei que ele tem um encontro  choramingou.  Ele deve ter! Ivy j esperava por isso. Mas estava to cansada da infantilidade de Philip e de Gregory que no tinha mais vontade de ouvir a choradeira de Suzanne.  Eu tenho que desligar agora.  Eu vou morrer se for a Twinkie Hammonds. Voc acha que  a Twinkie Hammonds?  Eu no sei. O Gregory no me falou. Viu? Tenho que desligar.  Ivy, espere! Voc ainda no me contou nada. Ivy suspirou  Amanh vou almoar no meu horrio de sempre. Ligue para Beth e me encontre no Shopping Center, tudo bem?  Tudo bem, mas Ivy...  Agora tenho que desligar  disse Ivy.  Ou ento vou perder a chance de me esconder no porta malas do Gregory  disse, desligando o telefone.  E a? Como vai a Suzanne?  perguntou Gregory, apoiando se no batente da porta que dava para a sala de jantar. Estava sorrindo e com a cabea erguida.  Vai bem.  Quais so os planos dela para hoje  noite? Ao ver a sua expresso zombeteira, entendeu que ele tinha ouvido toda a conversa, e estava s provocando, no tinha interesse em saber quais eram os planos de Suzanne.  Eu no perguntei a ela e ela no me contou. Mas se vocs dois quiserem conversar sobre isso um com o outro... Ele riu, depois tocou na ponta do nariz de Ivy.  Engraadinha  disse. Espero que tenha vindo para ficar.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

21

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 5

Era um alvio trabalhar no sbado de manh e voltar a pisar em territrio conhecido. O Shopping Center Green Tree ficava na cidade vizinha, mas todos os adolescentes da regio costumavam passear por l. A maioria observava as vitrines e se reunia na praa de alimentao. A loja Tis The season, em que Ivy trabalhava h um ano e meio, ficava bem na frente da praa de alimentao. As donas da loja eram duas irms de meia idade, e a variedade de fantasias, decoraes, descartveis de papel e adereos era to excntrica quanto o prprio estilo das proprietrias. Lillian e Betty raramente devolviam mercadorias, por isso sua loja parecia uma mistura de estaes do ano, bem como festas e festividades reunidas em um pequeno canto do mundo. Fantasias de vampiros ficavam ao lado de estrelas e faixas; artigos de pscoa eram colocadas na mesma prateleira em que miniaturas de menors judaicas de plstico, perus feitos de pinha e orelhas imitando os personagens do seriado Jornada nas Estrelas. Um pouco antes da uma hora, enquanto esperava por Suzanne e Beth, Ivy resolveu dar uma olhada nos pedidos daquele dia. Como sempre, estavam todos rascunhados em pedaos de papel grudados na parede, Ivy leu um dos pedidos duas vezes, depois pegou o na mo. No podia ser, pensou. No podia ser. Talvez houvesse duas pessoas com o mesmo nome. Duas pessoas chamadas Tristan Carruthers.  Lilian o que significa isso? Para retirar: B. BAL. AZ. E 25 DESC. Lilian semicerrou os olhos para ler o papel. Usava culos bifocais, que geralmente ficavam em seu peito, servindo de colar.  Bem, significa 25 descartveis  pratos, guardanapos e copos, voc sabe disso. Ah sim, para Tristan Carruthers  um pedido da equipe de natao. Uma bexiga de baleia azul. Eu j aprontei tudo. Ele ligou para saber se estava pronto hoje de manh.  O senhor Carruthers telefonou? Lilian colocou os culos, ajeitando os em seu nariz, e olhou seriamente para Ivy.  Senhor Carruthers? Ele no chamou voc de senhorita Lyons  disse.  Porque ele me chamaria de alguma coisa?  Ivy pensou em voz alta.  Quer dizer, por que ele mencionou o meu nome?  Ele perguntou sobre o seu horrio de trabalho e disse a ele que voc almoa entre 13h e 13h45, mas que no restante do dia fica aqui at as 18h  ela sorriu para Ivy.  E eu falei algumas palavrinhas a seu favor, querida.  Algumas palavrinhas?  Falei para ele que garota adorvel voc , e que  uma pena no ter encontrado nenhum rapaz que merecesse sua amizade. Ivy deu um passo para trs, mas Lillian j tinha tirado os culos ento nem percebeu.  Ele veio  loja duas semanas atrs para fazer o pedido  Lillian continuou.  Ele  bem bonito.  Bonito, Lillian.  Como?  Tristan  bem bonito  disse Yvy.  Bem, ela finalmente admitiu  disse Suzanne, entrando na loja. Beth vinha logo atrs dela.  Bom trabalho, Lillian!  a senhora piscou para elas, e Ivy colocou a anotao com o pedido de volta na parede. Depois, vasculhou seus bolsos  procura de algum dinheiro.  No espere conseguir comer  Suzanne foi logo avisando.  Faremos um interrogatrio. Vinte minutos mais tarde, Betty tinha acabado de comer o seu burrito. Suzanne mal tocou em seu frango e pizza de Ivy ainda estava inteira.  Como eu vou saber?  Ivy dizia, balanando os braos para mostrar o quanto estava frustrada.  Eu no entrei no armrio de remdios dele!  Elas estavam especulando e fazendo vrias interpretaes de cada detalhe que Ivy pudesse ter observado no quarto de Gregory.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

22

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Eu sei que voc s foi l uma vez  disse Suzanne.  Mas, hoje  noite, talvez consiga descobrir com quem ele vai sair. Ele tem algum horrio para voltar para casa? Ele...? Ivy pegou um rolinho primavera e enfiou na boca de Suzanne.   a vez de Beth falar  disse.  Ah, deixa pra l. A conversa est interessante  disse Beth. Ivy abriu a pasta de Beth.  Por que voc no l uma de suas novas histrias antes que a Suzanne me deixe completamente louca. Beth olhou para Suzanne e depois abriu um calhamao de papis toda animada.  Vou ler essa histria no prximo clube de arte dramtica, na segunda feira. Estou usando uma nova tcnica chamada in medias res. Significa que a cena comea no meio da histria. Ivy concordou com a cabea de forma encorajadora e comeou a comer a sua pizza.  Ela colocou a arma em seu peito  leu Beth.  Dura e azul, fria e inflexvel. Fotos dele. Frgeis e desbotadas fotos dele  dele e dela  rasgadas, ensopadas pelas lgrimas salgadas, espalhadas na cadeira. Ela lavaria todas elas com seu sangue...  Beth, Beth  interrompeu Suzanne.  Estamos na hora do almoo. D para ler uma coisinha um pouquinho mais leve? Beth concordou e procurou uma outra histria no meio de seus papis, recomeando a leitura.  Ela levou a mo dele ao seu peito. Quente e mido, macio e flexvel.  A mo dele ou o peito dela?  interrompeu Suzanne.  Silncio  disse Ivy.  Como uma mo que poderia segurar a sua prpria alma, uma mo que poderia erguer uma baleia, uma baleia de plstico azul, eu acho. O que mais poderia ser aquilo? Ivy virou se rapidamente e olhou para a loja, do outro lado do shopping. Betty estava segurando um pedao de plstico azul enquanto conversava com Tristan. Lillian estava de p atrs de Tristan na entrada da loja, acenando entusiasmadamente para ela. Ivy olhou para o relgio. Eram 13h25 ainda faltava meia hora para sua hora de almoo acabar.  Ele quer falar com voc  disse Beth. Ivy balanou a cabea pra Lillian, mas Lillian continuou acenando.  V falar com ele, garota  disse Suzanne.  No.  Ah, d um tempo, Ivy.  Voc no entende. Ele sabe que  minha hora de almoo. Ele est me evitando.  Talvez  disse Suzanne.  Mas isso no me atrapalharia em nada! Tristan virou se e notou o aceno exagerado de Lillian, deu uma olhada na multido da praa de alimentao e os seus olhos se encontraram com os de Ivy. Enquanto isso, Beth colocou a baleia inflvel na bomba de gs hlio da loja.  Opa!  exclamou Beth quando a balei ganhou vida prpria, crescendo como uma nuvem azul atrs de Tristan e Lillian. No dava para ver Betty. Ela deve ter soltado a bexiga rpido demais, porque foi parar no teto. Tristan teve que pular para peg la. Beth e Suzanne comearam a rir. Lillian balanou a cabea para Ivy, depois comeou a falar com Tristan.  O que ser que ela est falando com ele?  disse Beth.  Algumas palavrinhas  resmungou Ivy. Logo em seguida, Tristan saiu da loja carregando a sacola com os descartveis, fechada por um lindo lao azul, feito pelas irms. A baleia vinha l no alto atrs dele. Ele olhou o tempo todo para frente dirigindo se para a sada do shopping. Suzanne o chamou. Na verdade ela gritou. No dava para fingir no ter ouvido. Ele olhou na direo em que ela estavam com um leve sorriso no rosto, e foi ao encontro delas. Vrias crianas vinham atrs dele como se ele fosse o Flautista de Hamelim.  Oi  disse formalmente.  Suzanne, Beth, Ivy. Que bom ver vocs.  Que bom ver voc  disse Suzanne, olhando para a baleia. Quem  ele? Eu bonitinho!  o novo membro da equipe de natao? Ivy percebeu que as articulaes dos dedos de Tristan estavam brancas ao segurar a linha que prendia a baleia. Os msculos de seu brao estavam tensos e salientes. Atrs dele, vrias crianas pulavam, tentando pegar a baleia.  Na verdade  o mais novo membro do meu nmero cmico  disse, virando se para Ivy. Voc j viu um trecho. Aquela coisa que eu fao com camares e cenouras? No sei o que . As crianas de oito anos me acham irresistvel  olhou para as crianas atrs dele.  Desculpem, tenho que ir agora.  Noooooo! Gritaram as crianas. Deixou que elas dessem mais algumas batidinhas na baleia, depois saiu, andando rapidamente em meio aos freqentadores do shopping.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

23

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Bem  Suzanne bufou de raiva.  Bem  ela cutucou Ivy com o palito japons.  Voc poderia ter dito alguma coisa! Srio, garota, no sei o que h de errado com voc.  O que h de errado comigo?  Alguma coisa, qualquer coisa! No importa. Apenas faa com que ele saiba que est tudo bem, que no tem problema conversar com voc. Ivy engoliu seco. No conseguia entender algumas atitudes de Tristan. Ele  deixava to envergonhada.  Voc sempre  envergonhada a princpio  disse Beth como se estivesse lendo os pensamentos de Ivy.  Mais cedo ou mais tarde, vo entender como devem agir um com o outro. Suzanne inclinou se para frente  O seu problema  que voc leva tudo a srio demais, Ivy.  Romance  um jogo, s um jogo. Ivy suspirou e olhou para o seu relgio  S tenho mais dez minutos de almoo. Beth, que tal terminar a sua histria de amor?  Suzanne deu um tapinha no brao de Ivy.  S temos mais dois meses de escola. Que tal comear a sua histria de amor?

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

24

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 6
Ivy estava descala no cho frio, encolhendo os dedos. A umidade da piscina e o cheiro forte de cloro tinham tomado todo o vestirio. O lugar ecoava como uma caverna feita de concreto cada vez que algum fechava a porta do armrio. Tudo o que se relacionava  piscina dava lhe arrepios. As outras garotas do clube de arte dramtica estavam arrumando seus trajes, ensaiando as suas falas e rindo de vergonha. Suzanne colocou a mo no ombro de Ivy.  Voc est bem?  Eu vou conseguir.  Tem certeza?  Suzanne no se convenceu.  Eu sei as minhas falas e tudo o que tenho de fazer  andar pra l e pra c no trampolim  no trampolim do alto da piscina, que fica do lado fundo, sem cair, pensou Ivy consigo mesma. Suzanne insistiu.  Ivy, sei que voc  a estrela do McCardell, mas voc no acha que devia contar pra ele que mal sabe nadar e que morre de medo da gua?  J falei que eu consigo  disse Ivy, saindo do vestirio, sentindo o tremor em suas pernas. Entrou na fila junto com 11 garotas e trs rapazes na beira da piscina. Beth ficou do lado de Ivy e Suzanne de outro. Ivy olhou para o verde azulado luminescente da piscina.  s gua, disse a si mesma, nada mais do que aquilo que a gente bebe. E ainda nem estamos na parte funda. Beth pegou no brao dela.  Suzanne devia lhe agradecer por ter convidado Gregory.  Gregory? Claro que no o convidei!  Ivy virou se rapidamente para Suzanne. Suzanne deu de ombros.  Queria dar a ele uma previa do que ele est prestes a ver. Naquela casa da montanha em que voc vive deve haver vrios lugares para a gente tomar sol.  Esse biquni ficou timo em voc  disse Beth. Ivy ficou furiosa. Suzanne sabia o quanto aquela situao estava sendo difcil para ela sem ter de pensar na presena de Gregory. Ela podia ter se contido, pelo menos desta vez. Gregory no estava sozinho na arquibancada. Seus amigos Eric e Will tambm estavam por l, junto com outros alunos que devem ter fugido das suas atividades do perodo. Todos os garotos olhavam com muito interesse para as garotas que se alongavam  beira da piscina. Ento a classe caminhou pelo permetro da piscina fazendo exerccios vocais.  Quero ouvir todas as consoantes, todos os ps, ds e ts  disse o senhor McCardell, sua voz se distinguia de forma surpreendente em meio ao eco da piscina.  Margareth, Courtney, Suzanne, no estamos em um desfile de moda  gritou.  Apenas andem. A frase gerou algumas vaias da platia.  E pelo amor de Deus, Sam, pare de pular! Dessa vez a platia abafou o riso. Quando os alunos terminaram o circuito, foram para a parte funda da piscina.  Olhem pra mim  ordenou o professor.  Vocs no esto concentrados  inclinando se para eles, disse:  Isso  uma lio de enunciao e concentrao. Ser imperdovel se algum de vocs deixar que esses parasitas os distraiam  quase todo mundo da classe olhou para a arquibancada. A porta da piscina se abriu, e mais espectadores entraram, eram todos garotos.  Estamos prontos, estamos nos preparando? O exerccio era memorizar 25 linhas de uma poesia ou prosa, algo que falasse de amor ou morte.  Os dois grandes temas da vida e da arte dramtica  disse o senhor McCardell. Ivy tinha separado dois poemas romnticos do ingls arcaico, um cmico e um trgico. Em voz baixa, repetia suas falas. Achava que tinha decorado tudo, mas, assim que o primeiro aluno subiu pela escada de metal, sentiu como se as palavras tivessem evaporado de sua mente. Seu corao comeou a bater mais rpido, como se fosse ela na escada. Respirou fundo.  Voc est bem?  Beth sussurrou.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

25

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Conte pra ele, Ivy! Explique para o McCardell o que voc est sentindo  implorou Suzanne. Ivy balanou a cabea negativamente.  Estou bem. Os trs primeiros apresentaram se de forma muito mecnica, mas todos mantiveram o equilbrio, indo e voltando no trampolim. Porm, Sam caiu. Parecia um enorme pssaro esquisito, agitando os seus braos e caindo na gua. Ivy engoliu seco. Sua vez chegou. Subiu a escada bem devagar, degrau por degrau, o corao batendo cada vez mais forte. Sentia ter mais fora nos braos do que nas pernas. Usou os para subir no trampolim, depois parou. L embaixo, a gua danava, uma dana de ondas escuras e raios fluorescentes. Ivy concentrou se no final do trampolim, como a haviam ensinado, e deu trs passos, sentindo o trampolim balanar com o seu peso. Seu estomago revirou, mas foi em frente.  Pode comear  disse o senhor McCardell. Ficou introspectiva por um momento, tentando lembrar suas falas, tentando lembrar as imagens que deveria usar para a primeira poesia. Sabia que se fizesse daquilo um simples exerccio, sua apresentao no seria intensa. Tinha de atuar, tinha de se deixar levar pelas emoes do poema. Lembrou se das primeiras palavras do poema cmico e, de repente, as imagens surgiram em sua mente: uma noiva coberta de glitter, convidados paralisados, uma chuva de vegetais. L embaixo, a platia ria enquanto ela recitava as linhas sobre as idiotices do amor. Depois, ainda em movimento, encontrou um ritmo mais lento e trgico do segundo poema: "Brisa do Oeste, quando voc vai soprar, Pode a garoa cair! Ah, meu Deus, se meu amor estivesse em meus braos E pudesse em minha cama dormir!" Deu mais dois passos e chegou ao final do trampolim, recuperando o flego. De repente, ouviu os aplausos. Ela tinha conseguido! Quando os aplausos terminaram, o senhor McCardell disse:  Muito bom  um elogio e tanto tratando se dele.  Obrigada, senhor  respondeu Ivy, tentando se virar para voltar pelo trampolim. Quando ela comeou a virar, sentiu as suas pernas tremerem, e ficou paralisada. No olhe para baixo. Mas tinha de ver onde estava pisando. Respirou fundo e tentou virar novamente.  Ivy, algum problema?  perguntou o senhor McCardell.  Ela tem medo de gua  revelou Suzanne.  E no sabe nadar. L embaixo, a piscina parecia danar, coberta por uma nevoa. Tentou se concentrar no trampolim. No conseguia. A gua parecia vir na sua direo, pronta para engoli la. Depois recuava, voltando para baixo. Ivy cambaleou. Uma perna foi ao cho.  Oh!  ouvi se nas arquibancadas. A outra perna foi ao cho, saindo do trampolim. Ivy agarrou se com o desespero de um gato. Estava pendurada, metade no trampolim, metade fora  Algum a ajude!  gritou Suzanne. Anjos das guas, rezou Ivy silenciosamente. Anjos das guas, no me deixe cair. Voc me ajudou uma vez. Por favor, anjo... Ento Ivy sentiu seus braos tremerem com o movimento do trampolim. Suas mos estavam midas e escorregadias. Solte, disse a si mesma. Confie em seu anjo. Seu anjo no vai deixar voc se afogar. Anjos das guas, rezou pela terceira vez, mas seus braos no soltavam. O trampolim continuou a vibrar. Suas mos estavam escorregadias e comeavam a se soltar.  Ivy. Virou o rosto ao ouvir a voz, batendo a bochecha no trampolim. Tristan tinha subido a escada e estava do outro lado do trampolim.  Vai dar tudo certo, Ivy. Ento, veio em direo a ela. A prancha de fibra de vidro flexionou se com o peso dele.  No!  gritou Ivy, agarrando se desesperadamente ao trampolim.  No flexione. Por favor! Estou com medo.  Posso te ajudar. Confie em mim. Seus braos doam. Sua cabea estava leve, mas a pele estava fria e toda arrepiada. L embaixo, a gua girava de forma vertiginosa.  Preste ateno em mim, Ivy. Voc no vai conseguir se segurar desta forma. Venha um pouco para o lado. Venha, est bem! Solte o seu brao direito. Vamos. Eu sei que voc consegue  Ivy soltou o peso do corpo
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

26

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

devagar. Por um momento, pensou que fosse cair do trampolim. Seu brao livre agitava  se freneticamente.  Voc conseguiu, voc conseguiu  ele disse. Ele estava certo. Estava se segurando melhor, as duas mos firmes no trampolim.  Agora d um impulso para cima. Force seu corpo para cima do trampolim.  assim que se faz  sua voz era firme e segura. Qual a sua perna favorita?  perguntou. Ela franziu a testa para ele.  Voc  canhota ou destra de perna?  disse, sorrindo.  Acho que destra.  Solte sua mo direita, ento. E levante a perna direita, dobre a embaixo de voc  ela conseguiu. Um minuto mais tarde as duas pernas estavam dobradas embaixo de seu corpo.  Agora venha engatinhando para mim. Ela olhava para baixo, para a dana das guas.  Venha para mim, Ivy. Estava apenas a dois metros e meio de distancia, mas parecia 25 quilmetros. Engatinhou silenciosamente pelo trampolim. Depois, sentiu uma mo pegando seu brao com firmeza. Ele a levantou, puxando a para cima, virando o corpo dela rapidamente. Ivy ficou plida de alivio.  Tudo bem, estou bem atrs de voc. Vamos dar um passo de cada vez. Estou bem aqui  disse ele, comeando a descer a escada. Um passo de cada vez, Ivy repetiu a si mesma. Se pelo menos as suas pernas parassem de tremer. Ento, sentiu a mo dele segurando delicadamente seus tornozelos, guiando a pela escada de metal. Finalmente chegaram ao p da escada. O senhor McCardell desviou o olhar, obviamente sentindo se desconfortvel com a situao.  Obrigada  disse Ivy em voz baixa para Tristan. Em seguida, saiu correndo para o vestirio antes que Tristan e os outros pudesse ver as suas lagrimas de medo. No estacionamento, naquela tarde, Suzanne tentou convencer Ivy a ir para a casa dela.  Obrigada, mas estou cansada. Acho que deveria ir para... casa  era estranho chamar a casa de Andrew de sua casa.  Ento, por que voc no dirige por ai primeiro?  sugeriu Suzanne.  Conheo uma cafeteria que ningum mais freqenta, pelo menos ningum da escola. Podemos conversar sem sermos interrompidas.  No preciso conversar, Suzanne. Estou bem. Mesmo. Mas se voc quiser ficar comigo, por que voc no vem para minha casa.  No acho que seja uma boa idia. Ivy inclinou a cabea.  At parece que foi voc que ficou pendurada no trampolim.  Sinto como se tivesse sido eu  disse Suzanne.  Se no te conhecesse to bem, pensaria que tinha cado de alguma escada e batido forte com a cabea no cho. Acabei de te convidar para ir  casa de Gregory. Suzanne espalhou batom nos lbios e depois o guardou.   isso. Voc sabe como sou, Ivy  como um lobo a procura da sua presa. No consigo me controlar. Se ele estiver l, vou me distrair completamente. E, nesse momento, voc precisa da minha ateno.  No preciso da ateno de ningum! Passei um mau momento no clube de arte dramtica...  E foi resgatada!  Fui resgatada...  Por Tristan!  Por Tristan e agora...  Vocs vo viver felizes para sempre  disse Suzanne.  Agora vou pra casa, e se voc quiser vir comigo para dar em cima de Gregory, tudo bem. Pelo menos vai distrair minha ateno. Suzanne pensou por um momento, depois abriu a boca e perguntou:  Tem batom nos meus dentes?  Se voc no falasse tanto, no teria esse problema  disse Ivy, apontando para a mancha vermelha.  Tem, bem aqui. Quando Ivy chegou em casa, a BMW de Gregory estava na garagem.  Estamos com sorte hoje  disse Ivy. Ao entrar em casa, Ivy ouviu sua me falando alto, recebendo as respostas rpidas de Gregory a cada vez que falava. Ela e Suzanne olharam uma para a outra, depois seguiram o som das vozes at o escritrio de Andrew.  Aconteceu alguma coisa?  perguntou Ivy.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

27

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Olha o que aconteceu!  disse sua me, apontando para uma cadeira de seda. O encosto estava despedaado.  Nossa! O que aconteceu?  perguntou Ivy.  Talvez meu pai tenha lixado as unhas  sugeriu Gregory.   a cadeira predileta do Andrew  disse Maggie. Seu rosto estava vermelho. O spray do cabelo perdia a fora e seu penteado estava desmoronando.  E esse tecido no  muito barato, Ivy.  No fui eu que fiz isso, mame!  Deixe eu ver as suas unhas  provocou Gregory. Suzanne riu.  Foi Ella quem fez isso!  disse Maggie,  Ella?  Ivy balanou a cabea.   impossvel! Ella nunca destruiu nada na vida.  Ella no gosta do Andrew  disse Philip, que estava sentado silenciosamente em um canto do quarto.  Fez isso porque no gosta de Andrew. Maggie virou se. Ivy pegou a me pelas mos.  Fcil  disse. Depois, examinou o encosto da cadeira. Gregory a observou e tambm examinou a cadeira, que estava muito estilhaada. Philip no teria conseguido fazer aquilo. Devia mesmo ser culpa de Ella.  Vamos ter que cortar as garras dela  disse Maggie.  No! Ivy a moblia desta casa  muito valiosa. No pode ser destruda. Vamos ter de fazer isso.  No vou deixar voc fazer isso.  Ella  s uma gata.  E isso  s uma moblia  disse Ivy, com a voz fria e firme.  Ou isso, ou vamos ter de do la. Ivy levou as mos ao peito. Ela era quatro centmetros maior que a me.  Ivy...  viu os olhos de sua me encherem se de gua. Ultimamente ela estava assim, emotiva, sempre implorando e chorando.  Ivy, essa  uma nova vida, so novos caminhos para todos ns. Voc mesma me disse: por todas as coisas boas que esto acontecendo, esse conto de fadas no vai ter fim. Todos temos de fazer com que d certo.  Onde Ella est agora?  perguntou Ivy.  No seu quarto. Fechei a porta do corredor e a do sto para que ela no destrua mais nada. Ivy virou se para Gregory.  Voc poderia oferecer uma bebida para Suzanne?  Claro! Ento Ivy foi para o seu quarto. Ficou sentada l por um bom tempo, acarinhando Ella em seu colo e olhando para o seu anjo das guas.  O que fao agora, anjo?  rezou  O que fao agora? No me pea para desistir de Ella! No posso desistir dela. No posso! No final, acabou desistindo, pois percebeu que no podia tirar a liberdade de Ella. No podia deixar que sua gata de rua, feroz e vulnervel, fosse maltratada. Apesar de partir seu corao, e o de Philip tambm, decidiu colocar um anuncio de adoo no quadro de avisos da escola na quinta feira  tarde. Quinta feira  noite, recebeu um telefonema. Philip estava no quarto dela fazendo a lio de casa e atendeu. Com tristeza, passou o telefone a ela.   um homem  disse.  E quer adotar Ella. Ivy franziu a testa e pegou o fone.  Al?  Oi. Como vai voc?  disse o homem.  Vou bem  Ivy respondeu. O que importava como ela ia? Imediatamente, percebeu que no gostava da pessoa, porque ele queria lhe tirar Ella.  Que bom! Hum... Voc j encontrou algum para ficar com a sua gata?  No  disse.  Gostaria de ficar com ela. Ivy fechou os olhos. No queria que Philip a visse chorando. Deveria estar feliz e aliviada por algum se interessar em cuidar de um gato adulto.  Voc est ai?  disse o homem.  Sim.  Eu vou cuidar bem dela, vou dar comida e banho nela.  No se d banho em gatos.  Vou aprender o que fazer com ela. Acho que ela vai gostar daqui.  um lugar confortvel. Ivy balanou a cabea silenciosamente.  Al?
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

28

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Virou se de costas para Philip.  Entenda, ela significa muito para mim. Se voc no se importar, gostaria de ir at sua casa e falar com voc pessoalmente.  No me importo nem um pouco.  disse o homem, entusiasmado.  Anote a o endereo. Ela anotou.  E qual  seu nome?  perguntou.  Tristan.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

29

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 7
Mas voc gosta de cachorros!  disse Gary na sexta feira  tarde. Voc sempre gostou de cachorros!  Acho que meus pais vo gostar de ter um gato  respondeu Tristan enquanto andava para l e para c, tentando arrumar a baguna da sala: as revistas de pediatria da sua me, os horrios de visita de seu pai ao hospital, vrios santinhos, seus horrios de natao, exemplares antigos da revista Sports Illustrated e o frango que haviam comido no jantar na noite anterior. Seus pais ficariam confusos ao v  lo to preocupado em arrumar a casa. Em geral, a rotina da famlia era sentar no cho para ler e comer. Gary no estava entendendo muito bem o objetivo de Tristan e perguntou:  Voc acha que seus pais vo gostar? A gata est doente? Ela tem religio? Se sua me no precisar medic  la e seu pai, sendo pastor, no puder rezar com ela e aconselh la...  Toda casa precisa de um animal de estimao  disse Tristan, tentando terminar a conversa.  Para os gatos, os animais de estimao so habitantes da casa. Pode acreditar, Tristan, gatos tm raciocnio prprio. So piores que garotas. Se voc acha que Ivy te enlouquece. Opa espera a! Espera a...  disse Gary, batendo os dedos na mesa.  Acabo de me lembrar de um anncio no quadro de avisos da escola.  Legal  disse Tristan, entregando a mala de ginstica ao amigo.  Voc disse que tinha de chegar cedo em casa hoje. Gary soltou a mochila. J tinha entendido a armao de Tristan.  E perder toda a diverso? Lembro me bem da ltima vez que voc fez papel de bobo. Voc acha que no quero ver novamente?  sentou se no tapete em frente  lareira.  Voc se diverte com a minha desgraa, no  mesmo? Gary deitou no cho, segurando a cabea com as mos.  A galera e eu vimos voc pegar todas as garotas nos ltimos trs anos  no, nos ltimos sete anos; voc j era o garoto mais popular da escola no 6 ano. Nossa! Como me divirto! Tristan sorriu e viu uma mancha de caf no tapete que parecia ter triplicado de tamanho desde a ltima vez que tinha visto. No fazia idia de como aquilo tinha acontecido. Tristan se perguntou se Ivy acharia sua casa pequena, velha e inacreditavelmente desarrumada.  Ento, o que vocs combinaram? Um encontro em troca da gata? Ou que tal um encontro por cada semana que voc ficar com a gata?  sugeriu Gary.  Suzanne disse que ela  muito ligada  gata  Tristan sorriu, satisfeito com o que tinha planejado.  Vou dizer a ela que ode visitar a gata sempre que quiser.  E se Ivy no sentir saudades da bola de pelo?  Ela vai sentir saudade de mim. A campanhia tocou. Na mesma hora, perdeu toda a sua autoconfiana.  Rpido, como  que se pega uma gata?  Pagando uma bebida para ela?  Estou falando srio!  Pelo rabo.  Voc s pode estar de brincadeira.  Acertou! A campanhia tocou novamente. Tristan foi correndo atender. Foi sua imaginao ou Ivy corou ao v  lo? Definitivamente, sua boca tinha um tom cor de rosa. Seus cabelos brilhavam como ouro e seus olhos verdes remetiam no ao calor das guas de um oceano.  Trouxe Ella  disse.  Ella?  Minha gata. Tristan olhou para baixo e viu que, ao lado dela, na varanda, havia todo tipo de parafernlia para gatos.  Ah, Ella! Que bom!  por que no conseguia formar uma frase completa quando estava perto dela?  Voc ainda a quer?  uma ruga de preocupao surgiu em seu rosto.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

30

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Ah, sim, ele ainda a quer  respondeu Gary, levantando se do cho. Ivy entrou na casa e deu uma olhada ao redor, sem tirar a gata do transportador. Balanou a cabea e deu um sorriso distante.  Voc tambm esteve no casamento?   verdade! Tristan e eu, mas consegui ficar at o final sem ser demitido. Ivy sorriu novamente, um sorriso mais amigvel dessa vez, ento voltou a concentrar se em seu objetivo.  A caixa de areia de Ella est l fora, junto com algumas latas de comida. Trouxe tambm seu cestinho e sua almofada, mas ela nunca usa. Tristan concordou com a cabea. O cabelo de Ivy esvoaava por causa da corrente de vento deixada pela porta aberta. Queria toc la. Tirar o cabelo dela do rosto e beij la.  Voc se importaria em dividir a sua cama? Tristan piscou, espantando.  Como?  Ele no se importaria nem um pouco!  respondeu Gary. Tristan olhou feio para ele.  Que bom!  respondeu Ivy, sem ter percebido a piscadinha de Gary.  Ella adora dormir em cima do travesseiro, mas  s dar uma empurradinha nela que logo sai. Gary deu uma gargalhada. Em seguida, ele e Tristan pegaram as coisas que ficaram na entrada da casa.  Voc gosta de gatos?  Ivy perguntou para Gary.  No. Mas quem sabe mudo de idia agora  inclinou se para dar uma olhada na gata.  Agora que Tristan passou a gostar... Oi, Ella. Vamos nos divertir juntos.  Que pena que no ser hoje, pois Gary j estava de sada  disse a Ivy. Gary endireitou o corpo e sua expresso denotava falsa surpresa.  Estou de sada? To rpido?  J ficou bastante  respondeu Tristan, segurando a porta aberta.  Tudo bem, nos falamos mais tarde, Ella. Quem sabe no samos para caar ratos juntos? Aps a sada de Gary, o ambiente ficou bem silencioso. Tristan no conseguiu abrir a boca, mas tinha feito uma lista de perguntas que devia estar em algum lugar atrs do sof, onde havia jogado toda a baguna. Mas Ivy no parecia interessada em conversar. Abriu a porta do transportador e deixou Ella sair. A gata era engraadinha, quase toda preta com uma pata branca.  Tudo bem, querida  disse Ivy, segurando Ella em seus braos enquanto a acariciava. Ella piscou seus olhos verdes para Tristan, como se estivesse se gabando pela ateno de Ivy. No acredito que estou com cimes de uma gata, pensou Tristan. Quando Ivy finalmente decidiu colocar a gata no cho, Tristan estendeu a mo. A gata olhou feio para ele e tomou distncia.  Voc tem que esperar at que ela decida se aproximar de voc  aconselhou Ivy.  Ignore a por uns dias, talvez algumas semanas, se preciso for. Quando se sentir solitria, ela mesma vir para voc. Ser que Ivy faria o mesmo algum dia? Tristan pegou a tigela amarela.  Que tal voc me ensinar sobre a alimentao dela? Ivy tinha trazido todas as instrues impressas.  E esse  o histrico mdico dela e uma lista de vacinas habituais, junto com o telefone do veterinrio. Parecia estar com pressa em resolver a situao.  Esses so os brinquedinhos dela  disse, hesitante.  No deve estar sendo fcil para voc, no ?  falou gentilmente.  E essa  sua escova. Ela adora ser escovada.  Mas no lavada  acrescentou Tristan. Ivy mordeu os lbios.  Voc no entende nada de gatos, no ?  Mas vou aprender. Ela ser uma boa companhia para mim e eu serei para ela. E  claro que voc pode visit la sempre que quiser, Ivy. Ela sempre ser sua gata. Mas tambm ser minha. Venha sempre que sentir vontade.  No  respondeu incisivamente.  No.  No?  sentiu como se seu corao tivesse parado da bater. Ainda estava sentado, olhando para aquela parafernlia toda de gato, mas tinha certeza de ter tido um ataque cardaco.  Isso a deixaria confusa  explicou Ivy.  E acho que... acho que seria demais para mim. Sentiu vontade de toc la, de segurar sua mo delicada, mas seria muita ousadia. Em vez disso, fingiu examinar a almofadinha cor de rosa enquanto aguardava Ivy se recompor. Ella aproximou se para cheirar sua almofada e recuou novamente. Tristan gentilmente deslizou a mo pelo torso da gata.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

31

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Ela prefere perto da nuca  disse Ivy, pegando na mo dele e fazendo os movimentos.  Debaixo do queixo e na bochecha  suas glndulas olfativas ficam nessas regies,  assim que ela se lembra das coisas. Acho que ela gosta de voc, Tristan. Tirou a mo. Tristan continuou a acariciar Ella. Subitamente, a gata ficou de barriga para cima. Ivy riu.  Sua safadinha! Tristan acariciou a barriga dela. O pelo era esplendorosamente longo e macio.  Por que ser que gatos no gostam de gua? Ser que ela nadaria se fosse jogada em uma piscina?  Nem ouse! Nem ouse fazer isso! A gata levantou e foi se esconder debaixo de uma cadeira. Tristan olhou surpreso para Ivy.   claro que no faria uma coisa dessas. S queria saber. Ela abaixou a cabea e enrubesceu.  Foi isso que aconteceu com voc, Ivy? Ao silncio dela, reformulou a pergunta.  Por que voc tem medo de gua? Aconteceu alguma coisa quando voc era pequena? Ivy no conseguia olhar para ele.  Eu te devo uma. Por ter me tirado do trampolin.  Voc no me deve nada. S perguntei para tentar entender. A natao  a minha vida. Acho inconcebvel uma pessoa no gostar de gua.  Acho que voc no conseguiria entender. A gua para voc  como a brisa para o pssaro. Pelo menos,  o que parece. Para mim,  difcil entender essa sensao.  Por que voc tem medo?  ele insistiu. Quem deixou voc com medo? Ela pensou um pouco. Em me lembro o nome dele. Era um dos namorados da minha me. Ela teve muitos e alguns eram legais. Mais esse no era. Ele nos levou  piscina da casa de um amigo. Acho que eu no tinha nem quatros anos. No sabia nadar e no queria entrar na gua. Acho que, depois de algum tempo, devia estar irritando todo mundo, pois no desgrudava da minha me. Ela engoliu em seco e olhou para Tristan.  Ento?  perguntou Tristan suavemente.  A mame tinha entrado na casa para ajudar a fazer sanduches ou algo assim. Ele me agarrou, Sabia o que ia acontecer e comecei a gritar e chutar, mas a mame no conseguia me ouvir de onde estava. Ele me arrastou at a beira da piscina e disse:  Vamos ver se ela nada ou no! Levantou me e me jogou na gua. Tristan fez uma expresso de horror, como se estivesse realmente revivendo a cena.  A piscina no dava p para mim. Debati me, agitando meus braos e minhas pernas, mas no conseguia colocar o rosto para d`gua. Comecei a sufocar, engolindo a gua. No conseguia respirar. Tristan olhava para ela, mal acreditando no que ouvia.  E o cara? Pulou na gua para te socorrer?  No  Ivy levantou se e andava pela sala como se fosse uma gata agitada. Ella deu uma olhadinha, em sua boca havia uma bolinha.  Tenho certeza de que ele estava bbado. Tudo ficou meio turvo para mim. Depois, totalmente negro. Meus braos e pernas pareciam to pesados, e sentia que meu peito ia explodir. Rezei. Pela primeira vez na vida, rezei para meu anjo da guarda. Ento, senti que estava sendo retirada de dentro d`gua. Meus pulmes pararam de doer e recuperei a viso. No me lembro de muitos detalhes do anjo; s sei que brilhava, tinha muitas cores e era lindo. Ivy olhou para Tristan pelo canto do olho, depois sorriu abertamente. Voltou para perto dele e sentou  se no cho novamente mantendo o contato visual.  No tem problema. No espero que voc acredite em mim. Ningum mais acreditou. Parece que minha me saiu da casa para ver o estava acontecendo, mas uma amiga virou se para falar com ela, ento ningum viu como eu consegui chegar a beira da piscina. Apenas acreditaram que eu aprenderia a nadar aps ter sido jogada na gua  sua expresso era de melancolia. Parecia estar em outro lugar, rememorando os acontecimentos daquele dia. Gostaria de acreditar em seu anjo  Tristan deu de ombros.  Desculpe!  j tinha ouvido historias similares. De vez em quando, seu pai contava fatos parecidos, ocorridos no hospital. Mas, para ele, era apenas um sinal de que a mente estava trabalhando, pensou; era a forma como algumas mentes reagiam aos momentos de crise.  Sabe, quando estava l em cima, no trampolim, na segunda feira... rezei para meu anjo da guarda.  Mas eu apareci no lugar dele  salientou Tristan.  O que foi muito bom  ela respondeu, rindo.  Ivy... ele tentou controlar o tremor em sua voz, a fim de que ela no percebesse o quanto esperava uma resposta positiva dela.  Posso te ensinar a nadar. Ela arregalou os olhos.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

32

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Depois da aula, o tcnico nos daria permisso para usar a piscina. Suas mos, seus olhos, o corpo inteiro dela estava tenso e ela no parava de encar lo.   uma sensao maravilhosa, Ivy. Voc sabe o que  boiar no meio de um lago, circundando pelas rvores, olhando para o cu azul? Voc s fica l, deitando na gua, com o brilho do sol aquecendo sues dedos. Sabe o que  nadar no mar? Voc nada forte e a onda te pega e te levanta, sem esforo algum... Sem perceber o que estava fazendo, colocou suas mos em seus braos e a fez ficar de p. Ela ficou toda arrepiada.  Desculpe  disse, soltando a.  Desculpe! Me empolguei demais.  Tudo bem!  disse, sem conseguir olhar para ele novamente. Ele ficou imaginando do que ela tinha mais medo  se da gua ou dele. Provavelmente dele, pensou, e no sabia como resolver isso.  Eu te ensinaria de uma forma divertida, assim como fao com as crianas no acampamento de vero. Pense nisso, est bem? Ela concordou com a cabea. Era obvio que no sentia confortvel ao lado dele. Queria pedir desculpas pro ter esbarrado nela nos corredores de escola, por ter ido ao casamento da me dela, por ter telefonado a respeito da gata. Queria prometer que no iria mais incomod la, esperando que isso a fizesse ficar mais  vontade. Mas ela parecia to cansada e confusa; sentiu que era melhor no dizer nada.  Vou cuidar muito bem de Ella. Se a situao mudar e voc a quiser de volta, ligue para mim. E se quiser visit la, eu no preciso estar por perto, certo? Ivy olhou com espanto para ele.  Bem  disse, levantando se,  s teras e quintas quem cozinha sou eu.  melhor comear a fazer o jantar.  O que voc vai fazer?  Molho de carne com pedaos de fgado. Ah, no, desculpe. Essa  a comida da gata. A piada no era to boa, mas fez com que ela sorrisse.  Voc pode ficar e brincar com ela o quanto quiser.  Obrigada. Depois, foi para cozinha para deix la a ss com a gata. Mas antes que tivesse chegado  porta da cozinha, ouviu a dizer:  Adeus, Ella. Batendo a porta da frente atrs dela. *** Quando Ivy saiu do vestirio, Tristan j estava dentro d`gua. O tcnico tinha lhe dado permisso para ficar na parte fechada da piscina. Ela esperava que ele tivesse olhado para ela e dito, incrdulo:  Voc est dizendo que no sabe nadar?  mas seu rosto, que era comprido e cheio de marcas de expresso, parecendo uma uva passa, era gentil e nada indagador. Cumprimentou a e voltou para a sua sala. Ivy demorou uma semana para se decidir. Ela nadava em seus sonhos: em algumas noites chegava a nadar quilmetros de distancia. Quando disse a Tristan que queria aprender, os olhos dele se iluminaram. Ivy estava certa de que ele no estava interessado nela de alguma forma especial: de acordo com Suzanne, ele estava saindo com outras duas garotas. Ma sentia que ele era seu amigo. Ajudou a a sair do trampolim, ficou com Ella, e agora a ajudava a enfrentar seu maior medo  estava sempre por perto quando precisava, de uma forma que nenhum outro rapaz jamais esteve, como um amigo de verdade deve ser. Ela estava vendo o nadar. A gua passando por seu corpo msculo: erguendo o enquanto ele se movia de forma suave e poderosa por entre ela. Quando passou a nadar borboleta, seus braos pareciam asas saindo da piscina, parecia musica aos seus ouvidos  forte, cadenciada, graciosa. Ivy ficou um bom tempo olhando para ele, esto lembrou se da razo de estar ali. Andou at a borda da piscina, na parte rasa e ficou olhando. Depois, sentou se e colocou as pernas na gua. Estava quente e tranqila. Mas, mesmo assim, ela estava morrendo de frio. Batia os dentes e resolveu abaixar um pouco mais dentro da gua, ficando bem na altura do pescoo. Ficou imaginando a gua chegar em sua garganta, sua boca. Ento, fechou os olhos e segurou se na borda, tentando conter o medo que a dominava. Anjo das guas, rezou, no me abandone. Confio em voc, anjo. Estou em suas mos. Tristan parou de nadar.  Voc veio. E j entrou. Ele estava to contente que, por um momento, um momento bem breve, ela esqueceu se de seu medo.  Como voc est se sentindo?  Bem. Voc no se importa se eu ficar parada aqui, tremendo, no ?  Voc vai se aquecer movimentando se. Ela olhou para a gua.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

33

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Venha, vamos passear  pegou na mo dela e caminharam juntos pela piscina, como se estivesse em um shopping, apesar de que, dentro da gua, cada passo parecia ser dado em cmera lenta.  Voc quer que eu fale sobre Ella e o caos que ela est causando na minha casa?  Claro. Ela achou aquele pedao de frango enfiado no armrio da TV? Tristan ficou espantado por um momento, depois se recomps.  Claro. Logo aps ter espalhado toda a baguna que eu escondi atrs do sof  ele contou vrias histrias sobre Ella, caminhando para l e para c na parte rasa da piscina. Quando pararam, disse:  Acho melhor voc molhar um pouco o rosto agora. Ela temia esse momento. Ele pegou um pouco de gua com as mos e jogou na testa e nas bochechas dela, como se estivesse dando banho em um beb.  Fao isso quando tomo banho  Ivy disse, sarcasticamente.  Desculpe se Srta. Nvel Avanado. Vamos para o prximo passo. Respire fundo. Quero ver voc olhando para mim debaixo d`gua. O cloro vai incomodar um pouco, mas quero ver esses olhes verdes abertos e umas bolhinhas saindo do seu nariz. Prenda o flego antes de entrar na gua e solte  o quando estiver l dentro. Entendeu? Um, dois, trs. Ele a puxou para dentro da gua. Mergulhavam e voltavam  superfcie, a cada vez ele a segurava um pouco mais dentro da gua, fazendo caretas para ela. Ivy voltou  superfcie, tossindo por ter se engasgado.  Bem, se voc no consegue seguir instrues to simples...  Voc est me fazendo rir. No vale se voc me faz rir.  Tudo bem. Vamos ficar srios. Mais ou menos srios. Ele a ensinou como deveria respirar ao nadar, fingindo que a gua era um travesseiro, virando a cabea para o lado para inspirar. Ela praticou, segurando a borda da piscina. Ento, ela pegou em suas mos e a levou pela gua. Instintivamente, ela comeou a bater os ps para manter se na superfcie. Teve vontade de levantar a cabea para olha para ele, quando o fez, viu que sorria para ela. Treinaram esse movimento por um tempo. Depois de treinar na borda, brincaram de trenzinho. Ele fez com que ela segurasse seus tornozelos e o seguisse pela gua: ele batia os braos e ela os ps. Ficou impressionada com a facilidade com que a puxava pela piscina s com a fora dos braos. Quando pararam, perguntou a ela:  Est ficando cansada? Quer sentar um pouco l fora? Ivy balanou a cabea negativamente.  Se sair, no sei se consigo entrar novamente.  Voc  corajosa. Ela riu:  Estou em p na gua que s bate nos meus ombros e voc me acha corajosa?  Sim  nadou em volta dela.  Ivy, todo mundo tem medo de alguma coisa. Voc  uma das poucas pessoas que enfrenta seu medo. Mas eu sempre soube que voc tinha coragem. Percebi logo no primeiro dia, quando te vi na lanchonete deixando para trs a lder de torcida que, supostamente, voc deveria estar seguindo.  Estava com fome. E aquilo era tudo encenao.  Mas voc mandou bem. Ela sorriu e ele tambm, seus olhos da cor do mel iluminaram se e as gotas d`gua em seus clios brilharam.  Certo. Quer boiar de costas?  No Mas vou.   fcil  Tristan alongou se na gua e boiou, parecendo inteiramente relaxado,  Est vendo o que estou fazendo? Est maravilhoso, pensou, agradecendo aos anjos por ele no poder ler sua mente to bem quanto Beth.  Estou mantendo o quadril para cima, arqueando as costas e deixando o restante relaxado. Agora, tente. Tentou e afundou. Sentou o velho pnico retornar por um momento.  Voc sentou. Desse jeito voc afunda. Tente de novo. Quando ela deitou, ele colocou brao embaixo dela.  Isso, no se contraia. Arquei as costas.  assim que se faz  disse, tirando o brao debaixo dela. Ivy levantou a cabea e afundou novamente. Ficou em p com a cara brava. Seu cabelo molhado sai para fora do rabo de cavalo, caindo pelo pescoo. Tristan riu.  Se um dia Ella ficasse molhada, ficaria exatamente assim.  Qualquer criana consegue fazer isso!  Crianas conseguem fazer vrias coisas, porque confiam. O truque para conseguir nadar  no resistir  gua.  se deixar levar por ela. Brincar com ela. Entregar se a ela. Que tal tentarmos novamente?  disse, jogando um pouco de gua nela.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

34

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Ela se deitou. Sentiu o brao dele embaixo de seu corpo. Com uma das mos, gentilmente forou a cabea dela para baixo. A gua abatia na sua testa e no seu queixo, Ivy fechou os olhos e se deixou levar pela gua. Imaginou se no meio de um lago, com os raios do sol iluminando a ponta de seus dedos. Quando abriu os olhos, viu que ele a observava. O rosto dele era como sol, mantendo a aquecida, iluminando o ambiente ao seu redor.  Estou flutuando  disse, baixinho. Voc est flutuando  disse suavemente, aproximando u pouco mais o rosto.  Flutuando...  estavam lendo os lbios um do outro seus rostos ficando cada vez mais perto, cada vez mais, cada vez....  Tristan! Tristan se endireitou e Ivy afundou. Era o tcnico, gritando da porta da sua sala.  Desculpe interromper  gritou.  Mas tenho de ir embora em dez minutos.  Tudo bem, professor  disse Tristan.  Vou ficar at mais tarde amanh  disse, saindo da sala. Talvez possam continuar de onde pararam. Tristan olhou para Ivy. Ela deu de ombros e concordou com a cabea, mas sem olhar nos olhos dele.  Talvez  disse.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

35

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 8
Naquela tarde, Ivy pegou o caminho mais longo para voltar para casa, pela estrada que dava para a zona sul de Stonehill, passando pelas sombras das copas das rvores e as novas casas da regio. Dirigiu por um bom tempo, sem vontade de subir a montanha que dava para sua casa. Tinha tanto em que pensar. Por que Tristan a estava ajudando? Ser que s sentia pena dela? Queria ser seu amigo? Queria mais do que amizade? Mas no eram as perguntas que mantinham na direo do carro em movimento. Era o prazer de pensar nelas: a aparncia dele ao sair da gua, as gotas d`gua escorrendo por seu corpo; a forma como ele a havia tocado, suave, muito suave. Em casa, teria de ouvir sua me contar sobre mais um grupo de esnobes que havia acabado de conhecer; sobre a inconstncia de Philip no 3 ano. Finalmente, tinha encontrado uma nova maneira de agradecer pelos presentes que Andrew no parava de dar a ela, mas continuava pisando em ovos com Gregory. Com tudo isso acontecendo, logo os momentos vividos naquela tarde desapareceriam, ficando esquecidos para sempre. Em sua mente, Ivy via Tristan em cmera lenta, nadando ao redor dela. Lembrava  se da sensao da mo dele em seu corpo, ajudando a a boiar, a forma gentil como havia inclinado sua cabea na gua. Tremeu de prazer, e de um pouco de medo tambm.  Anjos, no me abandonem!  rezou. O que sentia era diferente de uma simples paixo. Era algo que inundava todos os seus pensamentos e sentimentos. Talvez fosse melhor recuar, pensou antes que ficasse mais envolvida. Vou ligar para ele hoje  noite. Mas, ento, se lembrou da forma como ele havia conseguido faz la entrar na gua, do seu rosto iluminado e risonho por sua proeza. Ivy no percebeu que um carro se aproximava. Perdida em seus pensamentos, prestando ateno somente no que vinha  sua frente s viu o carro escuro passar pelo sinal vermelho quando j era tarde demais. Pisou fundo no freio. Os dois carros derraparam, ficando lado a lado, quase batendo um no outro. Em seguida, conseguiram desviar se. Soltando o ar devagar, Ivy percebeu que estava bem no meio do cruzamento. O motorista do outro carro saiu. Falou vrios palavres para ela. Sem mesmo olhar na direo em que ele estava, Ivy fechou o vidro do carro e verificou se a porta estava travada. A gritaria acabou subitamente. Ivy virou se com indiferena para o motorista.  Gregory! Abaixou o vidro da janela. Apesar do rubor, ele estava plido. Olhou para ela e depois para o cruzamento, expressando surpresa, como se s agora tivesse percebido onde estava e o que tinha acontecido.  Voc est bem?  Ivy perguntou.  Sim... sim. Voc est?  J voltei a respirar normalmente. Sinto muito. Acho que eu... eu no estava prestando ateno. E no sabia que era voc  apesar de a raiva ter passado, ele ainda parecia chateado. Tudo bem. Eu tambm estava distrada. Ele olhou pela janela e viu a toalha molhada no banco da frente.  O que voc est fazendo por aqui? Imaginou se ele faria alguma coisa relao entre a toalha molhada e suas aulas de natao com Tristan. Mas no havia contado nem para Beth e Suzanne sobre isso. Alm do mais, Gregory na iria se interessar por isso.  Precisava pensar um pouco. Sei que parece estranho, tendo tanto espao em casa, mas  que eu...  Precisava de um espao diferente  disse, completando a frase.  Sei como . Est indo para casa agora?  Sim.  Sigame  deu um sorriso meio sem graa para ela.  Voc estar mais segura dirigindo atrs de mim.  Tem certeza de que est tudo bem?  sentiu que os olhos dele ainda estavam perturbados por alguma coisa. Concordou com a cabea e voltou para o carro. Andrew chegou em casa junto com eles.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

36

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Cumprimentou Ivy e virouse para Gregory:  Ento, como vai sua me? Gregory deu de ombros.  A mesma de sempre.  Fiquei feliz por voc ter ido visitla hoje. Disse a ela que voc mandou lembranas  disse Gregory, impassvel. Andrew concordou com a cabea e pisou em uma porca de gizes coloridos. Inclinou se para examinar o que antes tinha sido o piso de concreto, limpo e branco, de sua garagem.  Sua me tem alguma novidade? Algo que eu deva saber?  perguntou, olhando par os desenhos feitos com giz por Philip, no percebeu a expresso emotiva de Gregory, que desapareceu to rpida quanto veio. Mas Ivy percebeu.  Nada de novo.  Que bom! Ivy esperou Andrew entrar na casa. Voc quer falar sobre isso?  perguntou a Gregory. Virouse para ela de uma forma que parecia ter se esquecido de sua presena ali.  Falar sobre o qu? Ivy disse, hesitante:  Voc disse para o seu pai que est tudo bem com a sua me. Mas seu olhar, no cruzamento e agora mesmo, ao falar dela, achei que talvez... Gregory brincava com a chave do carro.  Voc tem razo. As coisas no vo bem. Acho que vir problema por a.  Com sua me?  No posso falar sobre isso. Sabe, agradeo sua preocupao, mas posso dar conta disso sozinho. Se voc quer mesmo me ajudar, ento no comente isso com ningum, est bem? Nem fale sobre a nossa pequena derrapada. Voc promete?  disse, olhando nos olhos dela. Ivy deu de ombros  Prometo, mas se voc mudar de idia, sabe onde me encontrar.  No meio do cruzamento  sorriu para ela e entrou em casa. Antes de entrar, Ivy parou para examinar a obra de arte que Philip havia feito no cho. Reconheceu a cor azul clara de seu anjo das guas e a intensa cor marrom de Tony. Em seguida, identificou um dos Power Rangers. Foi fcil distinguir os drages de Philip; pareciam sempre ter engolido fluido para isqueiro, e sempre lutavam com os Power Rangers e os anjos. Mas o que era aquilo? Uma cabea redonda, com um cabelo engraado e uma coisa laranja saindo pelas orelhas? Philip tinha escrito o nome ao lado do desenho: Tristan. Ivy pegou um giz preto e desenhou uma azeitona em cada dente incisivo. Pronto, agora estava mais parecido com o rapaz gentil que ajudou um garotinho de oito anos a passar por um dia difcil. Ivy lembrouse da cara de Tristan quando abriu a porta do depsito. Jogou a cabea para trs de tanto rir. Recuar agora? A quem ela queria enganar? Tristan tinha certeza de ter assustado Ivy na primeira aula de natao, mas ela voltou, e procurou ser mais cuidadoso a partir da segunda aula. Mal a tocava, ensinava a como um profissional, e continuou saindo com as duas garotas de quem mal sabia os nomes. Mas cada dia era mais difcil para ele ficar sozinho com Ivy, ficar to prximo dela, esperando por algum sinal de que ela quisesse mais do que as aulas de natao e sua amizade.  Acho que chegou a hora, Ella = disse  gata, depois de duas semanas de frustrao.  Ela no est interessada em mim, e no agento mais. Vou fazer com que ela se inscreva em uma escola de natao. Ella ronronou. Depois, vou entrar para um monastrio que tenha uma equipe de natao. Na aula seguinte, decidiu que no ia colocar seu traje de banho. Colocou um folheto da escola de natao no bolso e foi em direo  piscina, mas logo parou. Ivy no estava l. Pensou que tivesse esquecido da aula, porm, viu sua toalha de banho e seu elstico de cabelo na borda da piscina, perto do fundo. Ivy! Correu pela borda e a viu l no fundo da piscina, deitada, sem se mover. Ai meu Deus! Mergulhou na gua e nadou at o fundo para pegla. Trouxea superfcie e nadou at a borda. Foi difcil; ela tinha voltado a si e estava se debatendo. O peso da roupa dele atrapalhava. Colocou Ivy na borda da piscina e se jogou ao lado dela.  Que diabos foi isso?  ela disse. No estava tossindo nem cuspia gua, no estava com falta de ar. S estava olhando ele, para sua camiseta ensopada, sua cala jeans colada no corpo e as meias encharcadas. Tristan olhou para ela e jogou seus sapatos cheios d`gua para bem longe, l no meio da arquibancada.  O que voc fez?  ela perguntou.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

37

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 O que voc fez? Abriu a mo e lhe mostrou uma moedinha de cobre brilhante.  Mergulhei para pegar isso. Ele ficou muito bravo.  A primeira regra da natao  nunca, jamais nadar sozinha Ivy! Mas eu tinha que fazer isso, Tristan! Tinha de ver se conseguia enfrentar meu pesadelo sem voc, sem o meu... o meu salvavidas por perto. E eu consigo. Eu consegui!  disse e um sorriso de admirao tomou conta de seu rosto. Seu cabelo caia nos ombros. Seus olhos estavam sorrindo, pareciam o verde esmeralda do mar com brilho do sol. Ento, ela piscou  Foi isso que voc fez? Quis bancar o salvavidas, o heri? No,Ivy  disse em voz baixa e levantouse.  Provei mais uma vez que sou o heri de todo mundo, menos o seu. Espere um pouco!  mas ele foi se dirigindo  sada. Espere um pouco!  ele no foi muito longe, no com o peso do corpo todo dela segurando a perna dele.  Falei para esperar. Ele tentou sair, mas ela o deixou bem preso.  isso que voc quer, que eu diga que voc  um heri? Ele sorriu.  Acho que no. Achei que ia conseguir o que queria com isso. Mas no consegui. E o que voc quer? Valia a pena contar para ela agora? Vestir roupas secas. Tenho um agasalho no meu armrio. Tudo bem  soltou a perna dele, mas, antes que pudesse se mexer, pegou sua mo. Segurou a com as duas mos por um tempo e, depois, beijou suavemente as pontas dos dedos dele. Olhou para ele, deu de ombros, e deixou que soltasse a mo. Mas ele no soltou e entrelaou seus dedos como os dela. Depois de um momento de hesitao, levou a mo dela ao seu rosto. Ser que ela podia sentir a forma como seu corao pulsava mais rpido diante de seu toque? Ajoelhouse. Pegou a outra mo dela e beijou as pontas dos dedos, depois levou a mo a outra face. Ela ergueu o rosto.  Ivy  som de seu nome na boca dele parecia um beijo. Ivy. E o beijo se tornou realidade.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

38

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 9

Ele ganhou de mim!  disse Tristan.  Philip ganhou duas das trs partidas que jogamos! Ivy parou de tocar piano, olhou para Tristan e riu. Fazia uma semana que haviam trocado seu primeiro beijo trmulo. Toda noite, ao dormir, sonhava com aquele beijo, e todos os outros que vieram em seguida. Estava vivendo um momento incrvel. Seu corpo sentia intensamente at mesmo o mais simples toque de Tristan. Cada vez que ele dizia o seu nome, tinha a sensao de que o interior do seu corpo queria responder a ele. Mesmo assim, estar com ele era to simples e natural. s vezes, sentia que Tristan j fazia parte da sua vida h anos, principalmente em momentos como aquele, em que estava esparramado no cho da sala de msica, jogando dama com Philip.  Eu no acredito que ele ganhou duas das trs partidas.  Quase trs das trs partidas  gabou se Philip.  Talvez agora voc aprenda a no brincar com a Ginger  disse Ivy. Tristan franziu a testa para a estatueta de anjo que estava em cima do tabuleiro. Philip sempre usava Ginger como uma das peas do jogo. O anjo de porcelana de dez centmetros j tinha sido de Ivy, mas, quando Philip estava na educao infantil decidiu enfeit la. Passou um esmalte cor de rosa no vestido dela e encheu o cabelo de glitter dourado para melhorar o visual; ento Ivy decidiu d la a Philip.  Ginger  muito esperta  disse Philip. Tristan olhou para Ivy com cara de dvida.  Talvez, da prxima vez, Philip possa emprest la a voc, assim voc conseguir vencer  disse Ivy, sorrindo, virando se para Philip.  No est ficando tarde?  Por que voc sempre diz isso?  seu irmo perguntou. Tristan sorriu.  Porque ela est tentando se livrar de voc. Venha. Eu vou ler duas histrias, como fiz da ltima vez, depois apago a luz. Foi com Philip para o quarto dele. Ivy ficou no sto folheando seu mdulos de piano, procurando por canes que Tristan pudesse gostar. Ele apreciava Hard Rock, mas no dava para tocar esse ritmo no piano. Ele no sabia nada de Beethoven e Bach. Tristan achava que msica clssica eram os musicais da coleo dos pais dele. Tocou vrias canes do lbum Carrousel, depois colocou o mdulo de lado. A noite toda teve a impresso de que a msica dentro dela flua, como um rio prateado. Em seguida, apagou as luzes, e comeou a tocar a Sonata ao Luar, de Beethoven, de cor. Quando Tristan voltou, estava no meio da sonata. Ele percebeu uma leve hesitao nas mos dela antes de parar de tocar.  No pare  disse suavemente, posicionando se em p, atrs dela. Ivy tocou at o fim. Nenhum dos dois disse nada depois do som do ltimo acorde e ningum saiu do lugar. Estavam ali, apenas tendo a lua prateada como companhia, iluminando as teclas do piano, e a msica, que, no silncio, prolongava se em suas mentes. Ivy reclinou em Tristan.  Quer danar? Tristan perguntou. Ivy riu, e ele fez com que ela se levantasse para que os dois danassem, circulando pelo quarto. Aninhou sua cabea no ombro dele e sentiu a intensidade do seu abrao. Danaram lentamente, cada vez mais lentamente. Seu desejo era que ele no a soltasse nunca mais.  Como voc consegue fazer isso?  sussurrou Tristan.  Como voc dana comigo e toca piano ao mesmo tempo?  Ao mesmo tempo?  No  voc que est tocando a msica que estou ouvindo? Ivy afastou  se um pouco.  Tristan, essa cantada  to... to...
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

39

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Velha? Mas consegui fazer com que voc olhasse para mim  abaixou a cabea suavemente, roubando lhe um beijo longo e delicado. ***  No se esquea de falar para Tristan dar uma passada aqui na loja de vez em quando  disse Lillian.  Betty e eu adoraramos v lo de novo. Ns gostamos de rapazes bonitos.  Bonito, Lillian  Ivy respondeu com um sorriso.  Tristan  bonito  o meu bonito, pensou, depois pegou a caixa que estava embrulhada no papel marrom.   essa a entrega que devo fazer?  Sim, querida, obrigada. Sei que a entrega no fica no seu caminho.  Mas no  muito longe  disse Ivy, dirigindo se para a porta.  Rua Willow, n 528  gritou Betty do fundo da loja.  530  corrigiu Lillian em voz baixa. Bem, pelo menos eram apenas duas opes, penso u Ivy, ao passar pela porta da loja Tis The Season. Olhou para o relgio. Agora no daria mais tempo de ficar um pouco com suas amigas. Suzanne e Beth estavam esperando por ela na praa de alimentao do shopping.  Voc disse que sairia do trabalho h 20 minutos  reclamou Suzanne.  Eu sei disso. Mas hoje foi um daqueles dias. Vocs me acompanham at o meu carro? Tenho de fazer essa entrega e depois ir correndo para casa.  Voc ouviu isso? Ela tem de ir correndo para casa  Suzanne disse a Beth.  Ela diz que  por causa de uma festa de aniversrio. Diz que  o aniversrio de nove anos do Philip.   28 de maio  respondeu Ivy.  Voc sabe que , Suzanne.  Mas, pelo que sabemos  Suzanne continuou falando com Beth  trata se de um casamento particular na montanha. Ivy revirou os olhos e Beth riu. Suzanne ainda no a tinha perdoado por ter mantido as aulas de natao em segredo.  Tristan vai estar l esta noite?  perguntou Beth ao sarem do shopping.  Ele  um dos dois convidados de Philip  respondeu Ivy.  E vai sentar se ao lado de Philip, no do meu, alm de passar a noite toda brincando com Philip, e no comigo. Tristan prometeu. Foi o nico jeito que tivemos para fazer com que Philip desistisse da idia de nos acompanhar at o baile de formatura. Ei, onde vocs duas estacionaram? Suzanne no conseguia se lembrar e Beth no tinha prestado ateno. Ivy ficou dirigindo pelo estacionamento do shopping. Beth procurava pelo carro enquanto Suzanne dava  lhe conselhos sobre roupas e relacionamentos. Falou de tudo, desde estratgicas telefnicas, at como era preciso se comportar de forma descontrada para no parecer to fcil ou to difcil. Nas ltimas trs semanas, ela j tinha dado milhes de conselhos.  Suzanne, acho que a sua estratgia de namora  muito complicada  Ivy acabou dizendo.  Toda essa encenao e planejamento. Para mim parece to simples.   porque ele  o seu prncipe encantado  disse Beth com conhecimento de causa. S havia uma coisa em relao a Ivy que Tristan no entendia. Os anjos.  Voc teve uma vida difcil  disse ele uma noite. Era a noite de formatura, ou a manh seguinte a ela, mas o dia ainda no tinha amanhecido. Estavam caminhando descalos pela grama, longe da casa dela no alto da montanha. O brilho da lua crescente no cu parecia um enfeite de Natal fora de poca. S havia uma estrela no cu. Do outro lado, bem longe deles, o nico trem agitava se pelo vale.  Voc sofreu muito, por isso no a culpo por acreditar  disse Tristan.  Voc no me culpa? Voc no me culpa? O que voc quer dizer com isso?  mas ela sabia o que ele queria dizer. Para ele, um anjo era apenas um ursinho de pelcia bonito  algo a que uma criana sempre se agarrava. Deu lhe um abrao bem apertado.  No posso acreditar, Ivy. Eu tenho tudo o que preciso e tudo o que quero bem aqui na Terra  disse.  Bem aqui. Nos meus braos.  Mas eu no  respondeu, e mesmo tendo a plida lua como fonte de luz, pde ver a amargura nos olhos dele. Foi a que comearam a brigar. Ivy percebeu, pela primeira vez, que quanto mais voc ama, mais voc se magoa. E o que era pior, voc magoa a pessoa que ama bem como a voc mesma. Depois que ele foi embora, ela passou a manh inteira chorando. Ele no retornou as suas ligaes naquela tarde. Mas voltou  noite, com 15 rosas.  Uma para cada anjo  disse.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

40

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Ivy! Ivy, voc ouviu algumas coisa que eu disse?  perguntou Suzanne, trazendo a de volta  vida real.  Sabe, achei que se ns consegussemos arrumar um namorado para voc, voc sairia do mundo da lua. Mas eu estava enganada. Voc continua por l! No mundo dos anjos!  A gente no arrumou um namorado para ele  Beth disse em voz baixa, mas com firmeza.  Eles se descobriram. L est o carro, Ivy. Divirta se.  melhor nos apressarmos, vai cair uma tempestade. As garotas saltaram para fora do carro e Ivy olhou de novo para o relgio. Agora estava super atrasada. Aumentou a velocidade em direo  rua que dava acesso  auto estrada. Ao cruzar o rio, percebeu como as nuvens escuras moviam se rapidamente. A entrega que ela tinha de fazer era em uma daquelas casas recm construdas no sul da cidade, o mesmo bairro em que tinha dado umas voltas de carro depois da sua primeira aula de natao com Tristan. Ivy se perdeu, assim como da outra vez. Dirigia em crculos, de olho nas nuvens. O barulho dos troves era cada vez mais retumbante. As rvores agitavam se e derrubavam as suas folhas, acrescentando um estranho brilho de lima ao cu escuro. O vento comeava a soprar. Os galhos das rvores se rebatiam e as flores e folhas delicadas eram arrancadas pelo vento forte. Ivy inclinou se para frente em seu assento, tentando descobrir qual era a casa certa antes que a tempestade comeasse. J tinha sido difcil encontrar a rua certa. Ela pensou que estivesse na rua Willow, mas a placa dizia que era a rua Fernway, perpendicular a Willow. Teve de sair do carro para ver se as placas no tinham sido trocadas  um esporte cada vez mais popular entre as crianas da cidade. Foi ento que ouviu um ronco de motor descendo a curva da montanha. Ficou parada na rua para dar passagem ao motorista. A Harley parou um pouco, depois o motor voltou a funcionar e o motoqueiro passou por ela. Ia mesmo ter de encontrar a casa usando sua intuio. O terreno estava em uma rea bem ngreme. E Lillian disse que a senhora Abromaitis morava em uma ladeira, em um sobrado onde a escada era feita de pedras, com vrios vasos enfeitando a fachada da casa. Ivy deu uma volta com o carro por ali. O vento soprava cada vez mais forte, balanando seu carro. L no alto, o cu plido parecia engolido pelas nuvens escuras. Ivy estacionou no meio de duas casas e tirou a caixa do carro, lutando contra o vento. As duas casas tinham escadas de pedras. As duas casas tinham vasos com flores. Optou por uma delas, e, assim que passou pelo vaso, ele saiu voando, espatifando se no cho. Ivy gritou, depois riu de si mesma. No alto da escada, olhou para uma casa, depois para outra, 528 e 530, esperando conseguir alguma pista que a levasse  casa certa. Havia um carro estacionado no 528, escondido entre os arbustos, ento provavelmente deveria haver algum em casa. Em seguida, viu uma silhueta na janela do 528. Algum procurando por ela, pensou, apesar de no conseguir ver se era homem ou mulher, ou se a pessoa tinha realmente acenado para ela. Tudo que conseguia ver era a turva silhueta de uma pessoa, pois parte da janela refletia a agitao das rvores, iluminadas pelos relmpagos. Foi em direo  porta de entrada. A silhueta desapareceu. Ao mesmo tempo, a luz da varanda do 530 acendeu. A porta de tela bateu com o vento.  Ivy? Ivy?  gritou uma mulher da varanda acesa.  Opa! Correu at a outra casa, entregou o pacote, e voltou s pressas para o carro. O cu se abriu, e a chuva torrencial comeou. Bem, no seria a primeira vez que Tristan olharia para ela, e ela estaria parecendo um pintinho molhado. Ivy, Gregory e Andrew chegaram tarde em casa, e Maggie parecia irritada. Philip, obviamente, nem ligou. Ele, Tristan, e seu novo colega de escola, Sammy, estavam jogando videogame, um dos muitos presentes que Andrew dera a ele por causa de seu aniversrio. Tristan sorriu ao ver Ivy ensopada.  Estou feliz por ter ensinado voc a nadar  disse, levantando se para beij la. A gua de seu corpo pingava por todo o cho do piso de madeira.  Vou te deixar todo molhado  avisou Ivy. Ele a envolveu ainda mais em seus braos e a puxou para mais perto de si.  Eu j seco  sussurrou.  Alm do mais,  engraado ver a cara de nojo do Philip.  Eca!  disse Philip, como se estivesse ouvido a conversa deles.  Argh!  concordou Sammy. Ivy e Tristan permaneceram abraados e riram. Depois, Ivy foi correndo para seu quarto para trocar de roupa e secar o cabelo. Passou um batom e mais nada  seus olhos j estavam iluminados o suficiente e suas bochechas bem coradas. Procurou por alguma bijuteria na sua caixa de brincos, depois desceu as escadas, chegando a tempo de ver Philip terminar de abrir os presentes.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

41

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Ela colocou os brincos de pavo  Philip disse a Tristan assim que Ivy sentou se  mesa de frente para os dois.  Droga  disse Tristan.  Esqueci de colocar os meus brincos de cenoura.  E os seus rabinhos de camaro  brincou Philip. Ivy perguntava se quem estava mais feliz naquele momento, Philip ou ela. Sabia que Gregory estava em um momento ruim da sua vida. Tinha sido uma semana difcil para ele; havia lhe confidenciado estar ainda preocupado com sua me, embora no dissesse o motivo. Ultimamente, seu pai falava muito pouco com ele. Maggie tentava puxar conversa, mas nunca dava certo. Ivy virou se para ele.  Os ingressos para ver o jogo dos Yankee foram uma idia maravilhosa. Philip adorou o presente.  Ele tem um jeito bem estranho de demonstrar gratido. Era verdade. Philip havia agradecido de forma muito educada, mas pulou de alegria ao ver os exemplares da revista Sports Illustrated, que continham reportagens sobre Dom Mattingly, que Tristan achara no fundo do ba. Durante o jantar, Ivy esforou se para que Gregory participasse da conversa. Tristan tentou falar de esportes e carros, mas s obteve respostas monossilbicas. Andrew mostrou se irritado, mas Tristan no pareceu ficar ofendido. O cozinheiro de Andrew, Harry  que tinha sido despedido logo aps o casamento e readmitido depois de seis semanas da culinria de Maggie  tinha preparado um jantar delicioso, porm, Maggie insistiu em fazer o bolo de aniversrio do filho. Harry trouxe o bolo, pesado e estranho, evitando olhar para ele. O rosto de Philip se iluminou.   o Bolo Todo!  a cobertura do bolo de chocolate, ridculo e exageradamente confeitado, possua nove velas de vrios ngulos diferentes, que foram rapidamente apagadas enquanto todos cantavam para Philip. No final do parabns, a campainha tocou. Andrew franziu a testa, mas levantou se para abrir a porta. Do seu lugar, Ivy conseguia ver o hall. Eram dois policiais, um homem e uma mulher, conversando com Andrew. Gregory inclinou se para perto de Ivy para ver o que estava acontecendo.  O que voc acha que ?  sussurrou Ivy.  Alguma coisa na faculdade  foi o palpite dele. Tristan fez uma cara de interrogao para Ivy e ela deu de ombros para ele. Sua me, sem perceber que havia algo errado, continuou cortando bolo. Ento, Andrew voltou para a sala de jantar.  Maggie  ela deve ter percebido alguma coisa no olhar dele. Soltou a faca imediatamente e foi para o lado de Andrew, que pegou em sua mo.  Gregory, Ivy, vocs podem vir conosco para a biblioteca, por favor? Tristan, voc pode cuidar dos garotos?  perguntou. Os policiais ainda estavam esperando no corredor. Andrew levou os  biblioteca. Se fosse algum problema na faculdade, no seria necessrio conversar com todo mundo, pensou Ivy. Quando todos estavam sentados, Andrew disse:  No existe uma maneira fcil de comear. Gregory, sua me morreu.  Ah, no!  disse Maggie. Ivy virou se rapidamente para Gregory. Ele no saiu do lugar em que estava sentado e olhava fixamente para o pai, mas no disse nada.  A polcia recebeu uma ligao annima por volta das 17h30, dizendo que algum naquele endereo precisava de ajuda. Quando chegaram, ela j estava morta, com um tiro na cabea. Gregory no piscou. Ivy pegou na mo dele. Estava fria como gelo. A polcia perguntou... eles precisam saber... faz parte do procedimento de rotina...  Andrew no conseguiu continuar. Virou se para os policiais.  Talvez fosse melhor vocs explicarem.  Como procedimento de rotina  disse a policial  Precisamos fazer algumas perguntas. Estamos averiguando a casa para ver se h alguma informao relevante ao caso, embora parea muito conclusivo que a morte dela tenha sido suicdio.  Deus!  disse Maggie.  Quais so as provas que vocs tm para chegar a esta concluso?  perguntou Gregory.  Sei que  verdade que minha me era depressiva e estava mais deprimida desde o comeo de abril...  Deus!  repetiu Maggie. Andrew aproximou se dela, mas ela se afastou. Ivy sabia o que sua me estava pensando, Lembrou se da cena que havia ocorrido na semana anterior, quando, de alguma forma, uma foto de Caroline e Andrew foi parar na mesa do hall. Andrew disse a Maggie para jogar a foto no lixo.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

42

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Maggie no conseguiu. Ela no queria pensar que tinha sido ela quem tivesse jogado Caroline fora daquela casa  nem antes e nem agora. Ivy percebeu que sua me se sentia responsvel pela infelicidade de Caroline, e agora por sua morte.  Eu ainda gostaria de saber...  continuou Gregory.  o que leva vocs a pensarem que ela se matou? Essa no parece uma atitude que ela tomaria. De forma alguma ela faria isso. Era uma mulher muito forte. Ivy mal podia acreditar como Gregory conseguia falar de forma to clara e to objetiva.  Em primeiro lugar, existem as provas circunstanciais  disse i policial.  ela no deixou nenhum bilhete, mas havia fotografias rasgadas e espalhadas em volta do corpo dela  disse olhando para Maggie.  Fotografias...? Perguntou Gregory. Andrew prendeu a respirao.  Do senhor e da senhora Baines  disse o policial.  Fotos de jornal sobre o casamento deles. Maggie inclinou se na cadeira, abaixou a cabea, e abraou seus joelhos. Andrew olhava para ela, sentindo se impotente. Ivy tentou soltar a mo de Gregory para confortar sua me, mas ele a segurou forte.  A arma ainda estava na mo dela. Havia queimaduras de plvora em seus dedos, o tipo de queimadura que uma pessoa sofre quando usa a arma.  claro que vamos verificar a arma para ver se existem impresses digitais e se as balas conferem uma com a outra, e avisaremos vocs caso encontremos algo inesperado. Mas a porta da casa dela estava destrancada,  no havia sinal de arrombamento  o ar condicionado estava ligado e as janelas fechadas, ento... Gregory respirou fundo.  Ento, acho que ela no era to forte como pensava... A que horas vocs acham que isso aconteceu?  Entre 17h e 17h30, no muito antes de chegarmos ao local. Ivy sentiu uma sensao estranha tomar conta de seu corpo. Nesta mesma hora ela estava naquele bairro. Lembrava se de ter olhado pra o cu raivoso e para a agitao das rvores. Ser que ela tinha passado pela casa de Caroline? Ser que Caroline teria se matado em meio  fria da tempestade? Andrew perguntou se poderiam falar com a polcia mais tarde e tirou Maggie do ambiente. Gregory ficou ali para responder a algumas perguntas sobre sua me e sobre relacionamentos ou problemas que ela pudesse ter tido. Ivy queria sair; no queria ouvir os detalhes da vida de Caroline e estava louca para ficar com Tristan, ansiosa para sentir seus braos firmes entrelaados aos seus. Mas Gregory no a deixou ir. Sua mo era fria e indiferente para ela e seu rosto ainda no demonstrava expresso alguma. A voz dele era to calma que lhe dava arrepios. Mas, dentro dele parecia haver uma luta interna, uma pequena parte dele admitia o horror da situao e pedia pela companhia dela. Ento, ficou com ele. Bem depois, Tristan foi embora e todos os outros j estavam dormindo.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

43

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 10

Mas voc me disse que o Gary queria sair na sexta feira  noite!  disse Ivy.  E queria!  respondeu Tristan, deitando se na grama ao lado dela.  Mas a garota com quem ele ia sair mudou de idia. Deve ter recebido um convite melhor. Ivy balanou a cabea.  Por que o Gary sempre corre atrs das garotas mais bonitas?  Por que a Suzanne corre atrs do Gregory?  contra argumentou Tristan. Ivy sorriu.  Pela mesma razo que Ella corre atrs de borboletas, penso eu  disse, observando o bal saltitante da gata. Ella sentia se totalmente  vontade no jardim que o reverendo Carruthers tinha plantado para ela. Plantas que gatos apreciavam: bocas de drago, lrios, rosas, entre outras.  Voc tem algum problema em sair no sbado  noite?  perguntou Tristan.  Se for trabalhar, podemos pegar a ultima sesso do cinema. Ivy sentou se. Tristan era sua prioridade, sempre. Mas j tinham planos para sexta  noite e sbado tambm. Bem, pensou, era melhor contar logo a ele.  Gregory convidou Suzanne, Betty, eu e outros amigos para sair no sbado  noite. Tristan no escondeu a surpresa nem o descontentamento.  Suzanne ficou super ansiosa  disse Ivy rapidamente.  E Beth, toda animada; ela no sai muito.  E voc?  perguntou Tristan levantando se em um s impulso, arrancando um pedao da grama.  Acho que tenho que ir... pelo bem de Gregory.  Acho que voc tem feito muitas coisas pelo bem de Gregory nas ultimas semanas.  Tristan, a me dele se matou!  Eu sei disso.  Moro na mesma casa que ele. Dividimos a mesma cozinha, os mesmos corredores e a mesma sala de TV. Tenho visto seus altos e baixos; mais baixos do que altos  acrescentou suavemente, pensando nos dias em que Gregory no fazia nada alem de sentar e ler o jornal, folheando o como se estivesse procurando algo que nunca encontrava.  Acho que ele est muito bravo. Ele tenta esconder, mas sei que est furioso com sua me por ter se matado. Outro dia, era 1h30, e ele estava na quadra de tnis, arremessando as bolas violentamente contra a parede  naquela noite, Ivy saiu apara falar com ele. Ele se virou ao ouvir seu nome, e ela pde ver a profundidade da sua raiva e da sua dor.  Acredite em mim, Tristan, vou ajud lo quando puder, e vou continuar ajudando, mas se voc acha que sinto alguma coisa por ele, se voc acha que ele e eu... Isso  ridculo! Se voc acha... Eu no posso acreditar que voc...  Ou, ou  jogou se em cima dela na grama.  No estou preocupado com nada disso.  Ento o que est te incomodando?  Acho que so duas coisas. A primeira  que muito do que voc est fazendo por ele deve  se ao fato de estar se sentindo culpada.  Culpada!  ela o empurrou, voltando a sentar se.  Acho que a sua atitude  igual  da sua me, acreditando que voc e sua famlia so responsveis pela infelicidade de Caroline.  Mas no somos.  Eu sei disso. S quero ter certeza de que voc tambm saiba... E que voc no est tentando compensar coisas para algum que s est se aproveitando da situao; se me permite falar.  No sei do que voc est falando  disse Ivy, arrancando um pedao de grama.  Voc realmente no sabe o que ele est passando. Voc no convive com Gregory. Voc...
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

44

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Convivo com Gregory desde o primeiro ano da escola.  As pessoas mudam quando crescem.  Convivo com Eric durante o mesmo perodo. Eles j fizeram coisas bem feias juntos, extremamente perigosas. E essa  a outra coisa que me preocupa.  Mas Gregory no ia tentar fazer coisas desse tipo comigo e com os meus amigos por perto. Ele me respeita, Tristan. Isso  s um jeito de tentar recomear, depois de trs semanas. Tristan no ficou convencido.  No deixe isso interferir em nosso relacionamento  disse ela. Colocou a mo em seu rosto.  No deixaria que nada interferisse em nosso relacionamento. Nem as montanhas, os rios, os continentes, a guerra, nem mesmo as inundaes...  Ou a morte horrenda. Ento voc tambm leu a ultima historia da Beth?  Gary devorou!  Gary? Voc est brincando?  Ele levou a copia que voc tinha me dado, mas fez com que eu jurasse que iria dizer para voc que tinha perdido. Ivy riu e deitou se ao lado de Tristan, apoiando a cabea em seu ombro.  Ento, voc entende porque disse sim para Gregory?  No, mas a escolha  sua e ponto final. Ento, quais so seus planos para o outro sbado?  Quais so os seus planos?  Ivy perguntou.  Jantar no Hotel Durney.  No hotel! Nossa, voc deve estar ganhando muito bem com as aulas de natao neste vero.  Estou ganhando o suficiente. Por acaso voc conhece alguma garota bonita que gosta de ser tratada  luz de velas e comida francesa?  Sim, conheo.  Ela vai estar disponvel nesse dia?  Talvez. Ela tem direito a uma entrada?  Trs, se quiser.  E sobremesa?  Sufl de framboesa. E beijos.  Beijos...  Bem, foi divertido  comentou Ivy secamente sobre a festa.  Eu j estava ficando entediado mesmo  disse Eric.  Eu no  disse Beth. Ela foi a ultima a sair da festa na fraternidade do campus da universidade naquele sbado  noite. Entrevistou quase todo mundo. Quando os alunos do Ensino Mdio foram expulsos da festa, foi convidada a ficar. A fraternidade Sigma PI Nu ficou lisonjeada em saber que ela iria escrever uma historia sobre ela.  Eric, voc tem de aprender a se controlar  disse Gregory, claramente irritado. Gregory tinha ficado em um canto com uma ruiva ( o que foi a deixa para Suzanne iniciar um corpo ao corpo com um cara barbudo), quando Eric decidiu comear uma luta com um gigante que usava camiseta do time da universidade. Nada esperto. Agora, Eric estava em p nos degraus de um edifcio sustentado por pilares, olhando para uma esttua e inclinando a cabea para a esquerda e para a direita, como se estivesse conversando com ela. Suzanne deitou se de costas em um banco da faculdade rindo de si mesma, com os joelhos levantados, e agitando  os de maneira provocativa. Gregory de olho nela. Ivy desviou o olhar. Ela e o Will eram os nicos que no tinham bebido. Will pareceu ficar  vontade na festa do campus, mas impaciente. Talvez os rumores na escola fossem verdadeiros: ele j tinha visto de tudo e no se impressionava com quase mais nada. Assim como Ivy, Will tambm era aluno novo na escola. O pai dele era produtor de televiso em Nova York, o que fez com que marcasse muitos pontos com a galera da escola. Assim que chegou, foi imediatamente aceito pelo grupo, e seu jeito silencioso fez com que as pessoas no tivessem muita vontade de aprontar com ele. Era fcil imaginar muitas coisas sobre o Will, e a maioria das pessoas que Ivy conhecia imaginava que ele era bem maneiro.  Onde est o ssssseu velho?  perguntou Eric subitamente, ainda olhando para a esttua.  G.B., onde est o ssssseu velho?  Este  o velho do meu velho  Gregory respondeu. Ivy percebeu que aquela era a esttua do av de Gregory.  claro. Estavam na frente do Baine`s Hall.  Por que ssssseu velho no essssst l?
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

45

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Gregory sentou se no banco na frente de Suzanne.  Acho que  porque ele ainda no morreu  disse, dando um longo gole na sua garrafa de cerveja.  Ento por que a ssssssua velha no est l? Heim?  Gregory no respondeu. Em vez disso, tomou outro gole. Eric franziu a testa para a esttua.  Sssssinto falta dela. Da velha Caroline. Sei muito bem disso.  Eu sei  disse Gregory em voz baixa.  Ento, vamosssss coloc la l  disse , piscando para Gregory. Gregory no respondeu e Ivy foi ficar ao lado dele. Pousou delicadamente a mo no ombro de Gregory.  Caroline est bem aqui no meu bolso  disse Eric. Todos olharam enquanto ele procurava nos bolsos da camisa e da cala. Finalmente, tirou um suti e esfregou em seu rosto.  Ainda est quente. Ivy colocou a outra mo no ombro de Gregory. Dava para sentir com estava tenso. Eric enfiou o suti no brao e escalou a esttua com dificuldade.  Voc vai se matar  Gregory disse a ele.  Igual a sua me  disse Eric. Gregory no respondeu e tomou mais um gole de cerveja. Ivy desviou o olhar de Eric. Gregory apoiou a cabea contra o corpo de Ivy, e ela percebeu que ele ficou um pouco mais relaxado. Tanto Suzanne quanto Will estavam de olho nos dois, Suzanne no parava de piscar. Mas Ivy no saiu do lugar enquanto Eric colocava o suti no juiz Baines. Depois saiu para confiscar algumas garrafas de cerveja que ainda no haviam sido abertas e foi em direo a Suzanne.  Acho que voc podia dar um pouco de apoio ao Gregory.  Depois de voc e da ruiva. Ivy ignorou o comentrio. Suzanne j tinha bebido muito.  Eric deu um grito e eles se viraram rapidamente para v lo escorregando esttua abaixo. Caiu no cascalho, rolando como uma lesma. Will correu na direo dele. Gregory riu.  No quebrei nada, s meu crebro  Eric respondeu quando Will o ajudou a se levantar.  Acho que a gente deveria voltar para o carro  disse Will.  Mas a festa mal comeou  protestou Gregory, ficando de p. Era obvio que o lcool j estava fazendo efeito.  No me sinto to bem assim desde quem sabe quando.  Eu sei quando  disse Eric.  A festa vai acabar assim que a policia da faculdade nos pegar  salientou Will.  Meu pai  o mandachuva aqui. Ele vai mexer os pauzinhos por ns.  Ou vai nos dar umas pauladas  disse Eric. Ivy olhou no relgio. Eram 11h45. Perguntou se onde Tristan poderia estar e o que estaria fazendo. Ser que sentia falta dela? Podiam estar sentados, lado a lado, nesse momento, apreciando a bela noite de junho.  Vamos, Beth. Suzanne.  disse, triste por ter colocado as amigas nessa situao.  Sim, mame  Suzanne respondeu. Gregory riu, o que magoou um pouco Ivy. Os dois esto bbados, disse a si mesma. Levou um tempo para que os seis encontrassem o carro de Gregory novamente. Quando encontraram, Will tentou pegar a chave de Gregory.  No  melhor eu dirigir?  Eu dou conta disso  disse Gregory.  Dessa vez no. O tom de Will era descontrado, mas pegou as chaves de uma maneira determinada. Gregory as pegou de volta.  Ningum dirige a minha BMW, s eu. Will olhou para Ivy.  Por favor Gregory  ela disse. Por favor, Gregory. Deixe que eu decida isso por voc.  Se outra pessoa dirigir, voc poder beber muito mais  Will tentou convencer Gregory.  Vou beber o quanto quiser e dirigir o quanto quiser  gritou Gregory.  E se voc no est contente, v a p.  Ivy pensou em caminhar at o telefone mais prximo e pedir uma carona. Mas sabia que Suzanne ficaria com Gregory, e sentia se responsvel por sua segurana. Will perguntou para Ivy se podia pegar sua blusa de l emprestada, depois juntou com seu casaco e os colocou no meio dos assentos da frente e assim Gregory, ele e Eric estavam sentados os trs juntos. Ivy entrou no meio do banco de trs, com Beth e Suzanne de cada lado.  Nossa, Will!  disse Gregory, observando a forma como ele se enfiou no meio dos dois.  No sabia dos seus sentimentos. Suzanne venha para c.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

46

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Ivy conteve Suzanne.  Eu disse, venha para c. Deixa o Will sentar a atrs com a garota dos seus sonhos. Ivy balanou a cabea e suspirou.  As pessoas que provavelmente vo vomitar tm de sentar perto da janela  disse Will. Ivy afivelou o cinto de Suzanne. Gregory deu de ombros e ligou o carro. Dirigia em uma velocidade muito rpida, rpida demais. Os pneus derrapavam diante das curvas, pareciam estar se despregando da estrada. Beth fechava os olhos. Suzanne e Eric colocavam a cabea para fora da janela conforme o carro movia  se de forma repugnante de um lado para o outro. Ivy olhava sempre pra frente, seus msculos se contraiam cada vez que Gregory brecava ou fazia uma curva, como se estivesse dirigindo por ele. Will, na verdade, chegou at a dirigir um pouco. Foi a que Ivy percebeu porque ele tinha se sentado em um lugar perigoso e sem cinto de segurana. Seguiam por uma estrada paralela e, quando finalmente atravessaram o rio, aproximando  se da cidade, Ivy soltou um suspiro de alivio. Mas Gregory fez uma curva violenta e tomou o rumo norte pegando a estrada paralela ao rio, abaixo da montanha, passando pela estao de trem e ultrapassando os limites da cidade.  Aonde vamos?  Ivy perguntou enquanto seguiam pela estrada estreita.  Voc vai ver  Eric colocou a cabea para fora da janela.  Medo, medo, medo!  cantava.  Quem tem medo, medo, medo? A montanha parecia um gigante escuro  direita, comprimindo a estrada. Ivy sabia que estavam indo para o lugar em que os trilhos atravessavam o rio.  As portas duplas  Beth sussurrou para ela assim que saram da estrada. Gregory desligou o motor e apagou os faris. Ivy no conseguia ver nada.  Quem tem medo, medo, medo?  disse Eric, balanando a cabea para l e para c. Ivy sentiu se mal com a fumaa do carro e o odor de lcool. Ela e Beth saram do carro. Suzanne sentou  se no carro com a porta aberta do outro lado. Gregory abriu o porta malas. Mais cerveja.  Onde voc comprou tudo isso?  indagou Ivy. Gregory sorriu e colocou seu brao pesado ao redor dos ombros dela.  Mais uma coisinha que devemos agradecer ao Andrew.  Andrew comprou?  disse, incrdula.  No, foi o carto de credito dele. Em seguida, ele e Eric pegaram a caixa de cerveja. Apesar de Ivy entender a necessidade de Gregory aliviar o estresse, apesar de saber como estava sendo difcil para desde a morte da me, no conseguia controlar a raiva que crescia dentro dela a cada minuto e que agora comeava lentamente a dar lugar ao medo. O rio no estava muito longe dali; dava para ouvir sua fora contra as pedras. Seus olhos adaptaram  se  escurido para que pudesse seguir a fiao do trem eltrico. Lembrou se porque os garotos iam ali: para brincar do jogo do medo na ponte da ferrovia. Ivy no queria seguir Gregory na fila nica em direo as pontes. Mas no podia ficar para trs, no com Suzanne incapaz de cuidar de si mesma. Eric estava atrs dela, empurrando a, cantando em um tom alto e estranho:  Quem tem medo, medo, medo? Dava para sentir as pedrinhas rolando embaixo dos seus ps. Eric e Suzanne no paravam de tropear nas travessas da rodovia. O grupo caminhava pela avenida que bifurcava em meio s arvores, um caminho que os trens faziam apressadamente de Nova York para as cidades do norte. A avenida se abriu e Ivy viu duas pontes lado a lado, a mais nova tinha 200 metros a mais que a antiga. O brilho do ao de seus trilhos delineava o caminho da mais nova. No havia corrimo nem cerca de segurana. Os arabescos abaixo dela alongavam se como uma teia sinistra e escura na frente do rio. A ponte mais velha tinha se quebrado ao meio. Cada lado parecia uma mo que se estendia pelas margens do rio, com os seus dedos de metal e madeira podre, seguindo em frente, porem abaixo das duas pontes, a gua agitava se e assobiava.  Siga o lder, siga o lder  disse Eric com seu olhar arrogante na frente deles, cambaleando em direo  ponte mais nova. Ivy prendeu dois dedos no cinto da saia de Suzanne.  Voc no.  Me solta!  gritou Suzanne. Suzanne tentou seguir Ivy em direo  ponte, mas Ivy segurou Suzanne.  Me solta! Elas brigaram e Gregory riu das duas. Depois Suzanne soltou se de Ivy. Desesperada Ivy correu e pegou a perna de Suzanne, fazendo com que ela tropeasse no trilho, caindo no caminho de pedras. Suzanne tentou levantar se, mas no conseguiu. Acabou recuando, seus olhos fuzilavam Ivy e as mos estavam cerradas de raiva.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

47

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Beth,  melhor voc ver se ela est bem  disse Ivy, voltando sua ateno para Eric, que estava a uns 450 metros de l, aproximando se da gua. Seu corpo magro demais pulava e virava sobre o trilho, parecendo um esqueleto danante.  Medo, medo, medo  provocava os outros  Quem tem medo, medo, medo? Gregory encostou se em uma arvore e riu. Will observava com cautela. Ento, todo o mundo se virou ao ouvir o assobio do outro lado do rio. Era o assobio do trem da meia noite que Ivy ouvia com tanta freqncia de sua casa do alto da montanha, um som que embalava seu corao como uma fita toda noite, como se quisesse lev la com ele.  Eric!  ela e Will gritaram ao mesmo tempo. Beth segurou Suzanne, que estava inclinada no meio dos arbustos, vomitando.  Eric! Will foi correndo atrs dele, mas Eric saiu correndo de forma desvairada, saltando por entre os trilhos. Will correndo atrs. Os dois vo morrer, pensou Ivy.  Will, volte! Will! Voc no pode! O trem vinha em direo  ponte, o brilho do seu olho no meio da noite, transformando os dois garotos em bonecos de papel. Ivy viu Eric cambalear na beira da ponte. Embaixo dele s havia gua e pedras. Ele vai pular a velha ponte, pensou, ele no vai sobreviver. Anjos, ajudem nos! Rezou. Anjo das guas, onde est voc? Tony? Estou te chamando! Eric inclinou se e saltou de uma vez para o outro lado. Ivy gritou. Ela e Beth no paravam de gritar. Will corria de volta, tropeava e corria. O trem no diminua a velocidade. Era enorme e escuro. To grande quanto  noite, aproximando se por de trs dele com seu nico olho cego. Seiscentos metros, 450 metros... Will no ia conseguir! Parecia uma mosca sendo sugada em direo  luz.  Will! Will!  gritou Ivy.  Ah, anjos... Ele saltou. O trem saiu correndo, embaixo dele o cho tremia, o cheiro de metal queimado espalhava  se pelo ar. Ivy saiu correndo ladeira abaixo, indo em direo ao lugar em que Will tinha saltado.  Will? Will, responda!  Estou aqui. Estou bem. Levantou se na frente dela. Erguido pelos anjos, pensou. Abraaram se por um momento. Ivy no sabia se era ele ou ela que tremia to violentamente.  Eric? Ele...  No sei  respondeu rapidamente.  Podemos descer at o rio por aqui?  Tente o outro lado. Subiram a margem juntos. Quando chegaram ao topo, pararam e olharam. Eric vinha na direo deles pela ponte nova, trazia uma corda grossa e uma corda de bungee perdurada casualmente no seu ombro. Levou um tempo para que entendessem o que tinha acontecido. Ivy virou se rapidamente para olhar para Gregory. Ser que ele sabia das intenes de Eric? Ele sorria.  Excelente!  disse a Eric.  Excelente!

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

48

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 11

Sabe o que eu no entendo?  disse Gregory, inclinando a cabea, examinando a saia de seda curta de Ivy com um olhar travesso no rosto.  No entendo por que voc nunca usa o vestido do casamento da sua me. Meg, que estava carregando um prato de sanduches para Andrew, parou e olhou pra eles. todos iriam sair naquela noite.  Ah,  um vestido muito formal para o Hotel Durney  disse Maggie.  Mas voc tem razo, Gregory, Ivy tem de achar algum lugar para usar aquele vestido novamente. Ivy deu um leve sorriso para sua me e depois fuzilou Gregory com o olhar, ele sorriu para ela. Depois que Maggie saiu da cozinha, disse de forma casual:  Voc est linda hoje!  apesar de no conseguir tirar os olhos dela. Ivy no tentava mais entender o que Gregory queria dizer com os seus comentrios... se estava realmente fazendo um elogio ou sutilmente tirando sarro dela. Deixava para l muito do que ele dizia. Talvez, estivesse finalmente se acostumando a ele.  Voc est se acostumando a criar desculpas para ele  Tristan disse, depois que ela contou o que tinha acontecido no sbado  noite. Ivy ficou furiosa com Eric e sua pegadinha estpida. Gregory no admitiu sua participao na brincadeira. Deu de ombros e disse:  Voc nunca sabe o que o Eric vai aprontar.  isso que faz dele um cara engraado.  claro que tinha ficado com raiva de Gregory tambm. Mas via as dificuldades pelas quais ele passava, pois convivia com ele diariamente. Desde a morte da me, havia momentos em que ele parecia completamente perdido em seus pensamentos. Pensou no dia em que a convidou para dar um passeio de carro e eles foram at o antigo bairro da me dele. Contou a ele que tinha estado l no dia daquela tempestade. Ele mal respondeu e, depois disso, no olhou novamente nos olhos dela o restante do tempo at voltarem para casa.  Eu teria de ser feita de pedra para no sentir pena dele  Ivy disse a Tristan e eles pararam de falar no assunto. Tanto Gregory quanto Tristan estavam determinados a se evitar. Como sempre, Gregory desapareceu assim que Tristan chegou naquela noite. Tristan sempre chegava mais cedo para brincar um pouco com Philip. Ivy percebeu com certa satisfao que, dessa vez, Tristan no conseguia se concentrar, apesar de o time da casa estar perdendo por dois pontos na partida final com Don Mattingly vindo para rebater. A segunda base era roubada e o apanhador no parava de olhar para Ivy. Philip ficou frustrado na terceira vez em que Tristan no conseguiu se lembrar de quantas vezes a bola tinha sado para fora, e saiu do quarto batendo os ps, para chamar Sammy. Ivy e Tristan aproveitaram a oportunidade para sair da casa. No caminho do carro, Ivy percebeu que Tristan parecia estranhamente quieto.  Como vai Ella?  Bem. Ivy esperou. Em geral ele contava alguma coisa engraada sobre Ella.  S bem?  Muito bem.  Voc comprou um sino novo para coleira dela?  Sim.  Tem alguma coisa errada, Tristan? Ele no respondeu logo em seguida. Deve ser Gregory, pensou. Ele ainda estava chateado com a histria do final de semana passado com Gregory.  Me diga  olhou para ela e tocou seu pescoo nu. Seu cabelo estava preso naquela noite. Seus ombros tambm estavam nus, exceto por duas tiras fininhas. O top que ela usava era feito de lingerie, com pequenos botes na frente. Tristan deslizou a mo pelo pescoo dela, depois por seus ombros nus.  s vezes  difcil acreditar que voc seja de verdade  disse. Ivy engoliu em seco. Ele a beijou ainda de forma mais gentil.  Talvez... fosse melhor entrarmos no carro  sugeriu, olhando para as janelas da casa.  Certo.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

49

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Ele abriu a porta. Havia flores no banco do carro, mais rosas.  Opa, esqueci. Voc quer lev las l para dentro? Pegou as e segurou bem perto do seu rosto.  As quero comigo.  Provavelmente vo morrer.  Podemos coloc las em um copo com gua no restaurante. Tristan sorriu.  Isso vai mostrar ao matre que temos classe.  So lindas.  Sim  disse suavemente. Olhando a de cima a baixo, como se estivesse memorizando a. Ento, beijou a na testa e segurou as rosas para que entrasse no carro. Enquanto Tristan dirigia, falaram dos seus planos sobre o futuro. Ivy estava feliz por Tristan ter pego a estrada antiga em vez de a autoestrada. As rvores tinham o aroma fresco e almiscarado de junho. A luz marcava os seus galhos como moedas de ouro deslizando pelos dedos dos anjos. Tristan dirigia pela estrada sinuosa com uma mo na direo e outra segurando a dela, como se ela fosse fugir.  Quero ir ao lago Juniper. Vou boiar na parte mais funda por uma hora, com os raios do sol iluminando meus dedos...  At que um peixe bem grande aparea  provocou Tristan.  Vou boiar  luz da lua tambm.   luz da lua! Voc nadaria no escuro?  Com voc eu nadaria. Poderamos nadar nus  entreolharam se e, por um momento, no conseguiam desviar o olhar.   melhor eu no olhar pra voc e dirigir ao mesmo tempo.  Ento pare de dirigir  respondeu ela em voz baixa. Ele olhou para ela rapidamente e ela colocou a mo na boca. As palavras tinham escapado de sua boca e agora sentia se tmida e envergonhada. Os casais se arrumavam para is aos restaurantes e no para parar na estrada para namorar.  Vamos nos atrasar para nossa reserva  disse ela.   melhor irmos  Tristan desviou o carro da estrada.  L est o rio. Quer andar at l?  Sim  disse, colocando as rosas no banco do carro. Tristan deu a voltar para abrir a porta para Ivy.  Voc vai conseguir andar com esse sapato?  perguntou Tristan olhando para o salto alto de Ivy. Ela saiu do carro e os dois saltos afundaram se na lama. Ivy riu e Tristan a ergueu.  Vou te dar uma carona  disse.  No, voc vai me derrubar na lama.  No, no at a gente chegar l  disse, erguendo a no alto, segurando suas duas pernas e deixando a parte superior do seu corpo cair sobre os seus ombros, como se estivesse segurando um saco de batata. Ivy riu e bateu nas costas dele. Seu cabelo estava se desprendendo todo.  Meu cabelo! Meu cabelo! Me ponha no cho! Ele a trouxe para frente e a escorregou lentamente na sua frente, a saia subiu e o cabelo ficou todo desarrumado.  Ivy. Ele a abraou to forte, que dava para sentir o quanto o seu corpo estava tremendo.  Ivy!  suspirou. Ela abriu a boca e pressionou os lbios contra o pescoo dele. Os dois procuraram a maaneta da porta do carro ao mesmo tempo, abrindo a porta traseira do carro.  Nunca imaginei que o banco de trs de um carro pudesse ser romntico  disse Ivy, reclinando se, sorrindo para Tristan. Em seguida, olhou para a baguna que estava no cho do carro.  Talvez fosse melhor voc tirar a sua gravata de dentro do copo do Burger King. Tristan pegou a gravata encharcada e jogou no banco da frente, depois sorriu e sentou se ao lado dela novamente.  Ai!  o odor de flores esmagadas espalhou se por todo o carro. Ivy deu uma gargalhada.  Qual  a graa?  perguntou Tristan, tirando as rosas esmagadas, grudadas em suas costas; no conseguindo evitar o riso.  E se algum passar por a e reparar no adesivo de sacerdote do seu pai colado no pra choque do carro? Tristan jogou as flores no banco da frente e trouxe Ivy para mais perto. Deslizou a mo pelo vestido de seda que ela usava e deu um beijo suave em seu ombro.  Eu falaria que estava com um anjo.  Ah! Que conversa fiada!  Ivy, eu te amo  disse Tristan, ficando srio subitamente. Ela olhou para ele e depois mordeu os lbios.  Isso no  um jogo. Eu amo voc, Ivy Lyons, e um dia voc vai acreditar em mim.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

50

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Ela deu lhe um abrao bem apertado.  Te amo, Tristan Carruthers  sussurrou em seu ouvido. Ivy acreditava, e confiava nele como jamais havia confiado em algum. Um dia, criaria coragem para dizer, como todas as letras, Eu te amo, Tristan. Colocaria a cabea para fora da janela e gritaria. E at colocaria uma faixa bem no meio da piscina da escola. Depois disso, levaram alguns minutos para se arrumar. Ivy comeou a rir de novo. Tristan sorriu ao v la tentar inutilmente arrumar os cabelos desalinhados. Em seguida, ligou o carro, passando por cima dos buracos e das pedras at chegar  estrada estreita.  ltima olhada no rio  disse assim que fizeram uma curva, desviando se do lugar em que estavam. O sol de junho dominava toda a regio oeste do interior de Connecticut, enviando os seus raios de luz s copas das rvores, toldando as como se fossem ouro. A estrada sinuosa parecia um tnel de bordos, lamos e carvalhos. Ivy sentia estar nadando no meio s ondas com Tristan, o sol brilhando no alto, os dois juntos em movimento unssono, em direo a um abismo de azul, roxo e verde escuro. Tristan ligou os faris do carro.  Voc no precisa correr  disse Ivy.  No estou mais com fome.  Eu matei a sua fome? Ela balanou a cabea negativamente.  Acho que me alimentei de felicidade  respondeu suavemente. A velocidade do carro continuava aumentando pelas curvas da estrada.  J falei que a gente no precisa correr.  Engraado. No sei o que... No parece que...  murmurou Tristan, olhando para os seus ps.  V mais devagar, est bem? No tem problema se a gente se atrasar um pouquinho.  Ah!  Ivy apontou para frente da estrada.  Tristan! Havia algo saindo do meio dos arbustos e parando no meio da estrada. No dava para ver o que era. S dava para perceber a movimentao entre as sombras. E, ento, o cervo parou.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

51

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 12

Era impressionante: os olhos do cervo pareciam um tnel escuro, mas o brilho de suas pupilas era intenso. Tristan no parava de pisar no freio, mas nada acontecia, nada fazia o carro diminuir a velocidade pela escurido pela que se afunilava at chegar o claro de luz. Sentiu um pese tremendo por um instante, como se as rvores e o cu tivesse cado por cima dele. Em seguida, depois da exploso de luz, o peso se dissipou. De alguma forma parecia que tinha se libertado Ela precisa de voc.  Ivy!  gritou. A escurido tomou forma novamente.  sua frente, a estrada girava como um redemoinho de cores: preto, vermelho e a luz pulsante da ambulncia. Ela precisa de voc. No conseguia ouvir, mas entendia. Ser que os outros tambm entendiam?  Ivy! Onde est Ivy? Tenho de ajud la! Ela estava deitada, imvel. Banhada pelo sangue. Mas ele no conseguia tocar nos paramdicos. Nem mesmo conseguia arregaar as mangas.  No h batimento  disse uma mulher.  no h chances.  Ajude a!. O redemoinho estava cada vez maior e mais difuso, com listras claras e escuras passando apressadamente por ele. Ser que ela estava com ele? A sirene da ambulncia disparou com seu choro agudo: uiiii, uiiii. Em seguida, viu se em um quarto simtrico. Era dia ou o lugar era bem claro. As pessoas corriam para l e para c. Havia algo em seu rosto, bloqueando a luz. No tinha certeza de quanto tempo ficara inconsciente. Algum inclinou se sobre ele.  Tristan  dizia a voz quebrantada  Papai?  Ah, meu Deus, por que voc deixou isso acontecer?  Papai, onde est Ivy? Ela est bem?  Meu Deus, meu Deus. Meu filho!  chorava seu pai.  Eles esto cuidando dela? Seu pai no respondia.  Responda, papai! Por que voc no responde? Seu pai levou as mos ao rosto, inclinando se em cima dele, lgrimas rolando em seu rosto... Meu rosto, pensou Tristan, tentando empurr lo. Esse a  o meu rosto. Porm ele observava a cena como se estivesse fora de seu corpo.  Sinto muito. Sr. Carruthers  disse uma mulher com uniforme de paramdica. Seu pai no olhava para ela.  Morreu na hora?  perguntou. Ela concordou com a cabea  Sinto muito, Nem tivemos chance3 de salv lo. Tristan sentiu a escurido aproximando se novamente. Lutou para se manter consciente.  E a Ivy?  perguntou seu pai.  Alguns cortes e ferimentos, alm do estado de choque. No para de chamar pelo seu filho. Tristan tinha que encontr la. Concentrou se na porta com toda sua fora e conseguiu passar por ela. E por outra, e mais outra... sentia se mais forte agora. Tristan andava depressa pelo corredor. As pessoas no pararam de esbarrar nele. Desviava para esquerda e para direita. Seu ritmo parecia bem mais rpido do que os dos demais, e ningum se incomodava em sair do caminho. Havia uma enfermeira no corredor. Parou para falar com ela para perguntar se poderia encontrar Ivy, mas ela passou direto por ele. Entrou em um outro corredor, deu de frente com um carrinho repleto de lenis e ficou

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

52

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

olhando o homem que o empurrava. Tristan rodopiou e, no mesmo instante, o homem estava do outro lado dele. Tristan percebeu que o homem passou por ele como se ele no estivesse l. Tinha ouvido o que o paramdico dissera, mas sua mente procurava por outra  qualquer que fosse  explicao. Mas no havia nenhuma. Estava morto. Ningum conseguia v lo. Ningum sabia que estava l. E Ivy tambm no saberia. A dor que sentia era to profunda! Jamais havia sentido nada parecido. Tinha dito a ela que a amava, mas no tinha tempo de convenc la. Agora no havia mais tempo algum. Ela jamais acreditou em seu amor como acreditava em seus anjos.  J disse que no consigo falar mais lato que isso. Tristan olhou pra cima. Estava parado na frente de uma porta. Havia uma mulher dentro do quarto, deitada na cama. Era pequena e seu corpo tinha uma cor acinzentada, tubos compridos saiam de seus braos e eram ligados a aparelhos. Parecia uma aranha presa em sua prpria teia.  Entre  disse. Olhou atrs dele mesmo para ver com quem ela estava falando. Ningum.  Essa minha velha viso est to turva, mal consigo ver minha prpria mo bem na minha frente  disse a mulher,  Mas a sua luz eu vejo. Tristan olhou novamente atrs dele. Ela parecia ter certeza do que falava. Parecia bem mais forte e mais clara do que seu pequeno corpo cinza.  Sabia que voc viria  disse.  Esperei pacientemente. Ela estava esperando por algum, pensou Tristan, talvez um filho ou um neto, e pensou que ele fosse essa pessoa. Mesmo assim, como ela conseguia v lo quando ningum mais conseguia. O rosto dela parecia iluminar se.  Sempre acreditei em voc  estendeu a sua frgil mo para Tristan. Esquecendo que sua mo iria atravessar seu corpo, instintivamente tambm estendendo a sua mo para ela. Ela fechou os olhos. Um pouco depois, o alarme comeou a soar. Trs enfermeiras entraram rapidamente no quarto. Tristan recuou quando elas se aproximaram da mulher. Percebeu que estavam tentando reanim  la; sabia que no conseguiriam. De alguma forma, sabia que aquela senhora no queria mais voltar. Talvez, de alguma forma, a senhora tivesse percebido o que tinha acontecido com ele. Como ela soube? Tristan sentia a escurido aproximando se novamente. Lutou contra ela. E se dessa vez ela no conseguisse voltar? Tinha de voltar, tinha de ver Ivy mais uma vez. Tentou desesperadamente manter  se alerta, concentrando se em um objeto atrs do outro dentro do quarto. Foi a que viu, ao lado de um livrinho da banja da senhora: uma estatueta, com uma mo estendida para uma mulher e as asas angelicais abertas. *** Nos dias que se seguiram quele, Ivy no conseguiam se lembrar de nada, alm da cascata de vidro estilhaado. O acidente parecia um sonho que se repetia e do qual no conseguia se lembrar. Dormindo ou acordada, dominava a completamente. Seu corpo inteiro ficava tenso e sua mente comeava a girar em retrospectiva, as tudo de que conseguia se lembrar era o som do para brisa explodindo, depois uma cascata de vidro estilhaado em marcha lenta. Todos os dias, as pessoas entravam e saiam de sua casa, Suzanne e Beth, alm de outros amigos e professores da escola. Gary veio uma vez; foi uma visita deprimente para os dois. Will dava as caras de vez em quando. Traziam lhe flores, biscoitos e solidariedade. Ivy no via a hora que fossem embora, no via a hora de dormir novamente. Mas, quando se deitava  noite, tinha de esperar uma eternidade at que o dia nascesse novamente. No funeral, todos ficaram ao seu lado, sua me e Andrew de um lado e Philip de outro. Deixou Philip chorar tudo o que podia no lugar dela. Gregory ficou atrs dela e, de vez em quando, pousava as mos em suas costas. Nesses momentos deixava se apoiar um pouco contra o corpo dele. Era o nico que no ficava pedindo a ela para falar a respeito e que parecia entender sua dor, ele no ficava lhe dizendo que se lembrar era uma coisa boa. Aos poucos, foi se lembrando do que aconteceu  ou lhe contaram os detalhes. Os mdicos e a polcia deram a maior parte deles. A parte interna de seus braos estava cheia de cortes. Disseram que ela deveria ter protegido o rosto com as mos para evitar que o vidro em pedaos a atingisse. Milagrosamente, o restante de seus machucados eram s manchas roxas causadas pelo impacto do cinto de segurana. Tristan deve ter derrapado, pois o carro rodou e colidiu com o cervo do lado em que Tristan estava. O sol estava se pondo. O cervo apareceu de forma repentina. Era tudo que conseguia se lembrar. Algum disse a ela que o carro ficara totalmente destrudo, mas ela no quis ver as fotos no jornal.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

53

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Uma semana depois do funeral, a me de Tristan veio visit la e trouxe uma foto dele. Disse que era sua favorita. Ivy pegou a em suas mos. Ele estava sorrindo, usava um velho bon de beisebol, com a aba para trs, obviamente, e uma camisa surrada da escola, o mesmo visual que Ivy tinha visto tantas vezes. Parecia que ele ia perguntar se ela queria encontr lo para mais uma aula de natao. Pela primeira vez desde o acidente, Ivy comeou a chorar. No ouvia quando Gregory entrou na cozinha em que ela e a me de Tristan estavam sentadas. Quando viu a Dra. Carruthers, exigiu saber porque ela estava l. Ivy mostrou a ele a foto de Tristan e ele olhou para ela com raiva.  Acabou! Ivy est superando isso tudo. Ela no precisa de mais nada que a faa lembrar. Quando se ama algum, no acaba nunca!  respondeu Dra. Carruthers gentilmente.  Voc supera porque tem que superar, mas leva o em seu corao para sempre. Virou se para Ivy e disse:  Voc precisa falar sobre isso e se lembrar, Ivy. Voc precisa chorar. Chorar muito. Precisa ficar com raiva tambm! Eu estou! Sabe de uma coisa?  disse Gregory.  Estou cansado de ouvir esse papo furado. Todo mundo fica falando para Ivy se lembrar e falar sobre o que aconteceu. Todo mundo tem uma teoria prpria sobre o luto, mas pergunto me se eles realmente pensam em como ela se sente. A Dra. Carruthers o avaliou por um instante. Pergunto me se voc realmente viveu seu prprio luto.  No me diga que voc  psiquiatra? Ela balanou a cabea negativamente.  S algum que, como voc, perdeu algum que amava com todo seu corao. Antes de sair, a me de Tristan perguntou se ela queria Ella de volta.  No posso. Eles no me deixariam! Ento, correu para seu quarto, bateu aporta e ficou trancada l dentro. Seus amados estavam sendo tirados dela  um a um. Pegou uma estatueta de um anjo, uma que Beth tinha acabou de dar a ela e jogou contra a parede.  Por qu?  gritou.  Por que eu no morri tambm? Pegou o anjo e jogou novamente.  Voc est bem melhor Tristan. Odeio voc por estar melhor do que eu. No sente mais a minha falta agora, no  mesmo? Ah, no, voc no sente nada! Na terceira vez que jogou o anjo, a estatueta se espatifou. Mais uma cascata de vidro estilhaado. Ela nem se incomodou em recolher. Naquela noite, depois do jantar, Ivy viu que o vidro tinha sido recolhido e a fotografia de Tristan estava em sua escrivaninha. No perguntou quem tinha feito aquilo. No queria falar com ningum. Quando Gregory tentou vir ao seu quarto, ela bateu a aporta na cara dele. Fez a mesma coisa na manh seguinte. Durante aquele dia, tambm no foi muito simptica com os clientes da TIS the Season. Foi direto para o quarto quando cegou em casa. Abriu a porta e deu de cara com Philip e suas figurinhas de beisebol espalhadas pelo cho. Tinha percebido que ele no narrava mais o jogo, apenas movia os jogadores em suas bases silenciosamente. Mas, quando olhou para Ivy, sorriu para ela pela primeira vez em dias. Apontou para sua cama.  Ella!  Ivy exclamou  Ella! Correu para a cama, ajoelhando se sobre ela. A gata comeou a ronronar imediatamente. Ivy enterrou o rosto em Ella e virou para Philip.  A mame sabe que ela est aqui? Ele fez que sim com a cabea.  Sabe. Est tudo bem. Gregory disse que est tudo bem. Ele a trouxe de volta para ns.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

54

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 13
Quando Tristan acordou, tentou se lembrar qual dia da semana deveria ser e quais as aulas que teria de dar no acampamento de natao. A julgar pela luz fraca em seu quarto, ainda era bem cedo para levantar e trocar de roupa para ir trabalhar. Deitado na cama, sonhou com Ivy  Ivy e seus cabelos encaracolados caindo nos ombros. Aos poucos, foi percebendo passos do lado de fora da porta juntamente com o som de algo sendo puxado por um carrinho, ou algo do tipo. Pulou da cama. O que ele estava fazendo l? Deitado no cho do hospital, no quarto de um homem que nunca tinha visto antes? O homem bocejou e deu uma olhada no quarto. No parecia nem um pouco surpreso com a presena de Tristan, agia como se ele nem estivesse ali. Nesse momento, Tristan lembrou se de tudo: do acidente, da ambulncia, das palavras da paramdica. Estava morto. Mas ainda podia pensar. Podia ver as outras pessoas. Ser que era um fantasma? Tristan se lembrou da velha senhora. Ela havia dito ter visto a luz e por isso o tinha confundido com um an......  No, no  disse em voz alta, apesar de o homem no poder ouvi lo.  No pode ser. Bem, o que quer que ele tivesse se tornado, tinha sido algo que ainda podia rir, portanto, no parou de rir, de forma quase histrica. E depois chorou. A porta atrs dele bateu de repente. Tristan ficou em silncio, mas isso no tinha importncia alguma, pois a enfermeira que havia entrado ali no podia ouvi lo, apesar de ter ficado to prxima que seu cotovelo quase atravessou o dele enquanto anotava algo na ficha do homem. Nove de julho, 3h45, Tristan leu. Nove de julho? Mas ele tinha sado com Ivy em junho! Ser que estava inconsciente h duas semanas? Ser que voltaria a ficar? E por que estava consciente agora? Pensou na velha senhora que havia estendido a mo para ele. Por que ela havia prestado ateno nele enquanto os outros no viam nada? Ser que Ivy conseguiria v lo? Tristan encheu se de esperana. Se conseguisse encontrar Ivy antes que a escurido tomasse conta dele novamente, teria mais uma chance de convenc la sobre seu amor. Ele sempre a amaria. A enfermeira saiu, fechando a porta atrs dela. Tristan tentou abri la, mas seus dedos no se firmavam na maaneta. Tentou mais uma vez, e mais outra. Suas mos tinham a mesma fora que uma sombra. Agora, teria de esperar a enfermeira voltar. No sabia por quanto tempo conseguiria se manter consciente ou, assim como os fantasmas das histrias antigas, se iria derreter com a luz do sol. Tentou se lembrar de como chegara at l e a imagem de sua andana pelos corredores do auto atendimento veio  sua mente. Lembrou se claramente do faxineiro atravessando seu corpo. Esse era o truque. Tinha de projetar um caminho em sua cabea e concentrar se aonde queria ir. Assim, logo estava na rua. Tinha se esquecido de que estava no Hospital do Condado e tinha de dar a maior volta para chegar a Stobehill novamente. Mas j tinha feito esse caminho, milhares de vezes, para ir buscar seus pais. Ao pensar neles, Tristan diminuiu o ritmo. Lembrou se de seu pai no auto atendimento, inclinando se sobre ele para chorar. Tristan sentiu vontade de dizer a ele que estava tudo bem, mas no sabia quanto tempo teria. Seus pais tinham um ao outro; Ivy estava sozinha. O cu da noite comeava a ceder lugar ao amanhecer quando chegou  casa dela. Dois retngulos de luz brilhavam suavemente na ala oeste da casa. Andrew deveria estar trabalhando no escritrio. Tristan deu a volta por trs da casa e viu que as portas balco do escritrio estavam abertas para receber a brisa noturna. Andrew estava em sua mesa, absorto em seus pensamentos. Tristan entrou sem ser visto. Viu que a maleta de Andrew estava aberta e os papis com o timbre da faculdade estavam espalhados pela mesa. Mas o documento que estava lendo era um relatrio policial. Tristan percebeu, com surpresa, que era o relatrio oficial de seu acidente com Ivy. Ao lado dele, havia um artigo de jornal sobre o mesmo assunto. As palavras impressas deveriam ter tornado sua morte ainda mais real para ele, mas no foi o que aconteceu.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

55

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Em vez disso, transformou as coisas que um dia foram importantes  sua aparncia, seu histrico como nadador, suas realizaes na escola  em pequenas e sem sentido. Somente Ivy era importante para ele agora. Ela tinha de saber o quanto a amava e o quanto sempre a amaria. Deixou Andrew e suas meditaes sobre o relatrio, apesar de no entender por que parecia to interessado, e subiu a escada dos fundos. Passou pelo quarto de Gregory, que ficava bem em cima do escritrio e atravessou a galeria em direo ao corredor que levava ao quarto de Ivy. Mal podia esperar para v la, mal podia esperar que ela o visse. Tremeu, assim como havia tremido antes da primeira aula de natao que havia dado a ela. Ser que conseguiriam conversar um com o outro? Se existisse algum que pudesse v lo e ouvi lo, esse algum seria Ivy  sua f era muito forte! Tristan concentrou se no quarto dela e atravessou a parede. Ella sentou se imediatamente. Estava dormindo na cama de Ivy, com seu espesso pelo preto misturando  se aos cabelos dourados de Ivy. A gata piscou e olhou para ele, ou para o nada  afinal de contas, gatos faziam isso, pensou. Mas, quando ele foi para o outro lado da cama de Ivy, os olhos verdes de Ella o seguiram.  Ella, o que voc est vendo, Ella?  perguntou delicadamente. A gata comeou a ronronar e ele riu. Estava ao lado de Ivy. O cabelo dela caa pelo rosto. Tentou coloc  lo para trs. Mais do que qualquer coisa queria ver o rosto dela, mas suas mos eram inteis.  Queria que voc pudesse me ajudar, Ella. A gata andou por cima dos travesseiros em direo a ele. Ele no se moveu, tentando entender exatamente o que ela tinha percebido. Ella inclinou se como se fosse acariciar se no brao dele. Deitou de lado e miou. Ivy se mexeu e chamou a gata suavemente. Deitou de costas e ele pensou que ela fosse responder aos seus chamados. Seu olhar parecia perdido, bonito, porm, plido. Toda a sua luz estava nos clios dourados e nos longos cabelos espalhados pelo rosto como raio de sol. Ivy enrugou a testa. Ele queria poder suavizar suas rugas, mas no tinha como. Ela comeou a se agitar e a se revirar na cama.  Quem est a? Quem est a?  perguntou. Ele se inclinou sobre ela.  Sou eu. Tristan.  Quem est a?  perguntou novamente.  Tristan! Enrugou ainda mais a testa.  No consigo ver! Colocou a mo em seus ombros, desejando que ela acordasse, certo de que ela iria poder v  lo e ouvi lo.  Ivy, olhe para mim! Estou aqui! Ela abriu os olhos por um momento e ele percebeu a mudana em sua expresso. Viu o terror tomar conta dela. Ela comeou a gritar.  Ivy! Ela no parava de gritar.  Ivy, no tenha medo. Tentou segur la. Aconchegou a em seus braos, mas seu corpo no conseguia segurar o corpo dela. No conseguia consol la. A porta do quarto se abriu. Philip entrou correndo. Gregory veio logo atrs dele.  Acorde, Ivy, acorde!  Philip a chacoalhava.  Vamos, Ivy, por favor! Ela abriu os olhos e viu Philip. Depois, olhou ao redor do quarto. No parou para olhar para Tristan; passou direto por ele. Gregory colocou as mos nos ombros de Philip e o ps de lado. Sentou se na cama e trouxe Ivy para perto dele. Tristan percebeu que ela tremia.  Vai ficar tudo bem  Gregory disse com voz suave, colocando os cabelos dela para trs.  Foi s um sonho. Um sonho horrvel, pensou Tristan. E ele no pde ajud la. No pde oferecer lhe consolo. Mas Gregory pde. Tristan estava tomado pelo cime. No podia suportar ver Gregory abraando a daquela forma. Mas tambm no podia suportar ver Ivy to assustada e chateada. Um paradoxo de sentimentos em relao a Gregory invadia sua alma: gratido e cimes ao mesmo tempo. Sentiu se fraco por essa guerra de sentimentos e afastou se dos trs, dirigindo se  prateleira de anjos de Ivy. Ella o seguiu com cautela.  Voc sonhou com o acidente de novo?  perguntou Philip. Ivy fez que sim com a cabea, depois ficou de cabea baixa, deslizando as mos sem parar pelos lenis
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

56

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

revirados.  Quer conversar sobre isso?  perguntou Gregory. Ivy tentou falar, depois fez que no com a cabea e estendeu uma das mos para ele, com a palma para cima. Tristan viu as cicatrizes entalhadas em seu brao, como se fossem rastros de feixes de luz. Por um instante, a escurido parecia querer peg lo por trs, mas lutou contra ela.  Estou aqui. Est tudo bem  disse Gregory, esperando pacientemente.  Eu... eu estava olhando pela janela  comeou a falar.  Vi uma grande sombra nela, mas no tinha certeza de quem ou do que era. Quem est a? Gritei. Quem est a? Tristan a observava do outro lado do quarto, a dor e o medo que ela sentia exerciam uma presso sobre ele.  Achei que fosse algum que conhecesse. De alguma forma, a sombra parecia familiar. Ento, fui chegando cada vez mais perto. No conseguia ver  parou de falar e olhou ao redor do quarto.  Voc no conseguia ver  estimulou Gregory.  Havia outras imagens no vidro da janela, reflexos que a distorciam. Aproximei  me ainda mais. Meu rosto estava quase grudado na janela. De repente, ela explodiu! A sombra se transformou em um cervo. Ele bateu na janela e foi arremessado para longe. Ela ficou em silncio. Gregory pegou o queixo dela com a mo, trazendo o bem para perto dele. Do outro lado do quarto, Tristan chamava por ela.  Ivy! Ivy, olhe para mim  implorava. Mas ela estava olhando para Gregory e seus lbios tremiam.  Esse  o final do sonho?  perguntou Gregory. Ela concordou com a cabea. Com o dorso da mo, Gregory acariciava o rosto dela suavemente. Tristan queria que ela fosse consolada, mas...  Voc no se lembra de mais nada?  perguntou Gregory. Ivy balanou a cabea negativamente.  Abra seus olhos, Ivy! Olhe para mim!  gritava Tristan. Ento, percebeu que Philip tambm estava l, olhando para a coleo de anjos de Ivy  ou talvez para ele, no tinha certeza. Tristan colocou a mo ao redor da estatueta do anjo das guas. Se encontrasse uma maneira de d lo a Ivy. Se pudesse mandar algum sinal a ela...  Venha aqui, Philip  disse Tristan.  Venha pegar a estatueta. Leve a para Ivy. Philip foi em direo  prateleira como se estivesse hipnotizado. Esticou a mo, colocando  a por cima da de Tristan.  Veja!  gritou Philip.  Veja!  O qu?  perguntou Ivy.  Seu anjo. Est brilhando.  Agora no, Philip  disse Gregory. Philip tirou o anjo da prateleira e levou o at Ivy.  Quer coloc lo ao lado da sua cama, Ivy?  No.  Talvez ele afaste os pesadelos  insistiu Philip.   s uma estatueta  disse, mostrando se exausta.  Mas voc pode rezar e o anjo de verdade vai ouvir.  No existem anjos de verdade, Philip! Voc no entende? Se existissem, eles teriam salvo Tristan! Philip pegou nas asas do anjo e disse em voz baixa, porm teimosa:  Anjos de luz, anjos queridos, cuidem de ns. Cuidem de quem mais fica comigo.  Diga a ela que estou aqui, Philip  disse Tristan.  Diga que estou aqui.  Veja, Ivy  Philip apontou para as estatuetas, na direo em que estava Tristan.  Elas esto brilhando!  J chega, Philip! V para cama!  disse Gregory com severidade.  Mas...  Agora! Quando Philip passou, Tristan estendeu sua mo, mas o garotinho no a pegou. Olhou o com surpresa, sem reconhecer o que via. O que Philip viu? Tristan perguntou se. Talvez o mesmo que a velha senhora: luz, algum tipo de brilho, mas no uma forma. Ento, sentiu a aproximao da escurido novamente. Lutou contra ela. Queria ficar com Ivy. No podia suportar perd la agora. No podia suportar deix la ali com Gregory. E se aquela fosse a ltima vez que a via? E se a estivesse perdendo para sempre? Lutou desesperadamente
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

57

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

para manter se longe da escurido, mas ela o vencia pelas laterais, como uma nvoa negra,  sua frente, por detrs, fechando se em sua cabea, sucumbindo o inteiramente.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

58

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 14

Quando Tristan acordou do vazio da escurido, o sol brilhava pelas janelas do quarto de Ivy. A cama estava arrumada e havia uma colcha esticada em cima dela. Ivy no estava l. Era a primeira vez que Tristan via a luz do dia desde o acidente. Foi at a janela para admirar os detalhes do vero, as complexas ranhuras das folhas, a forma como o vento deslizava seus dedos pela grama, enviando uma onda esverdeada ao topo da montanha. O vento. Apesar de perceber a movimentao das cortinas, Tristan no conseguia sentir o frescor do toque do vento. Apesar de ver a invaso dos raios de sol dentro do quarto, no conseguia sentir seu calor. Ella conseguia. A gata estava sentada em uma camiseta de Ivy em um canto iluminado do quarto. Cumprimentou Tristan abrindo os olhos e ronronando um pouco.  Aqui no tem muita roupa suja para voc se deitar, no ?  perguntou, pensando em quando a gata curtia suas meias e agasalhos sujos. O silencio da casa fez com que falasse baixo, apesar de saber que podia muito bem gritar o bastante para... bem, o bastante para acordar os mortos, e s ele mesmo ouviria. A solido era intensa. Tristan temia ficar para sempre sozinho daquela forma, vagando por a sem nunca ser visto, ouvido ou sendo chamado de Tristan. Por que ele no viu a senhora do hospital depois que ela morreu? Para onde ela teria ido? Os mortos vo para o cemitrio, pensou ao cruzar o corredor da escadaria. Depois, parou. Em algum lugar havia um tumulo com seu nome! Provavelmente ao lado de seus avs. Desceu a escada correndo, curioso para ver o que tinha sido feito dele. Talvez encontrasse aquela senhora ou algum que tivesse morrido recentemente que pudesse dar uma explicao para tudo isso. Tristan tinha ido ao cemitrio Riverstone Rise varias vezes quando era criana. Nunca lhe pareceu um lugar triste, talvez porque o jazigo de seus avs sempre inspirava seu pai a contar  lhe historias interessantes e engraadas sobre eles. Sua me ficava podando as plantas e plantando novas mudas. Tristan corria e subia nas lpides e brincava de salto  distancia nos tmulos, fazendo do cemitrio um playground com corrida de obstculos. Era estranho passar pelos altos portes de metal agora  portes em que j havia brincado de escalar como um macaco, como sua me sempre dizia  em busca de sua prpria lpide. No sabia se estava se movimentando de acordo com sua memria ou instinto, mas rapidamente encontrou o caminho e a curva marcada por trs pinheiros. Sabia que estava a 150 metros de distancia e se preparou para o choque de ler seu prprio nome na lpide ao lado de seus avs. Mas nem olhou para ela. Ficou to surpreso com a presena de uma garota que tinha se espreguiado e estava deitada confortavelmente em cima da grama fresca.  Com licena  disse, sabendo muito bem que as pessoas no podiam ouvi lo.  Voc est deitada em cima do meu tmulo. Ela olhou para cima, o que o fez pensar se no estaria brilhando novamente. A garota parecia ter a mesma idade que a sua e tinha um semblante vagamente familiar.  Voc deve ser o Tristan  disse.  Sabia que, mais cedo ou mais tarde, ia acabar aparecendo. Tristan olhava fixamente para ela.   voc, no ?  disse, sentando se, apontando para seu nome na lpide.  Morto recentemente, certo?  Vivo recentemente  disse. Havia algo em seu jeito que lhe dava vontade de discutir com ela. Ela deu de ombros.  Cada um tem um ponto de vista. No conseguia acreditar que ela conseguia ouvi lo.  E voc  disse, examinando sua aparncia um tanto incomum.  O que voc ?  No to recentemente.  Entendo.  por isso que seu cabelo  dessa cor? Ela levou a mo  cabea.  Como?
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

59

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Seu cabelo era curto e espetado e tinha um estranho tom de magenta com mechas roxas, como se tivesse ocorrido algum erro com a tintura.  Quando morri, estava dessa cor.  Ah, desculpe.  Sente se  disse, dando tapinhas no montinho de terra recm formado.  Afinal de contas, esse  o seu descanso eterno. S estava dando um tempo aqui.  Ento, voc  um... fantasma  disse.  Como? Queria que ela parasse de usar aquele tom arrogante.  Voc disse fantasma? Voc  mesmo recente. No somos fantasmas, querido  deu vrios tapinhas no ombro dele com suas unhas compridas, pintado de roxo azulado. Mais uma vez, perguntou se se ela agia dessa forma por no estar morta recentemente, mas ficou com medo de que ela fosse perfur lo caso perguntasse. Mas, ento, percebeu que a mo dela no atravessava o corpo dele. Na verdade, eram feitos do mesmo material.  Somos anjos, querido.  isso mesmo. Pequenos ajudantes do cu. Seu tom e sua tendncia a exagerar as coisas estavam comeando a dar nos nervos dele. Apontou para o cu.  Algum tem um senso de humor macabro. Sempre escolhe os menos provveis.  No acredito  disse Tristan.  No acredito.  Quer dizer que essa  a primeira vez que visita sua cova? Perdeu seu prprio funeral, hein? Isso  disse ela  foi um grande erro. Curti cada minuto do meu.  Onde voc foi enterrada?  perguntou Tristan, olhando ao redor. A lpide ao lado da de sua famlia tinha o desenho de um carneiro entalhado, o que no parecia adequado a ela, e, do outro lado, a foto de uma senhora serena com as mos cruzadas em cima do peito e o olhar voltado para o cu  uma outra m escolha.  No fui enterrada.  por isso que estou sublocando a sua.  No entendi  disse Tristan.  Voc no me reconhece?  Ah, no  disse, com medo de que ela fosse dizer que eram parentes distantes, ou que talvez ele tivesse dado em cima dela no 7 ano.  Olhe para mim de perfil. Tristan olhou para ela sem dar sinal de reconhecimento.  Cara, voc no vivia muito, vivia? Quando era vivo?  O que voc est querendo dizer?  Que voc no saia muito.  Saa o tempo todo  retrucou Tristan.  Mas no ia ao cinema.  Ia o tempo todo.  Mas voc nunca viu nenhum dos filmes da Lacey Lovitt.  Claro que vi. Todo mundo via, antes dela... Voc  a Lacey Lovitt? Ela revirou os olhos.  Espero que voc seja mais rpido para entender qual  a sua misso.  Acho que  porque a cor do seu cabelo est diferente.  Voc j falou sobre o meu cabelo  disse, levantando se do tumulo. Era estranho v la encostada nas arvores. Os salgueiros balanavam suas folhas em forma de corda por causa da brisa, mas o cabelo dela no saa do lugar, to imvel quanto uma fotografia.  Estou me lembrando. Seu avio caiu no mar. Nunca encontraram seu corpo  disse Tristan.  Imagine como eu fiquei feliz quando me vi tendo de sair sozinha do Porto de Nova York.  Isso aconteceu h dois anos, no foi? Ela abaixou a cabea ao ouvi lo.  Sim, bem...  Lembro me de ter lido sobre seu funeral. Havia muita gente famosa.  E muita gente quase famosa. As pessoas esto sempre correndo atrs de publicidade  havia uma certa amargura em seu tom.  Queria que voc tivesse visto minha me chorando e se lamentando.  Lacey fez pose imitando a escultura de mrmore de uma mulher chorando no jazigo ao lado.  Voc ia pensar que ela tinha perdido algum que amava.  E perdeu. Voc era a filha dela.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

60

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Voc  ingnuo, no ?  era mais uma frase do que uma pergunta.  Voc ia aprender mais coisas sobre as pessoas se tivesse seu prprio funeral. Talvez ainda d tempo de aprender. H um enterro na ala leste hoje de manh. Vamos?  Ir a um enterro? Isso no  meio mrbido? Ela riu.  Nada mais  mrbido, Tristan, quando se est morto. Alm do mais, acho que enterros so extremamente divertidos. E, quando no so, fao com que sejam, e voc est com cara de quem est precisando se animar. Vamos?  Acho que dessa vez vou passar. Ela se virou e o examinou por um minuto, perplexa.  Tudo bem. Que tal isso: vi um grupo de garotas um pouco mais cedo indo em direo ao lado nobre do cemitrio. Talvez voc goste mais. Um bom pblico, sabe, no  fcil de encontrar, especialmente quando se est morto e a maioria no consegue ver voc. Ela comeou a andar em crculos.  Sim, isso seria bem melhor  parecia estar falando consigo mesma.  Vai me fazer ganhar alguns pontos  olhou para Tristan.  Sabe, ficar zoando em funerais no  uma atitude muito aprovada. Mas isso funcionar como a execuo de um servio. Da prxima vez, aquelas garotas vo pensar duas vezes antes de desrespeitar os mortos. Tristan tinha esperanas de que encontrar uma pessoa como ele esclarecesse um pouco mais as coisas, mas...  Ah, anime se, Choro!  e comeou a caminhar. Tristan a seguiu lentamente, tentando se lembrar se alguma vez tinha lido algo que dizia sobre Lacey Lovitt ser maluca. Ela o levou para a parte mais velha do cemitrio, em que havia jazigos bem antigos, pertencentes aos moradores mais abastados de Stonehill. De um lado da rua, mausolus com fachadas similares a templos em miniatura eram incrustados na montanha. Do outro lado, havia vrios gramados com monumentos altos e polidos, alm de uma variedade de estatuas de mrmore. Tristan j havia estado l antes. A pedido de Maggie, Caroline tinha sido enterrada no jazigo da famlia Baines.  Elegante, no ?  Estou surpreso que voc tenha sublocado o meu.  Ah, eu ganhei milhes quando era viva. Milhes. Mas, em meu corao, sou uma garota simples, do bairro operrio, na regio leste de Nova York. Comecei com novelas, lembra se? E depois... mas acho que no preciso falar sobre isso. Tenho certeza de que, agora que voc me reconhece, j sabe tudo sobre mim. Tristan no se incomodou em corrigi la.  Ento, o que voc acha que aquelas garotas tinha em mente?  perguntou, parando para olhar ao redor. No havia ningum por perto. Somente jazigos, flores e o caminho esverdeado do gramado.  Estava pensando o mesmo sobre voc  respondeu ele.  Ah, vou agir de improviso. Duvido que voc v me ajudar. Voc ainda no tem nenhuma habilidade de verdade. Provavelmente, tudo o que consegue fazer  ficar parado e brilhar, parecendo um enfeite idiota de Natal  o que significa que apenas uma ou duas pessoas que acreditam podem ver voc.  Apenas uma pessoa que acredita?  Quer dizer que voc ainda no percebeu isso?  balanou a cabea, sem acreditar no que ouvia. Mas ele j tinha percebido, s no queria admitir, s no queria que fosse verdade. A senhora do hospital acreditava. Assim como Philip. Os dois o tinham visto brilhar. Mas Ivy no viu. Ivy no acreditava mais.  Voc pode fazer mais do que brilhar?  perguntou Tristan cheio de esperana. Ela olhou para ele como se fosse totalmente imbecil.  E o que voc acha que fiquei fazendo nos ltimos dois anos?  No fao idia.  No me diga, por fa vor, no me diga que vou ter de explicar o que so as misses para voc. Ele ignorou o tom melodramtico.  Voc j mencionou antes. Que misses?  A sua misso. A minha misso  respondeu rapidamente.  Cada um de ns tem uma misso. E temos de complet la. Se quisermos ir para onde todos os outros foram  comeou a caminhar novamente, um pouco mais rpido, e ele teve de se apressar para acompanh la.  Mas qual  a minha misso?  E eu l sei?  Bem, algum tem de me contar. Como posso complet la se no fao idia do que seja?  perguntou frustrado.  Nem venha reclamar para mim! Voc  quem tem de descobrir  repreendeu o e acrescentou com um tom mais amigvel.  Em geral,  alguma coisa que ficou mal resolvida,  algum que voc sabe que precisa de ajuda.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

61

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Ento, tenho pelo menos dois anos para...  Bem, no. No  bem assim que funciona  disse, abaixando a cabea do mesmo jeito engraado que tinha visto um pouco antes. Passou na frente dele e atravessou uma cerca de ferro negro cujas lanas entortadas e enferrujadas deixavam marcas estranhas nas paredes da velha capela de pedra.  Vamos encontrar as garotas.  Espere um pouco  disse, segurando no brao dela. Era a nica coisa que conseguia segurar.  Voc tem de me contar. Como funciona exatamente essa historia de misso?  Bem... bem, voc tem de descobrir e completar sua misso assim que possvel. Alguns anjos levam s alguns dias, alguns meses.  E voc est aqui h dois anos! Voc est prxima de completar a sua? Ela passou a lngua nos dentes.  No sei.  timo! timo! No sei o que estou fazendo, finalmente encontro uma guia, e ela leva oito vezes mais tempo do que todo mundo para completar sua misso.  Duas vezes mais tempo! Uma vez encontrei um anjo que levou um ano. Sabe, Tristan, sou meio distrada. Concentro me no que tenho de fazer, mas, s vezes, aparecem oportunidades boas demais para serem desperdiadas. Algumas delas no so vistas com bons olhos.  Algumas delas? Como o que?  Tristan perguntou, suspeitando da atitude dela. Ela deu de ombros.  Uma vez derrubei um lustre do palco na cabea do canalha do meu ex  diretor   claro que s passou de pertinho. Ele sempre foi super f do Fantasma da pera  e  isso que quero dizer com no deixar a oportunidade passar,  assim que geralmente acontece comigo. Estou dois pontos perto da minha misso, da acontece algo, e volto trs pontos para trs, nunca conseguindo entender muito bem qual  minha misso.  Mas no se preocupe. Voc, provavelmente, vai ser mais disciplinado que eu. Para voc, vai ser rapidinho. Vou acordar, Tristan pensou, e esse pesadelo vai ter acabado. Ivy estar deitada em meus braos...  Quanto voc quer apostar que aquelas garotas esto na capela? Tristan olhou para o edifcio de pedras acinzentadas. Suas portas estavam fechadas com pesadas correntes desde quando era criana.  H um jeito de entrar?  Para ns h sempre um jeito de entrar. Para elas, h uma janela quebrada nos fundos. Algum pedido especial?  Como?  Alguma coisa que voc queira me ver fazendo? Acordar me, pensou Tristan.  Ah, no.  Sabe, no sei o que se passa na sua cabea, Tristan, mas voc est agindo como se estivesse mais morto do que j est. Ela atravessou a parede. Tristan a seguiu. A capela estava escura, exceto pelo verde luminescente vindo da janela quebrada no fundo. Folhas secas e gesso esfarelado estavam espalhados pelo cho. Os bancos de madeira tinha iniciais entalhadas, escurecidas com smbolos que Tristan no sabia decifrar. As garotas, que deviam ser onze ou doze. Estavam sentadas em circulo ao redor do altar, rindo nervosamente.  Certo, quem voc vai chamar?  perguntou uma delas. Entreolharam se e depois passaram a olhar por cima dos ombros.  Jackie Onassis  disse uma garota com rabo de cavalo marrom.  Kurt Cobain  sugeriu outra.  Minha av;  Meu tio av Lennie.  J sei!  disse uma loirinha sardenta.  Que tal Tristan Carruthers? Tristan piscou.  Macabro demais  disse a lder.    disse a morena ajeitando seu rabo de cavalo.  Ele provavelmente teria formigas saindo por detrs da cabea.  Eca! Que nojento! Lacey abafou o riso.  Minha irm disse que era apaixonada por ele  disse a loira sardenta. Lacey no parava de piscar os clios para ele.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

62

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Uma vez, tipo, quando a gente estava de bobeira na piscina, ele, tipo assim, soou o apito para ns. Foi maneiro.  Ele era bonito! Lacey enfiou o dedo na garganta e revirou os olhos.  Mesmo assim, ele deve estar macabro agora  disse a ruiva.  Quem mais a gente pode chamar?  Lacey Lovitt. As garotas se entreolharam. Qual delas tinham dito isso?  Eu me lembro dela. Ela fez o filme Dark Moon Running.  Dark Moon Running. Era a voz de Lacey.Tristan percebeu, parecia a mesma voz, mas era diferente, da mesma forma que a voz das pessoas na televiso era a mesma, mas soava diferente do que ao vivo. De alguma forma, todas conseguiam ouvir a voz dela. As garotas olharam em volta, um pouco assustadas.  Vamos unir as mos  disse a lder.  Estamos chamando Lacey Lovitt. Se voc est aqui, nos d um sinal.  Nunca gostei de Lacey Lovitt. Tristan viu os olhos de Lacey soltarem fascas.  Shhh! Os espritos esto por perto!  Posso v los!  Disse a loira.  Vejo sua luz! So dois!  No vejo nada!  disse a garota de rabo de cavalo.  Vamos chamar outra pessoa que no seja a Lacey Lovitt.  , ela era muito metida. Foi  vez de Tristan abafar o riso.  Gosto da garota nova que est em Dark Moon. A que ficou no lugar dela.  Eu tambm  concordou a loira.  Ela  uma atriz bem melhor. E o cabelo dela tambm  melhor. Tristan deu uma risadinha e olhou com cautela para Lacey.  , mas ela no est morta  disse a lder.  Estamos chamando Lacey Lovitt. Se voc est aqui, Lacey, nos d um sinal. Comeou com um pequeno redemoinho de poeira. Tristan viu que Lacey ficou um pouco fraca conforme a poeira rodopiava para o alto. Depois, a poeira abaixou e ela j tinha voltado a si, correndo por fora do crculo, puxando os cabelos das garotas. As garotas gritaram e seguraram suas cabeas. Ela beliscou duas delas, depois pegou seus casacos e os jogou de um lado para outro. Nessa hora, as garotas j estavam de p, ainda gritando e correndo em direo  janela quebrada. Garrafas vazias voaram sobre suas cabeas, sendo esmagadas contra a parede da capela. As garotas fugiram rapidinho, seus gritos cada vez mais distantes, parecendo o tmido piar dos passarinhos.  Bem  disse Tristan assim que o silncio voltou a tomar conta do local.  Acho que todo mundo deveria estar contente por no haver um lustre aqui. Sente se melhor?  Pestinhas!  Como voc faz isso? perguntou.  Eu vi essa nova atriz. Ela  pssima!  Tenho certeza de que ela no  nem um pouco dramtica como voc! Voc consegue puxar e jogar. Como voc faz isso? No consigo usar minhas mos de forma alguma.  Descubra sozinho!  ainda estava furiosa.  Melhor cabelo!  puxou as mechas roxas.  Esse  o meu estilo!  disse, olhando para Tristan. Ele sorriu para ela.  Quanto ao uso das mos, voc acha mesmo que vou desperdiar meu tempo precioso ensinado voc? Tristan concordou com a cabea.  Um bom publico no  fcil de encontrar, especialmente quando se est morto e a maioria no consegue ver voc. Ento, ele a deixou com seu mau humor na capela. Imaginou que ela saberia como encontr  lo quando estivesse pronta. De novo sob a luz do sol, Tristan piscou. Apesar de no sentir as mudanas de temperatura, era muito sensvel  luz e  escurido. Na capela escura, tinha visto as auras ao redor das garotas, e agora, no cenrio coberto pelas copas das rvores, a luz do sol parecia brilhar a ponto de ofuscar.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

63

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Talvez tenha sido por isso que acabou confundindo o visitante com Gregory. A forma como caminhava, o cabelo escuro e o formato da cabea convenceram Tristan de que era Gregory saindo do jazido da famlia Baines. Ento, o visitante, como se tivesse sentido a presena de algum a observ lo, virou se para trs. Era bem mais velho que Gregory, devia ter mais de 40 anos, e seu rosto estava contorcido pela dor da tristeza. Tristan estendeu a mo para ele, mas o homem se virou e foi embora. Tristan fez o mesmo, mas no antes de perceber que, bem no centro do tmulo coberto pelo verde da grama fresca de Caroline, havia uma rosa vermelha de cabo longo.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

64

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Capitulo 15

Lacey voltou a encontrar Tristan naquela tarde. Ela o chamou, assustando o quando andava pelo cume da montanha. Olhou para cima e a viu sentada em uma rvore.  Bela vista, no  mesmo?  disse Lacey. Tristan concordou com a cabea e olhou novamente para a ladeira coberta de pedras. O terreno tinha uma queda ngreme de cerca de 600 a 900 metros. Lembrava se de ter visto uma vez, no comeo da primavera, os trilhos prateados e o teto da estao de trem l embaixo, no vale, mas agora tudo estava escondido. Dava para ver apenas pequenos trechos azuis do rio em meio s rvores.  No sei por que me sinto sempre atrado para esse lugar. Lacey inclinou a cabea.  Tenho certeza de que no tem nada a ver com o fato de Ivy morar aqui  disse sarcasticamente.  Como voc sabe sobre Ivy? A garota desceu da rvore com a mesma agilidade de um gato.  Li sobre ela,  claro  Lacey caminhou ao lado dele.  Li tudo sobre o acidente. Tenho o hbito de passar pela estao toda manh para ler o jornal com os viajantes. No gosto de ficar sem saber as ltimas fofocas. Alm disso, me ajuda a saber a data correta.  Hoje  sbado, dez de julho  disse Tristan.  Pnn!  imitou o som de uma campainha de jogos quando a pessoa erra a resposta e arrancou um galho de rvore.  Tera feira, doze de julho.  No pode ser  disse Tristan. Esticou o brao, mas no consegui arrancar a folha, muito menos um galho.  Voc foi pego pela escurido nos ltimos dias?  Ontem  noite  respondeu.  Est mais para trs noites atrs. Isso vai acontecer, mas voc vai acabar ganhando fora e precisando cada vez menos de descanso. Exceto,  claro, quando fizer coisas complicadas.  Coisas complicadas. Tipo o qu? Esperou at que estivesse prestando ateno totalmente nela e disse:  Olhe para mim.  O que voc acha que estou fazendo?  V um pouco para trs e olhe com mais ateno. O que est faltando em mim?  Voc promete no puxar meu cabelo? Olhou com cara feia para ele. Era uma boa careta, mas no durou muito tempo.  Ela estava s atuando.  Olhe para aquela gata. Ele olhou por cima dos ombros.  Ella!  Olhe para a grama ao lado da gata e olhe para a grama ao meu lado. Ento, percebeu.  Voc no tem sombra.  Nem voc.  Voc est falando alto. Reconheci o som e vi Ella virar as orelhas na sua direo.  Agora veja a grama atrs de mim  disse, fechando os olhos. Lentamente, como gua gotejando pelo gramado, sua sombra comeou a tomar forma. Ao mesmo tempo, com a mesma lentido, ela perdia a sua capacidade de brilhar. Ella andou ao redor dela cuidadosamente uma vez, duas vezes. Depois, esfregou se na perna d Lacey e no caiu.  Voc est slida! Slida! Qualquer um pode ver voc! Ensine me a fazer isso. Se puder ficar slido, Ivy vai me ver, ela vai saber que estou aqui por causa dela, vai saber que...  Epa!  interrompeu Lacey e sua voz projetada comeou a diminuir.  J j eu volto. Sua sombra desapareceu e ela tambm  completamente.  Lacey?  chamou Tristan, girando o corpo.  Lacey, onde est voc? Voc est bem?  S estou cansada  a voz dela era fraca. Seu corpo apareceu novamente, mas era quase translcido. Deitou se em posio fetal no cho.  S me d uns minutinhos.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

65

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Tristan andava de um lado para o outro, olhando para ela com preocupao. De repente, espreguiou se voltando a ser ela mesma novamente.   assim  disse.  Para anjos temporrios, como eu e voc, querido,  preciso toda energia que temos e muita experincia para se materializar completamente. Para falar ao mesmo tempo, bem, s um profissional faz isso.  Ou seja, voc.  Em geral s materializo uma parte de mim, como meus dedos, quero fazer alguma coisa  puxar cabelos ou jogar para o alto a crtica de um filme.  Me ensine!  disse Tristan desesperadamente.  Por favor, me ensine como fazer isso.  Talvez. Tinham ido parar em um lugar que dava vista completa para a parte de trs da casa. Tristan olhou para a janela do sto, a que dava para a sala de msica de Ivy.  Ento,  aqui que a moa mora. Creio que deveria achar revigorante ver um cara se fazer completamente de bobo por causa de uma garota. Viu de longe os lbios de Lacey se contorcerem.  No sei por que voc deviria pensar muito sobre qualquer coisa. Isso no tem nada a ver com voc. Voc vai me ensinar?  Ah, por que no? Tenho tempo sobrando. Esconderam se por entre as rvores, sentando se, Ella os seguia lentamente. Lacey comeou a acariciar a gata e Ella a recompensou com um pequeno, porm educado, ronronado. Quando Tristan olhou de perto, pde ver que as pontas dos dedos dela no brilhavam, pareciam bem slidas.  Tudo o que requer  concentrao. Intensa concentrao. Olhe para as pontas dos seus dedos. Olhe para elas como uma maneira de manter o foco. Quase desejando que ganhem vida. Tristan esticou a mo na direo de Ella. Tentou deixar a mente livre de tudo, focando apenas nas pontas de seus dedos. Sentiu uma leve sensao de formigamento, o tipo de sensao que costumava sentir quando seu brao dormia. A sensao ficou cada vez mais forte em seus dedos. Depois, sentiu a mesma coisa em sua cabea, mas no gostou dessa sensao. Comeou a ficar fraco. Seu corpo todo, menos seus dedos, parecia estar derretendo. Recuou. Lacey morreu de rir.  Perdeu a coragem.  Vou tentar de novo.  Melhor descansar um pouco.  No preciso descansar! Depois de ser forte e esperto a vida toda, professor de natao, monitor de matemtica, aceitar ter aulas com essa sabe tudo sobre como afagar um gato era humilhante!  Parece que no sou a nica aqui com o ego do tamanho do mundo  observou Lacey com satisfao. Tristan ignorou o comentrio.  O que est acontecendo comigo?  perguntou.  Toda sua energia foi reenviada para as pontas dos seus dedos, fazendo com que o restante enfraquea, como se voc estivesse dissolvendo, ou algo assim. Ele concordou com a cabea.  Assim que voc adquirir mais fora, isso no ser problema. Se voc algum dia chegar ao ponto de se materializar por inteiro, projetando sua voz, embora, francamente, duvide que acontea, voc aprender a sugar a energia do ambiente.  o que eu fao, sugo, bem ali.  Voc fala como se fosse um aliengena em um filme de terror ou fico cientfica. Ela concordou com a cabea  Lips of Planet Indigo. Sabe, cheguei bem perto de ganhar um Oscar nesse filme. Engraado, Tristan se lembrava desse filme como um fracasso de bilheteria.  Quer tentar novamente? Tristan esticou o brao. De certa forma, era como encontrar o pulso, como deitar na cama para ouvir seu prprio batimento cardaco: de repente, tomou conscincia da energia que caminhava pelo seu corpo e a direcionou, dessa vez de forma mais calma e tranqila, para a ponta de seus dedos. Eles pararam de brilhar. Ento, pde senti la. Seu pelo macio, sedoso e profundo. Ella comeou a ronronar mais alto enquanto ele passava a mo nas partes do corpo em que ela mais gostava de ser acariciada. Quando passou a mo na sua barriga o motor dentro dela parecia mais alto do que a hlice de um avio pequeno. Ento, perdeu o toque. A luz do sol tornou se cinza. Ella parou de ronronar. Tudo o que conseguiu fazer foi ficar parado e esperar, sugando o ar ao redor como algum faz para tentar recuperar o flego, apesar de no ter nenhum.  Excelente! No fazia idia de que era to boa professora!  disse Lacey

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

66

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

A cor voltou  grama e s rvores. O cu voltou a ficar azul. Apenas Ella, ficando de p e fungando, dava sinais de que havia alguma coisa errada. Tristan virou se para Lacey, exausto.  No vou conseguir toc la. Se isso  tudo que consigo fazer, no vou conseguir toc la.  Est falando da garota de novo?  Voc sabe o nome dela?  Ivy. Smbolo de f e de redeno. H alguma mensagem que quer dar a ela?  Tenho que convenc la do meu amor.  S isso?  Lacey fez uma cara.  S isso?  Essa provavelmente  a minha misso.  Ah, por fa vor!  Sabe, estou ficando bem cansado do seu sarcasmo.  Eu tambm no curto muito a sua idiotice. Tristan, voc  bem ingnuo se acha que o Diretor Nmero Um ia se dar ao trabalho de fazer de voc um anjo s para que pudesse convencer uma garota sobre seu amor. As misses nunca so simples assim, nunca so to fceis. Queria briga com ela, mas ela tinha parado com a encenao melodramtica. Estava sria.  Ainda no entendi. Como devo saber qual  a minha misso?  Voc observa. Ouve. Fica prximo das pessoas pelas quais se sente atrado, pois provavelmente so as pessoas para as quais voc foi mandado de volta para ajudar. Tristan comeou a imaginar quem na sua vida parecia precisar de ajudar.   tipo como ser detetive. A dica  no se focar em quem fez, mas em quem fez o qu. Com freqncia, voc no sabe qual  o problema que tem de resolver. s vezes, o problema ainda nem aconteceu, voc tem que salvar a pessoa de algum desastre que vai acontecer no futuro.  Voc est certa. No  simples. Passaram pela quadra de tnis e dirigiram se para a frente da casa. Ella, que os estava seguindo, passou na frente deles e subiu os degraus.  Mesmo que algo desse tipo acontea no futuro,  chave est sempre escondida em seu passado. Felizmente, no  difcil viajar no tempo. Tristan arqueou as sobrancelhas.  Viajar no tempo? Lacey sentou no carro de Gregory, que estava estacionado na garagem.  Viajar no tempo na sua mente, quero dizer. H muitas coisas das quais nos esquecemos se pensarmos somente no presente. Podem haver pistas s quais no prestamos ateno no passado, mas ainda esto l e podem ser encontradas novamente, se voltarmos no tempo em nossas mentes. Enquanto falava, Lacey se espreguiou no cap da BMW. Para Tristan, ela parecia a Morticia Addams fazendo um anncio de carro.  Talvez eu te ensine a viaja no tempo tambm.  claro que viajar no tempo, na mente de outra pessoa, no  algo que um amador como voc consiga fazer. Tudo isso  muito perigoso  acrescentou.  Ah, anime se Choro!  No estou pr baixo. S estou pensando.  Ento, olhe pra cima. Tristan olhou para a porta da frente. Ivy estava l, olhando em direo  garagem, como se estivesse esperando algum.  Esta  a minha dama! Oh, eis o meu amor! Se ela o pudesse saber! disse Lacey. Tristan no tirava os olhos Ivy.  O qu?  Romeu e Julieta, ato dois, cena dois. Fiz um teste para essa pea, sabia? Para Shakespeare no Parque. O diretor de elenco me queria.  Legal  disse Tristan sem prestar ateno. Queria que ela o deixasse sozinho agora. Tudo o que queria era estar sozinho, para se alegrar com a presena de Ivy, Ivy saindo na varanda, Ivy com seus cabelos dourados movimentando se graciosamente no alto da escada para pegar Ella.  O diretor disse que meu talento era o tipo pelo qual as pessoas morriam.  Demais!  disse Tristan. Se os gatos pudessem falar, pensou. Diga a ela, Ella, diga o que voc sabe.  O produtor, uma pessoa que no entende a verdadeira arte, queria algum que tivesse um rosto mais clssico, algum que no tivesse um sotaque to nova iorquino. Ivy ainda estava de p na varanda, fazendo carinho em Ella e olhando na direo dele. Talvez ela ainda acreditasse, Tristan pensou. Talvez tivesse uma vaga sensao da sua presena.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

67

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Esse produtor est em Nova York por algumas semanas, terminando um show. Acho que deveria fazer uma visitinha a ele.  timo!  disse Tristan, virando a cabea junto com Ivy, ouvindo o ronco do motor de um carro pequeno subindo o topo da montanha.  Acho que mataria, causaria um acidente de trnsito que o mataria na hora  disse Lacey.  Maravilha!  Voc  pattico!Voc  mesmo pattico! Era assim to reticente quando era vivo? Fico imaginando como era quando seus hormnios ainda bombeavam em seu corpo. Ele virou se para ela com raiva.  Veja! Voc no  melhor que eu ! Estou apaixonado por Ivy. Ns dois somos obcecados, ento, cai fora. Lacey no disse nada por um momento. Seus olhos alteraram se s um pouquinho. Uma cmera no teria captado a centelha de mgoa. Mas Tristan captou e, sabendo que dessa vez ela no estava atuando, arrependeu  se do que disse.  Sinto muito. Lacey tinha sado de perto dele. Imaginou que ela iria embora a qualquer minuto, deixando o tatear seu caminho em direo  sua misso.  Lacey, desculpe.  Ah, tudo bem  disse.   que...  Quem so essas? Mimi e Coc vieram dividir o luto com a sua dama? Virou se e viu Beth e Suzanne saindo do carro. As duas estavam de preto, mas Suzanne sempre gostou de preto, especialmente o preto justinho, que era exatamente o que estava usando,um vestido tomara que caia muito maneiro. Beth, por outro lado, estava usando roupas tpicas de Beth: um macaco preto, largo, com pequenas flores brancas estampadas, cuja bainha ondulada estava a alguns centmetros acima de sua sandlia vermelha de plstico.  So as amigas dela, Beth e Suzanne.  Aquela ali  definitivamente um radar  disse Lacey.  Radar?  Aquela que parece estar usando uma cortina de banheiro.  Beth. Ela  escrita.  O que eu te disse? Um radar inato. Tristan viu Ivy cumprimentar suas amigas e lev las para dentro da casa.  Vamos  disse Lacey, passando na frente dele.  Isso vai ser divertido. Ele hesitou. J tinha visto esse tipo de diverso um pouco antes.  Voc quer ou no quer dizer a ela que a ama? Isso vai ser um bom treino para voc, Tristan. Vai dar certo. A garota  um radar total. Bons radares no precisam nem acreditar. So receptivos a todos os tipo de coisas, uma dessas coisas so os anjos. Voc pode falar atravs dela, pelo menos, voc pode escrever atravs dela. Voc sabe o que  escrita automtica, no sabe? J tinha ouvido falar. Os mdiuns faziam esse tipo de coisa, suas mos supostamente escreviam diante da vontade de outra pessoa, enviando mensagens dos mortos.  Quer dizer que Beth  como um mdium?  Um mdium sem treinamento. Um radar natural. Ela vai entrar em sintonia com voc, se no for hoje, ser amanh. Voc s tem de estabelecer a ligao e entrar na mente dela.  Entrar na mente dela?   bem simples. Tudo o que precisa fazer  pensar exatamente como ela, ver o mundo como Beth v, como Beth sente, amar quem ela ama, sentir seus mais profundos desejos.  De jeito nenhum  disse Tristan.  Em resumo, voc tem que adotar o ponto de vista do radar e da entrar bem na mente dele.  Obviamente, voc no sabe como funciona a mente da Beth. Voc nunca viu suas histrias. Ela escreve esses romances trridos.  Oh... quer dizer, do tipo que o amante olha com desejo para sua amada, seus olhos cheios de sentimentos, seu corao doendo tanto que ele no pode ver nem ouvir mais ningum?  Exatamente. Ela inclinou a cabea para o lado e deu um sorriso forado.  Voc tem razo. Voc e Beth so muito diferentes. Tristan no disse nada.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

68

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Se voc amasse Ivy, voc tentaria. Tenho certeza de que os amantes das histrias de Beth no iriam deixar que um desafio desses fosse um empecilho para eles.  E o Philip? Ele  irmo da Ivy. Ele me v brilhar.  Ah! Encontrou algum que acredita!  Com certeza  um radar  disse Tristan.  No necessariamente. No h nenhuma conexo real entre ser um radar e acreditar.  Podemos tentar primeiro com ele?  Claro, temos tempo sobrando  disse e entrou na casa. Philip estava na cozinha fazendo brownie de micro ondas. Na bancada ao lado da tigela, havia algumas figurinhas de beisebol grudentas e um catlogo aberto na foto de crianas andando de bicicleta. Tristan estava confiante. Tinha bastante familiaridade com esse ponto de vista.  Fique atrs dele  aconselhou Lacey.  Se ele percebeu o brilho, vai se distrair. Vai comear a procura e tentar entender. Vai se concentrar tanto no exterior que no vai deixar mais nada entrar. Na verdade, ficar atrs de Philip ajudava o de outras maneiras. Tristan leu as instrues na caixa por detrs dos ombros de Philip. Pensou em qual deveria ser o prximo passo e como deveria ser o aroma dos brownies enquanto assavam e qual seria o gosto, quente e crocante, assim que sassem do forno. Queria lamber a colher para sentir o gosto da massa crua e lquida. Philip lambeu. Tristan sabia quem ele era e, ao mesmo tempo, ele era outra pessoa tambm, da forma como fazia quando lia uma boa histria. Isso era fcil.  Philip, sou eu... Bum! Tristan tropeou para trs, como se estivesse andando por uma parede de vidro. No tinha visto, no tinha percebido, at dar com a cara nela. Ficou paralisado por alguns minutos.  s vezes fica bem difcil  observou Lacey.  Acho que est bem claro. Philip no quer deixar voc entrar.  Mas eu era amigo dele.  Ele no sabe que  voc.  Se ele me deixasse conversar com ele, ento saberia.  No  assim que funciona. J te avisei. Estou ficando boa em perceber quais pessoas so radares e quais no so. Pode tentar novamente, mas ele vai estar mais preparado dessa vez e vai ficar ainda mais forte. Voc no vai querer um radar que luta contra voc. Vamos tentar a Beth. Tristan virou se. Por que voc no tenta a Beth?  Sinto muito.  Mas  ele pensou rpido. Voc  to boa atriz, Lacey.  por isso que essas coisas vm rapidamente para voc. A funo de uma atriz  assumir um papel. As grandes atrizes, como voc, no apenas imitam. No, elas se tornam a outra pessoa.  por isso que voc se sai to bem.  Boa tentativa. Mas a Beth  o seu radar e voc tem de mandar a sua mensagem para ela. E voc quem tem que de fazer.  assim que funciona.  Nunca parece funcionar do jeito que eu quero  ele reclamou.  Voc tambm percebeu isso. Suponho que saiba chegar ao quarto da sua dama. Tristan mostrou o caminho at o quarto de Ivy. A porta estava entreaberta. Ella, que ainda os seguia, empurrou a porta abrindo a ainda mais, eles atravessaram a parede. Suzanne estava sentada na frente do espelho de Ivy, remexendo uma caixa de jias, experimentando colares e brincos de Ivy. Ivy estava esparramada na cama, lendo alguns papis, uma das histrias de Beth  imaginou Tristan. Beth estava andando pelo quarto.  Pelo menos arrume um lpis cravejado de jias. J que vai continuar usando o no seu cabelo  disse Suzanne. Beth pegou o n do seu cabelo, preso no alto da cabea e tirou o lpis. Esqueci.  Voc esta ficando cada vez pior, Beth.   tudo to interessante. Courtney jura que sua irmzinha est dizendo a verdade. E alguns dos rapazes voltaram l na capela e encontraram o casaco de uma das garotas pendurado no alto de um baluarte.  As prprias garotas poderiam ter feito isso  salientou Suzanne.  Hum, talvez  disse Beth, tirando um caderno da bolsa. Lacey virou se para Tristan.  Essa  a sua deixa. Ela est pensando sobre hoje de manh. No h uma maneira mais fcil que essa para voc. Beth rabiscava em seu caderno. Tristan aproximou se dela. Supondo que ela estava tentando imaginar a cena, lembrou se da forma como a capela parecia, partindo do brilho da luz do lado de fora para a vasta escurido interna. Viu as garotas ajeitando se no altar. As histrias de Beth tinham um milho de detalhes.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

69

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Lembrou se dos pedaos de gesso do cho e imaginou como devia ser frio o cho em que as garotas estavam sentadas com as pernas de fora, como suas peles deviam ficar arrepiadas se uma corrente de ar passasse pela janela quebrada, ou como ficariam agitadas caso sentissem uma aranha em suas pernas. Ele estava na cena, saindo fora de seu corpo e entrando...  Opa!  ela no se fechou como Philip, mas ele foi retirado rapidamente e com firmeza. Beth levantou se, tomando distncia, e olhando para o lugar em que estava escrevendo antes.  Ela consegue me ver?  Tristan perguntou para Lacey.  Ela v o meu brilho?  Acho que no. Ela no est prestando ateno ao meu. Mas sabe que tem alguma coisa acontecendo. Voc chegou com muita fora nela.  Estava tentando pensar da mesma forma que ela, dando alguns detalhes. Ela adora detalhes.  Voc foi com muita sede ao pote. Ela sabe que tem alguma coisa errada. Recue um pouco. Mas Beth comeou a escrever novamente, descrevendo as garotas no crculo. Alguns dos detalhes de Tristan estavam l, no sabia se por sugesto dele ou pela imaginao dela, mas no conseguia resistir ao desejo de ir a fundo. Bum! Dessa vez ele bateu com tudo, foi to forte que sentiu rebater para trs.  Eu te avisei!  disse Lacey.  Beth, voc est to agitada quanto um gato  disse Suzanne. Ivy deu uma olhada na histria de Beth.  To agitada quanto Ella, que tem agido de forma bem estranha ultimamente. Lacey fez no com o dedo para Tristan.  Oua me. Voc tem que ir com calma. Imagine que Beth  uma casa e voc  um ladro tentando invadir. Voc tem de rastejar. Encontrar o que precisa no sto, no inconsciente dela, mas no perturbe a pessoa que mora no andar de cima. Entendeu? Ele havia entendido, mas relutava em tentar novamente. A fora da mente de Beth era muito maior do que a de Philip. Tristan sentia se frustrado, incapaz de mandar o recado para Ivy. Ela estava to perto, to perto, e no entanto... Podia atravessar sua mo sobre ela, mas no toc la. Deitar ao lado dela, mas nunca oferecer lhe consolo. Dizer algo para faz la sorrir, mas jamais ser ouvido. No havia mais lugar para ele na vida dela. E talvez fosse melhor para ela, mas havia vida aps a morte para ele.  Nossa!  disse Beth.  Nossa! Se  que posso dizer isso. Que tal essa primeira frase para a minha histria? No havia mais lugar para ele na vida dela, e talvez fosse melhor para ela, mas havia vida aps a morte para ele. Tristan viu as palavras nas pginas como se estivesse segurando o caderno com suas prprias mos. E quando Beth se virou para olhar a foto dele na escrivaninha de Ivy, ele tambm se virou. Se voc soubesse, pensou.  Se voc...  ela escreveu.  Se voc, se voc, se voc...  ela parecia ter empacado.  Se voc.  Se voc o qu?  perguntou Suzanne.  No sei  respondeu Beth. Tristan observava o quarto pelos olhos dela, como era bonito, como Ella olhava para ela, como Suzanne e Ivy trocavam olhares, ento deu de ombros.  Se eu me libertasse...  parou de escrever e franziu a testa. Ele conseguia sentir o espanto como se estivesse em sua prpria mente.  Ivy, Ivy, Ivy  disse. Se Ivy soubesse.  Beth, voc est to plida. Voc est bem?  disse Ivy. Beth piscou vrias vezes.   como se algum estivesse falando por mim. Suzanne tirou sarro dela com um assobio peculiar.  No estou louca!  disse Beth. Ivy aproximou se de Beth e olhou bem nos olhos dela; olhou bem nos olhos dele. Mas ele sabia que ela no conseguiria ver.  Mas ela no conseguia ver  escreveu Beth. Depois apagou e reescreveu, lendo em voz alta o que havia produzido.  No havia mais lugar para ele na vida dela, e talvez fosse melhor para ela, mas a vida aps a morte era uma tristeza para ele. Se ela pudesse libert lo dessa priso de amor. Mas ela no sabia, ela no conseguia ver que a chave estava em suas mos apenas  Beth ergue o lpis um pouco.  Estou com muita sorte! Exclamou Beth. Comeou a escrever novamente.  Em suas mos adorveis, cuidadosas, carinhosas e gentis; mos que seguravam, curavam, nutriam esperanas... Ah!D um tempo! Pensou Tristan.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

70

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

 Cala a boca.  Beth falou para ele.  O qu?  disse Ivy, arregalando os olhos.  Voc est brilhando. Todas se viraram para Philip, que estava parado na porta do quarto de Ivy.  Voc est brilhando, Beth  disse Philip. Ivy desviou o olhar.  Philip, j te falei que no quero mais ouvir essa histria?  Sobre eu estar brilhando?  perguntou Beth.  Ele colocou essa histria de anjos na cabea  explicou Ivy.  Diz ver cores e coisas, e acha que so anjo. No agento mais isso! No quero mais ouvir falar nisso! Quantas vezes vou ter de te falar isso? Ao ouvir as palavras dela, Tristan perdeu a esperana. Seus esforos o tinham levado alm da exausto; era a esperana que o sustentava. E agora ela tinha ido embora. Beth balanou a cabea e ele saiu de dentro dela. Philip no tirou os olhos de Tristan enquanto ele foi para perto de Lacey.  Puxa! Com quem ser que Philip aprendeu a falar sobre os anjos?  disse Suzanne, dando uma piscadinha para Beth.  Eles te ajudaram no passado, Ivy. Por que no podem te ajudar agora?  perguntou Beth, gentilmente.  Eles no me ajudaram! Se os anjos fossem reais, se fossem nossos guardies, Tristan estaria vivo! Mas ele se foi. Como posso ainda acreditar nos anjos? Cerrou os punhos. A expresso de revolta em seus olhos tinha se transformado em um verde intenso, queimando de certeza, a certeza e que os anjos no existiam. Tristan sentiu que estava morrendo por inteiro novamente. Suzanne olhou para Beth e deu de ombros. Philip no disse nada. O formato de sua boca mostrava uma expresso j conhecida.  Monstrinho teimoso!  comentou Lacey. Tristan concordou com a cabea. Philip ainda acreditava. Tristan sentiu um pouquinho de esperana voltar. Ento, Ivy tirou o saco plstico da sua lixeira. Comeou a retirar seus anjos da prateleira.  No, Ivy! Mas suas palavras no iriam det la. Philip pegou no brao dela.  Posso ficar com eles? Ela o ignorou.  Posso ficar com eles, Ivy? Tristan ouviu o vidro se quebrando dentro da sacola. Sua mo movia se de forma inflexvel e cruel, mas ainda no havia pego Tony ou o anjo das guas.  Por favor, Ivy. Pelo menos ela parou.  Tudo bem, pode ficar com eles, mas voc tem de me prometer que nunca mais vai falar comigo a respeito de anjos novamente. Philip olhou ponderadamente para os dois ltimos anjos.  Tudo bem, mas e se...  No  disse com firmeza  Esse  o combinado. Ele pegou Tony e o anjo das guas com cuidado.  Prometo. O corao de Tristan se despedaou. Quando Philip saiu, Ivy disse: Est ficando tarde e logo todo mundo estar aqui.  melhor eu ir trocar de roupa.  Ajudo voc a escolher alguma coisa  disse Suzanne.  No. V descendo. J j encontro vocs.  Mas voc sabe que eu gosto de escolher suas roupas...  Estamos indo  disse Beth, empurrando Suzanne para a porta.  Leve o tempo que for preciso. Se os rapazes chegarem, faremos sala para eles  fechou a porta atrs de Suzanne. Ivy olhou para a fotografia de Tristan do outro lado do quarto. Estava paralisada como se fosse uma esttua, as lgrimas rolavam pelo seu rosto. Lacey disse suavemente: Tristan, voc precisa descansar agora. No vai conseguir fazer nada se no descansar. Mas ele no conseguia deixar Ivy. Colocou os braos ao redor dela. Ela passou direto por ele, dirigindo se  escrivaninha. Ele a abraou novamente, mas ela s chorou ainda mais.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

71

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Ento, Ella subiu delicadamente na escrivaninha. As mos de Lacey a tinha colocado l. A gata esfregou  se no rosto de Ivy.  Ah, Ella. No sei como me desprender dele.  No faa isso!  implorou Tristan.  No final, ser exatamente o que ela dever fazer  avisou Lacey.  Sei que o perdi, Ella. Tristan est morto. Jamais poder me abraar novamente. No pensa mais em mim. No me quer mais. O amor termina com a morte.  No termina! Eu vou te abraar de novo!  disse Tristan.  Juro! E voc ver que meu amor nunca vai acabar.  Voc est exausto, Tristan.  Vou te abraar. Vou te abraar para sempre!  Se voc no descansar agora, vai ficar ainda mais confuso. Ser difcil distinguir o real do irreal, ou de conseguir sair da escurido. Tristan. Me oua... Mas antes que ela conseguisse terminar de falar, a escurido j havia tomando conta dele.

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

72

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Captulo 16

- Bem  disse Suzanne ao sarem do cinema.  Nas ltimas semanas acho que assisti pelo menos tantos filmes quanto Siskel e Ebert.  No sei no se eles assistiram esse a  comentou Will.  Foi o nico filme de que gostei at agora. Mal posso esperar para ver Bloodbath IV. Gregory olhou para Ivy e ela desviou o olhar. Foi Ivy quem sugeriu ir ao cinema quando algum disse que ela precisava sair, o que era algo que viviam falando ultimamente. Se pudesse ter escolhido, teria ido a uma sesso tripla. Ocasionalmente, dispersava  se no meio da histria, mas mesmo que isso no acontecesse, era uma maneira de parecer socivel sem ter de conversar com os outros. Infelizmente, a parte mais fcil da noite havia acabado de terminar. Ivy recuou quando saram do friozinho e da escurido do interior do cinema para entrar na luz neon, quente da noite.  Pizza?  perguntou Gregory.  Adoraria uma bebida!  disse Suzanne.  Bem, Gregory est pagando, e como ele no me deixa encher o porta malas  disse Eric.  Gregory est pagando a pizza  disse Gregory. Cada vez mais, pensou Ivy, Gregory parecia um conselheiro de acampamento, cuidando de seu estranho grupo, agindo de forma responsvel. Era de se estranhar que Eric estivesse tolerando essa situao  mas sabia que Gregory, Eric e Will tinham suas noitadas; noitadas selvagens com garotas e rapazes. Nesses passeios em grupo, Ivy fazia um jogo consigo mesma, vendo quanto tempo conseguia sair sem pensar em Tristan, ou pelo menos sem sentir terrivelmente a falta dele. Concentrava se em prestar ateno s pessoas ao seu redor. A vida continuava para eles, mesmo que no continuasse para ela. Naquela noite, foram ao Celentano's, uma pizzaria popular na regio. As cadeiras balanavam e as toalhas de mesa eram quadrados de papel rasgado  uma placa dizia: "Temos lpis e gizes coloridos"  mas os proprietrios, Pat e Dennis entendiam tudo de comida. Beth, que adorava tudo que levava chocolate, adorava suas famosas pizzas de sobremesa.  O que vai ser hoje?  provocou Gregory.  Brownies com queijo? Beth sorriu, duas covinhas cor de rosa apareceram em seu rosto. Parte da beleza de Beth estava em sua transparncia, pensou Ivy, na forma como sorria sem apresentar defesas.  Vou pedir algo diferente. Algo mais saudvel. J sei! Queijo brie com damasco e pedaos de chocolate amargo! Gregory riu, pousando delicadamente a mo no ombro de Beth. Ivy pensou na poca em que havia se enganado com os comentrios da Gregory, achando que ele s queria tirar sarro dela e de suas amigas. Mas agora era bem fcil entend lo. Assim como seu pai, tinha o gnio forte e precisava ser elogiado. No momento, tanto Beth quanto Suzanne o estavam elogiando, Suzanne o observava com sagacidade por cima do cardpio.  Tudo o que quero  peperoni  reclamou Eric.  S peperoni  disse, correndo o dedo pelo cardpio, como um rato frustrado que no consegue sair do labirinto. Aparentemente, Will j tinha se decidido. Seu cardpio estava fechado e havia comeado a desenhar na toalha de mesa  sua frente.  Ora, ora, o retorno de Rembrandt  disse Pat ao passar pela mesa, apontando para Will.  Almoa aqui trs vezes por semana  explicou aos demais.  Gostaria de acreditar que  por causa da comida, mas sei que  por causa do material de arte gratuito. Will abriu um sorriso, mas eram seus olhos que sorriam mais que a boca, mostrando a todos um castanho profundo. Seus lbios ergueram se de leve s em um canto da boca. Ele no era uma pessoa fcil de ser decifrada, pensou Ivy.  O' Leary  disse Eric quando a dona da pizzaria saiu de perto.  Voc tem uma queda pela Pat ou o qu?  Gosta de mulheres mais velhas  provocou Gregory.  Uma em UCLA, uma que foi para a Europa em vez de comear a faculdade...  Voc est brincando  disse Suzanne, obviamente impressionada.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

73

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Will olhou para cima.  Somos amigos  disse e continuou desenhando.  E trabalho aqui do lado, na loja de fotografia. Isso era novidade para Ivy. Nenhum dos amigos de Gregory trabalhava de verdade.  Will desenhou o retrato de Pat  Gregory contou s meninas. Estava pendurado na parede, um pedao de papel barato rascunhado com giz de cera. Mas o desenho de Pat estava bom, com seus cabelos lisos e macios, seus olhos cor de mel e a boca generosa  ele tinha captado a beleza dela.  Voc  muito bom!  disse Ivy. Will ergueu os olhos e eles se entreolharam por um segundo, depois, continuou desenhando. Ela no sabia dizer se ele era indiferente ou se era simplesmente tmido.  Sabe, Will  disse Beth.  Ivy fica se perguntando se voc  indiferente ou se  tmido mesmo. Will piscou.  Beth!  disse Ivy.  De onde voc tirou isso?  U? Voc no se perguntou? Ou ser que foi a Suzanne? Talvez tenha sido eu. Sei l, Ivy, minha mente  confusa. Estou com dor de cabea desde que sa da sua casa. Acho que preciso de cafena. Gregory riu.  A pizza com chocolate vai cuidar disso. Will disse a Beth:  Quero deixar claro que no sou indiferente.  D um tempo  disse Gregory. Ivy sentou se na cadeira e olhou no relgio. Bem, tinha conseguido ficar oito minutos inteiros pensando em outras pessoas. Oito minutos sem imaginar como seria se Tristan estivesse sentado ao lado dela. J era um progresso. Pat anotou o pedido, depois procurou no bolso e entregou um formulrio para Will.  Estou fazendo isso na frente dos seus amigos, ento no h como dar para trs, Will. Andei guardando as toalhas com os seus desenhos  planejo vend las quando seus quadros estiverem pendurados no Metropolitan Museum of Art. Mas se voc no inscrever seu trabalho no festival, eu mesma farei a inscrio.  Obrigada por me dar uma escolha, Pat  disse, secamente.  Voc tem mais formulrios? Ivy precisa de um  disse Suzanne.  Voc tambm est guardando meus desenhos nas toalhas?  A sua msica, garota. O festival de Stonehill  para todos os tipos de artistas. Eles montam um palco para apresentaes ao vivo. Isso vai ser bom para voc. Ivy mordeu a lngua. Estava cansada das pessoas dizerem o que era bom para ela. Toda vez que diziam isso, tudo o que conseguia pensar era que Tristan era o bom para ela. Dois minutos dessa vez, dois minutos sem pensar nele. Pat trouxe mais formulrios junto com as pizzas. Os outros ficaram lembrando dos festivais de arte de vero passados.  Gostei de ver as danarinas  disse Gregory.  J fui uma jovem danarina  disse Beth.  At que um acidente prematuro encerrou sua carreira  disse Suzanne.  Eu tinha seis anos  disse Beth.  E tudo era to mgico  rodopiando com minha fantasia de lantejoulas e um milho de estrelas brilhando sobre a minha cabea. Infelizmente, dancei at cair do palco  Will soltou uma gargalhada. Era a primeira vez que Ivy o ouvia rir dessa forma.  Voc se lembra quando Richmond tocou acordeo?  O Sr. Richmond? Nosso diretor? Gregory concordou com a cabea.  O prefeito tirou o banquinho detrs dele.  Mas Richmond sentou se  disse Eric.  A! Ivy riu junto com todos os colegas, apesar de estar atuando a maior parte do tempo. Sempre que algo a interessava ou a fazia rir, era possvel prender sua ateno no primeiro minuto, e depois ela pensava, tenho que contar para Tristan. Quatro minutos dessa vez. Will desenhava cenas engraadas na toalha de mesa: Beth rodopiando na ponta dos ps, Richmond com as pernas para cima. Montava a cena como se fosse uma histria em quadrinhos. Suas mos eram rpidas, seu traado era firme e seguro. Ivy observou com interesse por alguns minutos. Depois Suzanne soltou um suspiro. Ivy olhou para o lado, mas o rosto de Suzanne era uma mscara de cordialidade.  L vem uma amiga sua  disse a Gregory. Todos se viraram. Ivy engoliu seco. Era Twinkie Hammonds, a moreninha mingon, como Suzanne a
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

74

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

chamava  a garota com quem Ivy havia conversado no dia em que tinha visto Tristan nadar pela primeira vez. E ela estava com Gary. Gary olhava para Ivy, depois para Will, que estava sentado ao lado dela, depois para Eric e Gregory. Ivy estremeceu. No era um encontro, mas mesmo assim, Gary a encarava de forma acusadora  Oi, Ivy.  Oi.  Est se divertindo?  perguntou. Ela brincou com um giz de cera, depois balanou a cabea.  Sim.  Faz tempo que no te vejo.  Eu sei  disse, apesar de que ela o tinha visto  uma vez no shopping e outra vez na cidade, mas se escondeu rapidamente na primeira porta que encontrou.  Saindo muito?  Bastante, acho. Cada vez que o via, esperava que Tristan estivesse ao lado dele. Toda vez sentia a mesma dor novamente.  Achei que estivesse. A twinkie me falou.  Algum problema?  perguntou Gregory.  Estava falando com ela e no com voc  respondeu Gary friamente.  E s estava querendo saber o que ela tem feito  mudou o peso do corpo e continuou.  Os pais do Tristan perguntaram de voc outro dia. Ivy abaixou a cabea.  Eu visito s vezes.  Que bom!  disse. Havia prometido a si mesma uma centena de vezes que iria v los.  Eles se sentem ss  disse Gary.  Acredito que sim  disse, desenhando pequenas letras "x" com o giz de cera. . Eles gostam de falar sobre o Tristan. Ela concordou com a cabea sem dizer nada. No podia voltar quela casa, no podia! Soltou o lpis.  A sua foto ainda est no quarto dele! Os olhos dela estavam secos. Mas sua respirao estava irregular. Tentou inspirar e expirar para control  la, a fim de que ningum percebesse.  Tem um recado embaixo da sua foto  a voz de Gary parecia um riso trmulo.  Voc sabe como so os pais de Tristan. Sempre respeitaram o filho e a sua privacidade. At hoje eles ainda no leram, mas sabem que a letra  sua, portanto, guardaram. Acham que  algum tipo de bilhete de amor e que deveria ficar junto com a fotografia. O que ela havia escrito? Nada valioso o suficiente para ser guardado. Apenas recados para confirmar a hora que se encontrariam para a prxima aula. E ele guardou. Ivy tentou controlar as lgrimas. Jamais deveria sair com os colegas naquela noite. No dava para fingir por tanto tempo.  Seu cretino!  era a voz de Gregory.  Est tudo bem  disse Ivy.  Saia daqui, cretino, antes que eu saia com voc!  ordenou Gregory.  Est tudo bem  e, para ela, estava mesmo. Gary no conseguia controlar seus sentimentos da mesma forma que ela no conseguia.  Falei para voc, Gary  disse Twinkie.  Ela no  do tipo que usa preto por um ano. A cadeira de Gregory caiu quando se levantou e ele a chutou para longe. Dennis Celentano o pegou antes que chegasse ao outro lado da mesa  Qual o problema com vocs, rapazes? Ivy sentou se com a cabea baixa. Antes teria rezado aos anjos pedindo foras, mas no conseguia mais fazer isso. Controlou se, colocando seus braos ao redor de si mesma. Fechou se para todo tipo de pensamento, todo tipo de sentimento, bloqueou as palavras, com raiva, que surgiam  sua volta. Entorpecida, ficaria entorpecida; se pudesse manter o torpor para sempre. Por que no havia morrido no lugar dele? Por que as coisas tinham acontecido daquela forma? Tristan era tudo que seus pais tinham. Era tudo que ela queria. Ningum o substituiria. Ela deveria ter morrido, no ele! De repente, o ambiente ficou silencioso, um silncio mrbido  sua volta. Havia dito aquilo em voz alta? Gary tinha ido embora. No ouvia nada alm do lpis correndo pelo papel. A mo de Will movia  se rapidamente, com o traado cada vez mais forte e mais certo do que antes. Ivy observava com fascinao. Finalmente, Will afastou a mo. Olhou para os desenhos. Anjos, anjos, anjos.
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

75

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Um anjo que parecia Tristan com os braos envoltos nela de forma amorosa. Sentiu a fria dominando seu corpo.  Como voc ousa! Como voc ousa, Will! Seu olhar cruzou com o dela. Havia pnico e confuso em seus olhos. Mas ela no recuou. No sentia nada alm da raiva.  Ivy, no sei porque... No quis... Nunca quis, Ivy, juro que nunca... Ela rasgou o papel. Ele olhava incrdulo.  Jamais magoaria voc  disse, em voz baixa. Tinha sido to fcil. Parecia que em menos de um milionsimo de segundo havia conseguido entrar em Will. No houve dificuldade em se comunicar, os desenhos dos anjos vieram rapidamente, como se suas mentes fossem uma s. Ele havia compartilhado com Will a surpresa de ver a imagem que seu lpis havia desenhado, se ao menos Will pudesse torn los verdadeiros para Ivy, sua Ivy, que precisava de consolo.  O que fao agora, Lacey? Como posso ajudar Ivy? Se tudo que fao a magoa ainda mais? Mas Lacey no estava por perto para aconselh lo. Tristan vagou pelas ruas da silenciosa cidade depois que Ivy e seus amigos saram. Precisava pensar. Estava quase com medo de tentar novamente. Estatuetas de anjos, desenhos de anjos, s o fato de mencionar anjos provocava em Ivy nada mais do que dor e raiva  mas era isso que ele era agora, um anjo. Seus poderes recm adquiridos eram inteis, completamente inteis. E ainda havia a questo da sua misso, da qual ele no fazia a mnima idia. Era to difcil pensar nisso, quando tudo o que conseguia pensar era em uma forma de se aproximar de Ivy.  O que fao agora Lacey?  perguntou novamente. No sabia se Lacey estava sendo exageradamente dramtica quando havia dito que sua misso poderia ser salvar algum de algum desastre. Mas, e se estivesse certa? E se ele estivesse to preso  sua dor e  de Ivy que estava fracassando com algum? Lacey disse que tinha que ficar perto das pessoas que conhecia e por isso, assim que saiu da escurido, foi procurar por Gary e o seguiu at o Celentano's naquela noite. Ela tambm havia dito a ele que sua misso poderia estar no passado, algum problema que tivesse visto, mas que no tivesse dado importncia na poca. Precisava aprender como viajar de volta no tempo. Imaginava o tempo como uma teia rodopiando em meio aos pensamentos, sentimentos e aes todos juntos, uma teia que o segurava at romper de forma sbita. Parecia que o ponto de partida mais fcil seria seu ponto de sada. Ser que ajudaria se ele fosse at l? Andou rapidamente pela sinuosa estrada escura. Era bem tarde e no havia carros na estrada. Uma estranha sensao, a sensao de que, a qualquer momento um cervo saltaria na frente dele, fez com que diminusse o ritmo, mas s por pouco tempo. Foi estranho com que facilidade encontrou o lugar e a certeza que sentia de que aquele era o lugar, pois cada curva da estrada parecia exatamente a mesma. A lua, apesar de estar cheia, mal conseguia iluminar as pesadas copas das rvores. No havia o mnimo claro de luz ali, s a iluminao ambiente, uma espcie de nvoa cinza fantasmagrica. Mesmo assim, encontrou as rosas. No as que tinha dado a ela, mas rosas parecidas. Estavam do outro lado da estrada, totalmente murchas. Ao peg las, ficaram completamente despetaladas; s sobrou a fita roxa que as amarrava. Tristan olhou para a estrada como se pudesse olhar de volta no tempo. Tentou se lembrar do seu ltimo minuto de vida. A luz. Uma incrvel luz e voz, ou recado  no tinha certeza se era, na verdade, uma voz e no podia se lembrar de palavra alguma. Mas tinha conseguido chegar depois da exploso de luz. Voltou para a luz e focou sua mente nela. Um ponto de luz  sim, antes do tnel, antes da luz ofuscante no fim dele, havia um ponto de luz, a luz dos olhos do cervo. Tristan deu de ombros. Segurou se e sentiu o impacto com seu corpo todo. Sentiu como se estivesse batendo nele mesmo. Caiu para trs. O carro ia em marcha r em alta velocidade, como em uma montanha russa ao contrrio. Era como se estivesse preso em uma fita sendo rebobinada, com toda a conversa e os movimentos frenticos voltando para trs. Tentou parar, desejou que parasse, toda sua energia canalizada para que a corrida no tempo parasse. Ento, estava sentado ao lado de Ivy, totalmente paralisado, como se estivesse congelado em uma tela de cinema. Estavam no carro e ele lentamente deixou a cena correr a partir desse momento.  ltima olhada no rio  foi o que disse assim que fizeram uma curva, desviando se do lugar em que estavam. O sol de junho dominava toda a regio oeste do interior de Connecticut, enviando os seus raios de luz s copas das rvores, cobrindo as como se fossem ouro. A estrada sinuosa parecia um tnel de bordos, lamos e
Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

76

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

carvalhos. Ivy sentia estar nadando em meio s ondas com Tristan, o sol brilhando no alto, os dois juntos em movimento unssono, em direo a um abismo de azul, roxo e verde escuro. Tristan ligou os faris do carro. Voc no precisa correr  disse Ivy.  No estou mais com fome.  Eu matei a sua fome? Ela balanou a cabea negativamente.  Acho que me alimentei de felicidade  respondeu suavemente. A velocidade do carro continuava aumentando pelas curvas da estrada...  J falei que a gente no precisa correr. Engraado. No sei o que... No parece que...  murmurou Tristan, olhando para os seus ps.  V mais devagar est bem? No tem problema se a gente se atrasar um pouquinho.  Ah!  Ivy apontou para frente da estrada.  Tristan! Havia algo saindo do meio dos arbustos e parando no meio da estrada. No dava para ver o que era. S dava para perceber a movimentao por entre as sombras. E ento o cervo parou. Virou a cabea e olhou fixamente para as luzes dos faris.  Tristan! ela gritou. Ele pisou mais fundo no freio. Estavam cada vez mais prximos dos olhos brilhantes.  Tristan, voc no est vendo? A velocidade no parava de aumentar. Ivy, tem algo... Um cervo! Ele freou inmeras vezes, o pedal ia at o fim, mas o carro no diminua o ritmo. Os olhos do animal reluziam. Havia uma luz atrs dele, uma mancha brilhante em meio  escurido. Um carro vinha na outra pista. Do outro lado havia inmeras rvores. No tinha como desviarem nem para a esquerda nem para a direita, e o pedal estava encostando no cho do carro. Pare!  ela gritou. Estou... Pare! Porque voc no para?  ela implorou. Tristan, pare! Ele desejou que o carro parasse, desejou voltar ao presente, mas no tinha controle, nada o fazia parar de aumentar a velocidade em direo ao redemoinho escuro que estava preparado para engoli lo. Quando abriu os olhos, Lacey estava olhando para ele.  Viagem difcil? Tristan olhou para os lados. Ainda estava na mesma estrada, mas j era de manh, a luz do sol era to frgil como as teias de aranha que se prendiam s rvores. Tentou se lembrar do que tinha acontecido.  Voc me chamou, horas atrs, me perguntou o que fazer em seguida. Obviamente, no conseguiu esperar para descobrir.  Voltei no tempo  disse, passando a me lembrar de tudo de repente  Lacey, no foi s o cervo. Se no fosse o cervo, teria sido um muro. Ou as rvores, ou o rio ou a ponte. Podia ter sido outro carro.  Calma a, Tristan! O que voc est falando?  No havia presso, nem fluido. Ia at o fundo do cho do carro.  O qu?  O pedal. O freio. No era para funcionar dessa forma  segurou Lacey com fora  E se... e se no foi um acidente? E se s pareceu um acidente?  E voc s parece estar morto. Com certeza, me enganou.  Preste ateno, Lacey. Os freios estavam funcionando perfeitamente. Algum mexeu neles. Algum cortou algum fio! Voc tem de me ajudar!  Mas no sei nem colocar gasolina!  Voc tem de me ajudar a falar com a Ivy  Tristan comeou a caminhar pela estrada.  Preferia ajudar com os freios  Lacey chamou por ele.  Mais devagar, Tristan. Antes que voc derrube outro cervo. Mas nada o faria parar.  Ivy tem de acreditar novamente. Temos de falar com ela. Ela tem de saber que no foi um acidente. Algum queria ver um de ns dois mortos!

Fim!

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057

77

Elizabeth Chandler  Beijada Por Um Anjo 1- Beijada Por Um Anjo

Esta obra foi digitalizada/traduzida pela Comunidade Tradues e Digitalizaes para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefcio da leitura queles que no podem pagar, ou ler em outras lnguas. Dessa forma, a venda deste ebook ou at mesmo a sua troca  totalmente condenvel em qualquer circunstncia.

Voc pode ter em seus arquivos pessoais, mas pedimos por favor que no hospede o livro em nenhum outro lugar. Caso queira ter o livro sendo disponibilizado em arquivo pblico, pedimos que entre em contato com a Equipe Responsvel da Comunidade  tradu.digital@gmail.com

Aps sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim voc estar incentivando o autor e a publicao de novas obras.

Tradues e Digitalizaes Orkut - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057 Blog  http://tradudigital.blogspot.com/ Frum - http://tradudigital.forumeiros.com/portal.htm Twitter - http://twitter.com/tradu_digital

Comunidade Orkut Tradues e Digitalizaes - http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057


